quinta-feira, 24 de janeiro de 2013
Toalha ungida ou poder no nome de Jesus
O texto de Atos 19. 11,12 poderia ser considerado uma pérola para a equipe de marketing da Igreja Mundial do Poder de Deus. Como leitura da Bíblia não é o forte dessa turma, penso que não descobriram esse texto, pois nunca vi Valdemiro Santiago mencionar essa passagem para justificar a "toalhinha sê tu uma benção". Nessa passagem somos informados que lenços e aventais do uso pessoal de Paulo eram usados como amuletos para curas e exorcismos. Como todo texto fora do contexto, seria muito fácil sustentar o fetiche praticado na IMPD e outras tantas "igrejas concorrentes" que atribuem a qualquer objeto ungido poderes mágicos. Contudo, a Escritura interpreta-se a si mesma (CFW* 1.9), e por isso podemos ter o entedimento claro desta passagem.
Em Atos 19 encontramos Paulo chegando em Éfeso. Trata-se de um dos textos nevrálgicos a partir de Atos 1.8, quando Jesus disse que seus discípulos receberiam poder ao descer sobre eles o Espírito Santo, e que seriam suas testemunhas em Jerusalém, Judéia, Samaria e até os confins da terra. Observamos a ordem da concretização dessas palavras de Jesus em Jerusalém, no capítulo 2, em Samaria, no capítulo 8, e na Judéia, capítulo 10. Agora (19.1-7), Paulo chega a um grupo de discípulos que ainda não haviam ouvido sobre o Espírito, que simplesmente tinham sido batizados no batismo de João. Eles ouvem a respeito do verdadeiro intento do batismo de João, e consequentemente são batizados em nome de Jesus. Paulo impõe-lhes as mãos, e o Espírito vem sobre eles, falando em línguas e profetizando. Assim, em Atos 19 cumpri-se o último e definitivo "itinerário" do Espírito, a partir do qual os confins da terra seriam alcançados pelo testemunho de Cristo. Abrindo um parentese sobre esta passagem, é por isso que não necessitamos que o Espírito "venha como em Pentecostes", pois ao longo destes textos Ele já veio. Seu derramamento em Atos foi suficiente para o testemunho de Cristo até os confins da terra, e portanto, até hoje.
Mas voltando ao nosso ponto, Paulo continua ensinando em Éfeso, primeiro na sinagoga, por três meses, e depois em um lugar pertencente a um homem chamado Tirano (ou cognominado assim) por cerca de dois anos. O versículo 10 nos diz que isso "deu ensejo para que todos os habitantes da Ásia ouvissem a palavra do Senhor, tanto judeus quanto gregos". O que segue daí no texto aconteceu dentro deste período de ensino, pelo qual o poder de Deus vinha sendo propagado mediante a pregação do evangelho. É dentro desse contexto que podemos entender tanto o episódio das toalhas, como também a surrada que os exorcistas levaram do demônio.
Primeiro somos informador que "Deus fazia, pelas mãos de Paulo, milagres extraordinários". Isso, como claramente diz o texto, é o que Deus fazia, por intermédio de Paulo. Agora, o fato de [outros] levarem lenço e toalhas de Paulo, para curar enfermos (e possessos), não quer dizer necessariamente que se tratava de algo promovido pelo apóstolo. Mas, ainda assim, não devemos admitir que as enfermidades e os espíritos malignos eram banidos em tais práticas? E agora José?
Devemos ter em mente que apesar destes sinais paralelos, não era ainda assim que Deus estava sendo glorificado. O pragmatismo correspondia a expectativa dos pagãos, acostumados a feitiçaria (v.19), não de Deus. O evento promovido por judeus exorcistas nos fazem enxergar melhor a coisa toda. É dito que os sete filhos de Ceva, um sumo sacerdote, praticavam exorcismo, e que resolveram usar o nome do "Jesus a quem Paulo pregava", para expelir um demônio. É interessante notar o fato de que Jesus era um nome comum na época, e que por isso aqueles exorcistas fizeram questão de "informar" o espírito maligno que não se tratava de qualquer Jesus, mas o de Paulo. É nítido que estes judeus não eram convertidos ao Senhorio de Jesus, mas que por supertição achavam que podiam usar aquele nome anunciado pelo apóstolo como se fosse um "Abracadabra". Apesar de não serem gentios, eram tão pagãos quantos eles. Achavam que podiam manipular uma palavra para o efeito sobrenatual desejado - o nome disso é feitiçaria. O demônio, que sabe muito bem quem é Jesus (Marcos 5.7), explica que também conhece Paulo, mas, que, eles não. E estes sete exorcistas são surrados e desmoralizados publicamente.
Este evento trouxe a tona naquela região, tanto para judeus como para gentios, que o entendimento deles a respeito do evangelho estava equivocado. O nome de Jesus foi engrandecido entre todos de forma pública. É dito que "muitos dos que creram vieram e confessando publicamente as suas próprias obras". Disto podemos deduzir que apesar de terem crido anteriormente, não haviam compreendido a fundo a santidade do nome de Jesus, de que não se tratava de um amoleto, ou mais uma divindade, e sim o SENHOR. O impacto se deu também sobre os feiticeiros, pois abandonaram completamente suas práticas místicas. As obras literárias de ocultismo foram queimadas expontaneamente, sem se importarem com o valor material que aquilo tinha. Ainda mais a frente, apartir do versículo 23, esse abandono das práticas pagãs traz prejuízo aos ouríves que produziam nichos para a deusa Diana. Em outras palavras, o nome de Jesus de fato desestabilizou o reino das trevas em Éfeso, reconfigurando até a economia local.
Pois bem, voltando ao entendimento sobre os lenços e toalhas de Paulo. Creio que tais práticas não correspondem ao que agrada a Deus, pois os sinais devem sempre servir para glória de Deus e não de homens. Ainda que tais objetos tenham de fato servido para curas e expelir demônios, isso não quer dizer que fosse essa a intensão de Deus para aquele povo. Apesar da iniciativa deles em usar tais objetos, na verdade era Deus quem os estava provando ali. Os sinais que Deus realizara através de Paulo apontava para si. Mas a reciclagem dos objetos de Paulo, dizia respeito a ele mesmo. Já não era mais Deus quem estava sendo glorificado entre aquela gente, mas o próprio Paulo, e sabemos que não por vontade própria (Atos 14.14-18).
Consequentemente, o nome de Jesus deve ser reverenciado. Certamente os sete judeus tinham ouvido falar de Jesus por meio de Paulo, mas achavam que se tratava de nome mágico, que podia ser usado para os seus próprios fins. Assim como Simão quis comprar o poder do Espírito (Atos 8.18,19), este exorcistas achavam que podiam tomar o nome de Jesus como um instrumento de trabalho. Aprenderam de forma vexatória que não se pode manipular esse Nome. O demônio, instrumentalizado por Deus nessa passagem, deixa claro que não se trata meramente da verbalização da palavra "Jesus", mas da autoridade que se encontra em sua pessoa, sendo que isso era o que Paulo pregava. Assim como os pagãos que usavam as tolhas de Paulo, eles pensavam que podiam usar o discurso de Paulo. Mas fico claro que o nome de Jesus diz respeito a sua pessoa e obra, cridos para a salvação, e não para qualquer uso pragmático.
O efeito final destes acontecimentos, ao contrário do que se podia esperar após o fracassado exorcismo, foi justamente a conversão verdadeira daquele povo, tanto judeus quanto gregos. O nome de Jesus foi compreendido no sentido exato do que representa, ou seja, seu Senhorio sobre todas as coisas. Eles publicaram seus pecados como reconhecimento de sua miserabilidade e santidade em Jesus. E também os feiticeiros abandonaram suas práticas abrindo mão de seus livros. Uma paráfrase quase perfeita seria como marinheios que aportados em uma terra estrangeira, e que queimam seus navios para nunca mais voltarem. Em suma, o nome de Jesus mudou suas vidas, pois é o único que tem poder para não somente curar ou libertar, mas dar vida, salvando-os da morte do pecado.
Em nossos dias o paganismo dentro das igrejas do evangelho fácil, na pregação dos pastores feiticeiros, tem-se feito o mesmo uso de toalhas e outros objetos ungidos, e do nome de Jesus. Curas e libertações têm sido publicadas em sessões de espiritismo "gospel". A glória tem sido atribuida a homens e não a Deus. O arrependimento não existe nos lábios daqueles que se dizem crentes. Certamente eles desconhecem o propósito dos sinais descritos na Bíblia, a glória de Deus e o verdadeiro poder no nome de Jesus. Não adoram a Deus verdadeiramente, e não se converteram de seus caminhos maus. Caso não se arrependam, chegará o dia em que não boca do demônio, mas do próprio Deus ouvirão: "Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniqüidade!" (Mateus 7.21-23)
(*) Confissão de Fé de Westminster.
sábado, 12 de janeiro de 2013
A Simplicidade do Poder de Deus
Creio que a maioria das pessoas conhecem a história do general assírio Naamã, descrita em 2 Reis 5. A cura de Naamã talvez seja um dos milagres mais famosos realizados por Eliseu. O próprio Senhor Jesus o menciona no Evangelho de Lucas. Sem dúvida, muitos pontos podem ser observados neste texto, mas gostaria de específicamente me focar nos versículos 9-14, e falar sobre a simplicidade que se pode encontrar na Palavra de Deus.
Naamã, que obviamente creu no que disse a sua jovem escrava, de que em Israel havia um homem de Deus que podia curá-lo, e agora estava na porta da casa do profeta para ser ali restaurado de sua lepra. O que se sucede antes de sua cura, é algo curioso, visto que demonstra que a fé de Naamã, ainda que convicta de que seria curado, não é ainda uma fé verdadeira, depositada na Palavra de Deus.
De fato, Eliseu não foi de todo receptivo para com o estrangeiro, tão somente enviou seu mensageiro para dizer-lhe que simplesmente se lavasse sete vezes no rio Jordão. Isso trouxe ira ao coração do assírio, pois não correspondia ao modus operandi que tinha em mente sobre o seu restabelecimento.
O general, certamente em seu paganismo, descreve sua espectativa como algo extravagante, teatral, estraordinário. Mas foi frustrado por uma ordem simples. Até mesmo seu patriotismo surgem quando compara os rios da Assíria com o Jordão, que diga-se de passagem, não era tão limpo. O texto nos faz pensar que ele já estava disposto a voltar para sua terra, remoendo sua indignação, quando foi convencido por seus subordinados que algo tão simples de se fazer não podia ser descartado, uma vez que algo mais difícil ele o faria.
O relato nos diz que ele fez consoante a palavra do homem de Deus e foi curidado de maneira estraordinária. Pois bem, dois pontos desejo ressaltar sobre essa cura. Creio que Naamã, como afirmei acima, não era um homem crente verdadeiro. Que apesar de ter sido instrumento de Deus para juízo sobre Israel, e ter acreditado nas palavras de sua escrava israelita sobre a cura pelo profeta, isso não fazia dele uma pessoa salva. Penso que conforme o texto descreve posteriormente, ele se converte ao Deus verdadeiro (v.15-19). Mas os pontos nessa passagem dentro do texto que desejo acentuar, podem dizer respeito tanto a crentes, como certamente refletem os incrédulos.
Aquele homem era simplesmente um pagão superticioso, que pela descrição que faz do processo que esperava em sua cura, imaginava que o Deus de Israel era simplesmente mais um dentro muitos, e que o profeta não passava de mais um curandeiro. Ele não duvidava do que esse Deus israelita podia fazer, ele apenas não sabia que Ele é o único. Sua mentalidade animista concebia um ritual voltado para si, ondo um deus invocado (domesticado) atenderia ao profeta e o curaria. Nada mais antropocêntrico do que esse domínio sobre uma divindade.
Mas ele foi frustrado a começar pelo fato de que o profeta não necessariamente o recebe, mas apenas dá ordens sobre o que deve fazer. Sendo estrangeiro em Israel, ele é colocado em seu devido lugar, apesar de politicamente estar em vantagem sobre Israel. Podiam ser mais ricos, e possuir rios mais limpos e aprazíveis aos olhos, mas em Israel havia profeta (v.8). Talvez além de sua jactância patriótica sobre os rios, também imaginava que neles haviam propriedade mágicas - talvez.
De qualquer forma, essa soberba é visível nos ímpios por vezes quando “buscam a Deus”. Quando rogam seu poder, mas que se acham e posição de domínio, e em condições vantajosas como o assírio pensava. Isso não é fé, mas apenas supertição. E ainda que Deus responda misericordiosamente alguma petição feita nessas condições, isso não significa salvação. Em João encontramos Jesus fazendo sinais a homens, o que necessariamente não eram acompanhados de fé verdadeira da parte destes (2.23-25; 6.24-27).
É triste é perceber que alguns que são (ou se dizem) crentes, imaginam que podem realmente determinar como Deus deve fazer algo. Começando pelo fato de achar que Deus sempre precisa curar, o que o próprio Senhor Jesus desemente quando menciona essa passagem em Lucas 4.27. A questão não está na fé de Naamã, mas na graça demonstrada para com ele, homem ímpio e egocêntrico. Jesus está justamente afirmando que a graça de Deus alcançoou até mesmo um estrangeiro pagão, o que deveria despir qualquer judeu de sua soberba nacionalista.
O que observo em seguida nessa passagem, obviamente relacionado a tudo isso, é que o sinal foi consoante a Palavra de Deus dada pelo profeta. Havia profeta em Israel, e isso não exalta a pessoa de Eliseu em si, mas ao fato de que Deus escolheu se revelar por intermédio daquele povo. Um povo naquele momento dominado pelos assírios, quebrado em suas forças humanas, mas ainda assim eleitos de Deus. Devemos nos ater a nossa humilde condição como "povo eleito" (1 Coríntios 1.26-29), e nunca sucumbir a soberba. É curioso ainda como Deus usa subalternos de Naamã para o convencerem pela lógica. Em outras palavras, já chegamos até aqui, o que custa submeter-se a algo tão simples. Se fosse algo extravagante ainda assim seria acatado, quanto mais alguns simples mergulhos. Devemos assim também ouvir o que é sensato, ainda que venha de alguém possa ser considerado mais simples.
Não se tratava de uma simpatia, nem de água milagrosa do Jordão como os saltimbancos da fé prometem na TV hoje em dia. Tratava-se do que Deus revelava ali a respeito de si, e que Naamã compreendeu claramente quando foi curado (v.15). Era a Palavra que o estava reestabelecendo, regenerando sua carne. É Deus quem pode remover a lepra não só da carne, mas também do coração, como nenhum outro deus o pode fazer. O instrumento para tanto é sua Palavra, que dada aos profetas, têm o poder de salvar. A importância do sinal está naquilo para onde aponta, e que sempre nas Escrituras é revelar o verdadeiro Deus. Nisto consiste nossa salvação, não meramente nas benecesses que podemos receber, como cura, ou a vitória em uma guerra, mas no fato de crermos no Deus criador e salvador.
Uma pessoa crente não pode perder de vista isso, que a Palavra é o instrumento de Deus para nossa salvação. E que esta palavra é simples (2 Coríntios 11.3). O evangelho é estremamente simples, pois nos fala de Deus que se fez homem, que em tudo foi obediente ao Pai, e que morreu na cruz em nosso lugar. Que Ele ainda ressuscitou e nos chama a crer nEle. É simples assim. Em nossa vida cristã, somos chamados a simplicidade pela leitura bíblica, a oração e a comunhão com os irmãos. O que há de tão difícil nisso? Apenas a dureza do nosso coração, como a de Naamã, que desejava sua cura por seus próprios métodos antropocêntricos. Somos chamados ao que é simples, que não depende de nós mesmos. Se fosse algo difícil, como muitos acreditam e o fazem, de nada adiantaria, pois fora da Palavra somos estrangeiros, estranhos a Promessa (Efésios 212).
Assim, a simplicidade do evangelho nos é apresentada pelo Filho do Homem, aquele que não somente era profeta, mas também a própria Palavra de Deus encarnada. Desta sorte, somos chamados a nos humilhar em obediência a Ele, para o que é simples, mas ao mesmo tempo, poderoso para nos salvar e restaurar-nos para sempre.
quarta-feira, 19 de dezembro de 2012
Natal é Jesus nascer no coração?
Tenho pensado na afirmação de que Natal é Jesus nascer em nossos corações. Eu mesmo já disse isso, e participei de uma cantata onde uma das músicas fazia esta colocação. Mas não seria isso algo semelhante a afirmação de Bultmann quando diz que a ressurreição de Jesus se deu no querigma, ou seja, na experiência subjetiva dos discípulos em sua proclamação? Creio que em parte não, mas também em parte sim.
Como disse, eu mesmo já me vali dessa afirmação para apontar a necessidade de conversão das pessoas diante da mensagem de que Jesus nasceu nesse mundo. Que o evento do Natal não pode ser apenas mais uma festividade de fim de calendário, mas uma realidade na vida das pessoas pelo milagre da regeneração. E com isso, nunca tive a pretensão de esvaziar a historicidade do Natal em função de algum tipo de subjetividade supersticiosa de fim de ano.
Mas, por outro lado, se deixamos de pregar o evento histórico, e suas implicações bíblicas, acabamos por subtrair a essência da mensagem natalina: a encarnação de Jesus, o fato de que veio ao mundo nascido de mulher, pela obra do Espírito Santo, para salvar seu povo dos seus pecados.
Sei que Jesus não nasceu no dia 25 de dezembro, e não tenho nenhuma crise quanto a isso. Não vejo escândalo algum em separar um dia do ano para celebrar o fato de que o Filho de Deus veio a esse mundo em conformidade com o que as Escrituras dizem a esse respeito. Mas não posso fazer (como a mídia e o comércio o fazem) dessa data um dia místico no ano. E para isso é preciso afirmar não somente a necessidade individual de crer, como também aquilo em que se deve crer.
Portanto, não quero criticar o uso da expressão "nascer no coração", mas apontar a necessidade conjunta de se afirmar toda a história do nascimento de Jesus, pois do contrário, a fé não nos é outorgada (Romanos 10.17). Afirmar o "nascimento de Jesus nos corações" sem a mensagem bíblica por traz dessa obra regenerativa, é contribuir para a superstição que reina no pensamento moderno, é somar com a mensagem humanista de fim de ano de que o homem é intrinsecamente bom. Jesus só pode nascer no coração dos homens quando, pela obra regenerativa do Espírito, eles são levados a fé na Palavra de Deus que, nesse caso específico, descreve o evento histórico da encarnação do Messias anunciado no Antigo Testamento.
Que Deus nos ajude a sermos fiéis em sua proclamação (1 Coríntios 4.2).
segunda-feira, 17 de dezembro de 2012
Tropeços Mortais
O efeito devastador que escândalos podem causar nas igrejas e sociedade, pode ser comparado aos mortos em um guerra, e as mortes de crianças abortadas criminosamente. Por escândalos aqui, me refiro aos de dois tipos: morais e teológicos.
O escândalo moral, que geralmente se dá em áreas de ordem sexual, financeira e ainda vícios socialmente condenáveis, pode ter o mesmo efeito midiático de uma guerra. Ou seja, sua repercussão é maior, mais detalhada, e de um impacto mais intenso nas pessoas. Mas, não minimizando os horrores de uma guerra, ou desprezando sua malignidade, podemos dizer que os estragos ainda são menores se comparados aos números do aborto.
Falando em números, podemos tomar o parâmetro da Segunda Guerra Mundial, onde cerca de 60 milhões de pessoas foram mortas. A Segunda Guerra durou de 1939 a 1945, ou seja, 6 anos praticamente. O número de abortos por anos gira em torno de 46 a 55 milhões todos os anos. Em outras palavras, quase uma Segunda Guerra Mundial todos os anos em crianças mortas. Mais uma vez quero dizer que não estou desqualificando uma atrocidade em razão da outra, mas apenas demonstrar que apesar da gama das mortes silenciosas de bebês, a visibilidade daquelas ocorridas em guerras é muito maior. Poderíamos discorres sobre os horrores de ambos os tipos de genocídios, mas não é esse o meu foco aqui.
Quero apenas demonstrar que os escândalos de ordem moral têm proeminência em sua repercussão, na atenção dispensada pela maioria. Seus efeitos são mais facilmente percebidos, e por isso podem causar maior impacto. A palavra "escândalo" significa literalmente tropeçar em uma pedra, cair por sua causa. Um escândalo moral tem o poder de tornar mais evidente uma queda individual ou coletiva. Tanto o que praticou alguma imoralidade, quanto os que por causa desse ato de outrem, abandonaram a fé.
Mas o escândalo teológica, o abandono da ortodoxia em razão de ensinos e práticas heréticas, é como um veneno que mata aos pouco, silenciosamente. Apesar de estar estampado na cara de muitas denominações, publicado e proclamado por seus proprietários e falsos profetas, nada disso causa tanto impacto. O silêncio ao qual me refiro não é o de seus emissários, os quais tem o microfone nas mãos. Falo a respeito de serem poucas as vozes de contestação a mentira proferida de maneira perversa. Falo do consentimento dos que discordam, mas acham que se trata de um mal menor. Uma coisa não deveria sobrepor a outra, ambas precisam ser tratadas com firmeza bíblica. Tanto o jovem que adulterou com a madrasta (1 Coríntios 5.1-5), quanto os falsos mestres judaizantes (Gálatas 1.8), são tratados com dureza por Paulo.
De uma forma ou de outra, pessoas mortas espiritualmente são segregadas da Verdade pelos escândalos. Sei que da parte de Deus, soberanamente aqueles que se escandalizam e abandonam a fé (no sentido da verdade bíblica revelada), é porque nunca foram crentes de fato (Hebreus 10.38, 39), nunca foram regenerados pelo Espírito para verem o Reino (João 3.3). Mas, de outra sorte, apesar de serem inevitáveis os escândalos, pesa sobre os que o produzem um ai terrível (Lucas 17.1,2). Devemos nos ater para ambos os escândalos com o entendimento de que são mortais, e igualmente intoleráveis. Não me refiro com isso a ideia de que são imperdoáveis - Deus pode restaurar o faltoso tanto de uma fraqueza quanto da outra - mas que não podemos nunca ser condescendentes com o pecado, seja na carne ou nas palavras.
segunda-feira, 26 de novembro de 2012
Inocência e Humildade não salva vidas
Alguns dias atrás, uma moça tentou me vender um chocolate por R$ 2,00 no semáforo para ajudar na programação dos jovens de sua igreja. Perguntei qual era sua denominação, e ela me disse que era de uma dessas "...al de alguma coisa de Deus". Perguntei sobre os dízimos que eram recolhidos na igreja, e ela respondeu que estes não eram destinados para os jovens, mas para outras incumbências da igreja. Eles mesmos precisavam arrecadar o dinheiro para promover festas para evangelizar. A justificativa dela para isso era que as pregações não eram suficientes para alcançar pessoas que gostam de festas. Tive pena dela, mas não comprei o chocolate. Infelizmente não tive tempo de lhe falar sobre o verdadeiro evangelho: o semáforo abriu.
Fiquei com a impressão desses jovens pedindo dinheiro no semáforo, como a que tenho dos Testemunhas de Jeová batendo de porta em porta aos domingos pela manhã. Ambos estão ali num esforço desgraçado, se expondo a humilhação, com o intento de salvar pessoas do inferno, mas tudo em vão. Digo isso por dois motivos simples.
Primeiro, porque a salvação não se dá por nenhum esforço, sacrifício ou humilhação humana de qualquer pessoa. Em outras palavras, apesar de se disporem para essa "obra", eles mesmos não podem salvar ninguém, por maior que seja sua vontade (Romanos 9.1-3). Foi pela obediência de Cristo, tanto não pecando, quanto entregando-se a morte, que recebemos vida eterna e salvação. Este sim, o Deus que se fez homem, é o único que pode salvar outros homens.
Segundo, porque todo esse esforço deles, assim como desconsidera o sacrifício de Cristo, igualmente desconsidera o poder de sua Palavra. No caso dos Testemunhas de Jeová, a questão nem chega a ser sua estratégia, pois se dispõe a estudar suas bíblias com as pessoas. O problema é que não creem na verdade a respeito de Cristo, como o Filho de Deus, a segunda pessoa da Trindade, nem no Espírito Santo como Deus também (assim como tantas outras heresias). Penso que o evangelho da prosperidade também é outro evangelho (Gálatas 1.9), herético não por negar a divindade de Cristo ou do Espírito, pois isso eles não o fazem, mas por confundir a salvação na terra com o descanso do céu, descontextualizando promessas bíblicas, tornando-as em mentiras. Um excelente texto a esse respeito foi escrito pelo Rev. Augustus Nicodemus em seu blog. Mas não apenas sua teologia é mortífera, como também suas estratégias, as quais são infelizmente praticadas em muitas igrejas não necessariamente heréticas. Em suma, entendem que a pregação do evangelho não é o método mais eficaz para se alcançar as pessoas. É preciso promover o que agrada ao gosto delas, e daí surgem festas e o que mais o coração do homem puder imaginar. Toda a Escritura da testemunho de que sempre foi pela exposição da Palavra que os homens foram alcançados ao longo da História. O Senhor Jesus não usou outro método que senão a pregação da Palavra.
A cegueira destas pessoas não as justifica. Apesar de me compadecer delas, sei que seus corações estão entulhados de pretensões e soberba. Digo isso em razão das observações acima. O pensamentos daqueles que se desviam de Cristo, sua obra e Palavra é sempre altivo, pois faz de sua própria obra, de suas palavras e mecanismos, o bote salva-vidas para resgatar outros. Mas o caso é que esse bote esta furado. São cegos que imaginam poder guiar outros cegos. Mal sabem que se precipitam junto aos demais para o inferno (Mateus 23.15ss).
sexta-feira, 31 de agosto de 2012
E se você pudesse começar tudo de novo?
Muitas
pessoas acreditam que se tivessem uma segunda chance na vida, tudo seria
diferente. Creio que, pelas implicações lógicas, começar tudo de novo
certamente é começar diferente. A grande questão é se as coisas seriam
melhores. Ou, melhor dizendo, se as coisas seriam endireitadas.
Sim,
é possível começar de novo. Mas isso não é o suficiente, é preciso começar
direito. Tornar as coisas diferentes, por piores que elas sejam não significa
torna-las melhores. Sempre é possível piorar. É preciso que o novo começo seja
como uma nova estrada, endireitada, aplainada como um tapete, e na direção verdadeira.
A
Palavra de Deus nos fala em um novo começo, o novo nascimento! Jesus diz no
Evangelho de João 3.3: Em
verdade, em verdade te digo que, se alguém não nascer de novo, não pode ver o
reino de Deus. Ou
seja, novo começo é possível, e na direção certa, do Reino de Deus.
Não
se trata de reencarnar, mas nascer do Espírito Santo. Essa é uma obra
maravilhosa que Deus faz em nós, transformando nosso coração pecaminoso, duro
como uma pedra, em um coração de carne, vivo e sensível a sua Palavra. Nos
tirando da morte do pecado, conduzindo-nos para a vida em comunhão com Ele.
Esse
Novo e Vivo caminho (Hebreus 10.20) é o próprio Jesus, que nos salva pelo seu
sacrifício perfeito na cruz. Que nos dá o seu Espírito que gera nova vida em
nós. Que nos reconcilia para sempre com o Pai.
Respondeu-lhe
Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por
mim. (João 14.6)
sexta-feira, 24 de agosto de 2012
Uma excelente palavra sobre o Movimento do Parto Humanizado
Esse texto é da Dra. Suzy Meira, médica anestesista no Rio Grande do Sul. Foi postado no blog Cartas Brasilienses da Dra. Juliana Buzzinaro. Trata-se de um excelente texto para quem se dispõe a realmente informar-se e formar-se a partir de fatos. Sendo assim, segue o texto.
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"Ante as marchas pelo parto em casa, que estão acontecendo pelo Brasil, os posts de amigas queridas, os direitos das pessoas, suas idéias e sentimentos sobre seus direitos e papéis, minha realidade como mãe de 3 filhos saudáveis (nascidos um de cesárea e dois de parto, com e sem analgesia, e amamentados por 9 meses, um ano e meio e outro por dois anos e meio), e sendo médica anestesista, que trabalha há 18 anos em centros obstétricos bem heterogêneos entre si... com pacientes com realidades psicossociais, culturais e financeiras mais heterogêneas ainda... O privilégio que tenho de presenciar o transbordar de muitas vidas lindas que vêm a esse mundo... E também o respeito e o apoio que já comparti quando o karma vence o dharma, e todo o esforço humano tem que se render, ante à impossibilidade de ajudar para a vida que não conseguiu nascer... Convido a pensarmos juntos sobre alguns pontos:
Acredito que a todo abuso de poder, mesmo que leve séculos, haverá uma revanche cultural, social. Para um lado, para qualquer lado, a esmo, ou direcionada por ideologias, entusiasmos, sentimentos verdadeiros, o que for. Certo é que uma revanche ocorrerá. E também de algum modo alguma coisa melhorará, mesmo que no início se penda para o extremo oposto. Isso é assim desde que o mundo é mundo. Com reis, senhores feudais, bispos, magos, médicos, senhores de engenho, aristocratas, políticos... que exerceram algum tipo de autoritarismo, inclusive o de pais e mães de todos os séculos, que também exercem grandes poderes no mundo todo, em cada lar.
Hoje, em diversos segmentos, estamos presenciando essas revanches.
Tudo isso junto me faz pensar...
Se existirá um, talvez mais de um caminho que seja ao mesmo tempo justo e afetivamente aconchegante e confortável, e também espontâneo, instintivo, mas com segurança verdadeira.
Alguém poderá me dizer: 'Ora, mas segurança, risco zero, desde que se nasce, não se tem. A única certeza é que um dia vamos morrer.' Mas não precisamos atravessar a rua em uma faixa de segurança, sem olhar muito para os lados, porque se acredita que tudo funcionará bem, ou que se esteja com tudo sob controle. Muitas variáveis podem se interpor nessa situação. Variáveis que não estávamos esperando, dificuldades de um país em desenvolvimento, dificuldades sociais, econômicas, financeiras. Tantas coisas podem acontecer. Não estou em absoluto comparando um parto em casa com atravessar na faixa sem olhar para os lados. Mas estou propondo que se olhe realmente para todos os lados da situação.
Ninguém pode afirmar que tudo que esteja a princípio bem, vá continuar assim.
Há duas semanas, uma gestante em início de trabalho de parto, com tudo bem, no hospital, teve subitamente um descolamento de placenta. Será que todos sabem o que isso significa?
Para essa mãe, que recebeu atendimento imediato, pois já estava dentro de um local que, além de parto, faz também cesárea, teve sua vida salva, apesar do sangramento profuso. O mesmo não foi possível com seu bebê. Apesar de toda a rapidez de um centro hospitalar obstétrico. Um bebê gordinho, perfeitinho, rostinho parecido com a mãe. Não suportou. Tentar de tudo. Toda a equipe envolvida, agilizando tudo. Impossibilidade. Imobilidade. Silêncio. Dar a notícia. Apoio. Choro e desespero de quem esperava tanto por alguém. Aceitação de que não se é deus. Em um hospital. Ao menos tudo que a tão criticada medicina possa fazer, foi feito.
E se fosse em casa? Em casa de parto? Onde quer que fosse? E se não der tempo, no caso de um imprevisto?
E se o bebê sofrer antes de nascer, com oxigenação insuficiente? Ou se ele tiver que nascer rápido, por risco iminente de morte?
Parece que sou hiper pessimista, fantasiosa até, mas quem vive diariamente as mínimas porcentagens onde tudo vai bem e em pouquíssimo tempo já tem que melhorar pra ontem, para garantir o direito da vida..., sabe o quanto dói para qualquer profissional da saúde e para uma mãe ver um bebê morto, ou asfixiado, com permanente lesão cerebral. Muitas crianças, após alguns anos, começam com déficit de aprendizagem, convulsionam sem muita explicação e vai se ver lá atrás, tiveram partos longos, difíceis, com dificuldades de oxigenação do bebê.
Claro que não significa que vá acontecer uma tragédia todo dia, mas se o 'felizardo' fosse seu bebê... e você não estivesse no melhor lugar do mundo para salvar a vida dele, pelo motivo mais verdadeiro, instintivo e procedente que fosse, você não sentiria nenhuma culpa de levar uma criancinha com retardo mental de carrinho pelo resto da sua vida?
Sim, me parece muito importante o direito de escolha, o respeito.
Mas antes de tudo, o direito à vida. E vida sã. O direito de respirar, de se oxigenar.
Bebês com cérebro funcionando, com toda a sua complexidade e potencialidade.
Morria muita mãe de parto há não muito tempo atrás. Nascia muito bebê 'abobado', como minha bisa dizia. Tá certo, era pra fora, em lugares distantes de um centro. Mas alguém já pensou no tempo que levaria uma paciente para entrar numa ambulância, ou mesmo de carro particular, no trânsito, para chegar em um hospital e lá dentro, estar numa sala de cirurgia e iniciar uma cesárea?
Será que realmente uma estatística inglesa pode ser totalmente aplicada aqui no Brasil, onde nem quem chega ao hospital consegue ser atendido e algumas vezes, nem sobreviver? E na urgência da urgência, então...
Estatísticas de 0,60 e poucos para 1,27% não são significativas?
Será que os europeus tomariam as mesmas diretrizes se tivessem, em profusão, o seguinte material psicossocial junto com o nascimento dos bebês:
Um bebê, a tia que assistiu ao nascimento. Ao ser perguntada se o pai estava nervoso e não quis entrar, a mãe conta que ele estava no presídio há alguns dias, preso em flagrante por assalto a um estabelecimento à mão armada... Que ganhava bem, tinha carro e moto, mas resolveu assaltar. Àquele dia, ela não sabia que ele ia assaltar. Mas que ela estava tranquila, porque ia ganhar do governo ajuda financeira para cada filho...
A outra, uma barriguinha diminuta, o bebê não estava crescendo. Ela já tinha diminuído, mas ainda estava fumando 2 carteiras de cigarro por dia. Mas disse que vai tentar parar... Não fez nenhuma consulta de pré-natal, porque não teve tempo. Não lembra quando engravidou e não sabe para quando é o bebê...
Outra, na festa rave teve ruptura da bolsa, mas não percebeu... Alguém a traz ainda drogada. O bebê cheio de arritmias. Cesárea de urgência. Ela conta que agora vai ir na igreja e vai parar de beber e de usar crack. O marido assistindo ao nascimento e ela contando, rindo, que nem sabe de quem seja a criança...
Outra, 15 anos, engravidou no 'pancadão' (conhecem?) e portanto não sabe quem possa ser o pai da criança. A mãe que a filha pulava a janela de noite e ela nem via.
Outra, gestante de 13 anos sendo acompanhada no parto pela avó do bebê, de 28. A bisa tem 44. A tatara ( trisavó, para os mais exigentes...) tem 65. Perguntada porque nesse caso teve uma distância de vinte anos, esclareceu que a bisa era a terceira filha da tatara.
Fora o aspecto da saúde cerebral do bebê e de possíveis sangramentos da mãe, gostaria de ressaltar uma outra questão:
QUEM teria os privilégios de escolher em que lugar parir seu bebê? Não temos hospitais suficientes, mas disporíamos de casas de parto suficientes? Cesárea de urgência seria também na casa de parto?
E uma mãe mais desprovida financeiramente, que queira ganhar em casa?
Se algum dia, digamos que os tão criticados Conselhos permitissem ao médico realizar partos em casa, o SUS, que já paga mal médicos plantonistas, iria dispor de equipes a domicílio? Parteiras, doulas seriam pagas pelo SUS, para o conforto das gestantes em casa? Quem não tenha carro, nem dinheiro para táxi, esperaria uma ambulância que lhe levasse ao hospital?
Empoderamento, protagonismo da mulher, escolhas, direitos, nascimento digno... Não seria mais simples para uma gestante escolher, como ela certamente faz em relação a qualquer outra especialidade, um obstetra indicado por conhecidos, que tenha concepções mais em acordo com as suas?
Tipo ser 'bem parteiro', que tenha uma boa relação com as pacientes, que seja tranquilo e competente? Tem tanta coisa bonita que se faz em um hospital...
É que isso não aparece no youtube.
Não só em hospitais de convênios, mas nos hospitais que atendem predominantemente SUS, a equipe dá todo um suporte durante o trabalho de parto, e na hora explica o que vai acontecer, esclarece dúvidas, reassegura sentimentos, estimula potenciais. Tem gente que faz verdadeiras terapias breves unifocais, de urgência, com situações psicológicas delicadas da vida da gente. E também ajuda a tirar fotografias, porque às vezes os pais estão nervosos, podendo curtir o bebê tète-a-tète, e também aparecendo nas fotos. Sai cada zoom mais lindinho que o outro. Música da antena 1 tocando. O bebê fica no colinho da mãe. Toma peito. O pai ajuda a dar o banho e fica com o bebê no bercinho aquecido nos minutos que a mãe precisa para ficar pronta do parto ou terminar a cesárea. Depois o bebê fica todo o tempo junto da mãe, se ele estiver bem. Nossa... tanta gente boa fazendo um trabalho tão bonito, no meio de um hospital, mas sem bandeiras. Um potencial sem fronteiras.
Toda ideologia delimita, limita a realidade multifacetada, multifatorial, dialética.
Corre o risco de ser mais fechada que sua vontade inicial de abertura e mudança ante um fechamento.
Num país sem recursos bem administrados, com uma população com valores antagônicos, qual conduta é mais segura às suas necessidades "afetivas, psicológicas e fisiológicas"... Será que não esquecemos de ponderar também as necessidades patológicas de TODOS os envolvidos? Além das patologias físicas que emergem subitamente ante nossos olhos e coronárias... Há as patologias das gestantes com terror à dor, que trocam de médico se este não fizer cesárea; as que processam por qualquer motivo subjetivo se o médico explica da possibilidade de parto e não de cesárea, e algo não acontecer como na disneylandia; as que querem tirar antes o bebê para não ficarem com estrias; há gente apressada, sem paciência, estressada... Há pessoas autoritárias, com ideologias encerradas em si, acirradas, sejam médicos, enfermeiros, parteiros, doulas, gestantes, papais, repórteres, modelos, cantores, favelados, drogaditos, etc... e gestantes que não fazem ideia do que seja uma urgência obstétrica, ou que perderam a aula na facul sobre bactérias, sepse, endometrite, laceração de reto, com colostomia, de descolamento de placenta, ruptura uterina, pré-eclâmpsia, eclâmpsia, SARA, atonia uterina...parada cardíaca, aspiração de mecônio, paralisia cerebral, hipóxia...
Tudo isso, a partir de uma coisa tão bonita, natural, simples e complexa, que é um parto.
Tudo pode acontecer.
Rogo ao senhor do tempo e de todas as variáveis...
Se alguém for ateu e for criticar meu também direito a achar alguma coisa, como todo mundo...
Então rogo apenas ao tempo e a todas as variáveis desse espaço, que é pura vacuidade... que é pura bênção,
que tudo vê e nos provê...
Que nessa unicidade, os movimentos da vida aconteçam como precisam acontecer, mas que cada vez menos gente morra por idéias, nem se prejudique com idéias de outros, ou se arrependa tarde demais por necessidades, instintos, concepções e sentimentos, sejam eles para que lado forem.
Que todos possam ser ouvidos.
Que cada vez mais pessoas se empoderem do que lhes pertence e que não se apoderem do que seja do outro.
Que tenhamos todos nossos direitos e opiniões respeitados, quaisquer que sejam.
Que possamos respeitar os vivos, os mortos que nos antecederam e também aqueles que ainda não nasceram, que nos sucederão.
Que haja cada vez mais espaço para a vida transbordar no cálice do nosso peito, da nossa alma.
E que todos nós nos responsabilizemos por nossos movimentos, alumiando, à luz da consciência do ser, nossas sabedorias, mas principalmente nossas ignorâncias.
Saúde a todos nós.
E muito amor a nos guiar na lucidez, na compaixão, na misericórdia, na gratidão, na tolerância."
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"Ante as marchas pelo parto em casa, que estão acontecendo pelo Brasil, os posts de amigas queridas, os direitos das pessoas, suas idéias e sentimentos sobre seus direitos e papéis, minha realidade como mãe de 3 filhos saudáveis (nascidos um de cesárea e dois de parto, com e sem analgesia, e amamentados por 9 meses, um ano e meio e outro por dois anos e meio), e sendo médica anestesista, que trabalha há 18 anos em centros obstétricos bem heterogêneos entre si... com pacientes com realidades psicossociais, culturais e financeiras mais heterogêneas ainda... O privilégio que tenho de presenciar o transbordar de muitas vidas lindas que vêm a esse mundo... E também o respeito e o apoio que já comparti quando o karma vence o dharma, e todo o esforço humano tem que se render, ante à impossibilidade de ajudar para a vida que não conseguiu nascer... Convido a pensarmos juntos sobre alguns pontos:
Acredito que a todo abuso de poder, mesmo que leve séculos, haverá uma revanche cultural, social. Para um lado, para qualquer lado, a esmo, ou direcionada por ideologias, entusiasmos, sentimentos verdadeiros, o que for. Certo é que uma revanche ocorrerá. E também de algum modo alguma coisa melhorará, mesmo que no início se penda para o extremo oposto. Isso é assim desde que o mundo é mundo. Com reis, senhores feudais, bispos, magos, médicos, senhores de engenho, aristocratas, políticos... que exerceram algum tipo de autoritarismo, inclusive o de pais e mães de todos os séculos, que também exercem grandes poderes no mundo todo, em cada lar.
Hoje, em diversos segmentos, estamos presenciando essas revanches.
Tudo isso junto me faz pensar...
Se existirá um, talvez mais de um caminho que seja ao mesmo tempo justo e afetivamente aconchegante e confortável, e também espontâneo, instintivo, mas com segurança verdadeira.
Alguém poderá me dizer: 'Ora, mas segurança, risco zero, desde que se nasce, não se tem. A única certeza é que um dia vamos morrer.' Mas não precisamos atravessar a rua em uma faixa de segurança, sem olhar muito para os lados, porque se acredita que tudo funcionará bem, ou que se esteja com tudo sob controle. Muitas variáveis podem se interpor nessa situação. Variáveis que não estávamos esperando, dificuldades de um país em desenvolvimento, dificuldades sociais, econômicas, financeiras. Tantas coisas podem acontecer. Não estou em absoluto comparando um parto em casa com atravessar na faixa sem olhar para os lados. Mas estou propondo que se olhe realmente para todos os lados da situação.
Ninguém pode afirmar que tudo que esteja a princípio bem, vá continuar assim.
Há duas semanas, uma gestante em início de trabalho de parto, com tudo bem, no hospital, teve subitamente um descolamento de placenta. Será que todos sabem o que isso significa?
Para essa mãe, que recebeu atendimento imediato, pois já estava dentro de um local que, além de parto, faz também cesárea, teve sua vida salva, apesar do sangramento profuso. O mesmo não foi possível com seu bebê. Apesar de toda a rapidez de um centro hospitalar obstétrico. Um bebê gordinho, perfeitinho, rostinho parecido com a mãe. Não suportou. Tentar de tudo. Toda a equipe envolvida, agilizando tudo. Impossibilidade. Imobilidade. Silêncio. Dar a notícia. Apoio. Choro e desespero de quem esperava tanto por alguém. Aceitação de que não se é deus. Em um hospital. Ao menos tudo que a tão criticada medicina possa fazer, foi feito.
E se fosse em casa? Em casa de parto? Onde quer que fosse? E se não der tempo, no caso de um imprevisto?
E se o bebê sofrer antes de nascer, com oxigenação insuficiente? Ou se ele tiver que nascer rápido, por risco iminente de morte?
Parece que sou hiper pessimista, fantasiosa até, mas quem vive diariamente as mínimas porcentagens onde tudo vai bem e em pouquíssimo tempo já tem que melhorar pra ontem, para garantir o direito da vida..., sabe o quanto dói para qualquer profissional da saúde e para uma mãe ver um bebê morto, ou asfixiado, com permanente lesão cerebral. Muitas crianças, após alguns anos, começam com déficit de aprendizagem, convulsionam sem muita explicação e vai se ver lá atrás, tiveram partos longos, difíceis, com dificuldades de oxigenação do bebê.
Claro que não significa que vá acontecer uma tragédia todo dia, mas se o 'felizardo' fosse seu bebê... e você não estivesse no melhor lugar do mundo para salvar a vida dele, pelo motivo mais verdadeiro, instintivo e procedente que fosse, você não sentiria nenhuma culpa de levar uma criancinha com retardo mental de carrinho pelo resto da sua vida?
Sim, me parece muito importante o direito de escolha, o respeito.
Mas antes de tudo, o direito à vida. E vida sã. O direito de respirar, de se oxigenar.
Bebês com cérebro funcionando, com toda a sua complexidade e potencialidade.
Morria muita mãe de parto há não muito tempo atrás. Nascia muito bebê 'abobado', como minha bisa dizia. Tá certo, era pra fora, em lugares distantes de um centro. Mas alguém já pensou no tempo que levaria uma paciente para entrar numa ambulância, ou mesmo de carro particular, no trânsito, para chegar em um hospital e lá dentro, estar numa sala de cirurgia e iniciar uma cesárea?
Será que realmente uma estatística inglesa pode ser totalmente aplicada aqui no Brasil, onde nem quem chega ao hospital consegue ser atendido e algumas vezes, nem sobreviver? E na urgência da urgência, então...
Estatísticas de 0,60 e poucos para 1,27% não são significativas?
Será que os europeus tomariam as mesmas diretrizes se tivessem, em profusão, o seguinte material psicossocial junto com o nascimento dos bebês:
Um bebê, a tia que assistiu ao nascimento. Ao ser perguntada se o pai estava nervoso e não quis entrar, a mãe conta que ele estava no presídio há alguns dias, preso em flagrante por assalto a um estabelecimento à mão armada... Que ganhava bem, tinha carro e moto, mas resolveu assaltar. Àquele dia, ela não sabia que ele ia assaltar. Mas que ela estava tranquila, porque ia ganhar do governo ajuda financeira para cada filho...
A outra, uma barriguinha diminuta, o bebê não estava crescendo. Ela já tinha diminuído, mas ainda estava fumando 2 carteiras de cigarro por dia. Mas disse que vai tentar parar... Não fez nenhuma consulta de pré-natal, porque não teve tempo. Não lembra quando engravidou e não sabe para quando é o bebê...
Outra, na festa rave teve ruptura da bolsa, mas não percebeu... Alguém a traz ainda drogada. O bebê cheio de arritmias. Cesárea de urgência. Ela conta que agora vai ir na igreja e vai parar de beber e de usar crack. O marido assistindo ao nascimento e ela contando, rindo, que nem sabe de quem seja a criança...
Outra, 15 anos, engravidou no 'pancadão' (conhecem?) e portanto não sabe quem possa ser o pai da criança. A mãe que a filha pulava a janela de noite e ela nem via.
Outra, gestante de 13 anos sendo acompanhada no parto pela avó do bebê, de 28. A bisa tem 44. A tatara ( trisavó, para os mais exigentes...) tem 65. Perguntada porque nesse caso teve uma distância de vinte anos, esclareceu que a bisa era a terceira filha da tatara.
Fora o aspecto da saúde cerebral do bebê e de possíveis sangramentos da mãe, gostaria de ressaltar uma outra questão:
QUEM teria os privilégios de escolher em que lugar parir seu bebê? Não temos hospitais suficientes, mas disporíamos de casas de parto suficientes? Cesárea de urgência seria também na casa de parto?
E uma mãe mais desprovida financeiramente, que queira ganhar em casa?
Se algum dia, digamos que os tão criticados Conselhos permitissem ao médico realizar partos em casa, o SUS, que já paga mal médicos plantonistas, iria dispor de equipes a domicílio? Parteiras, doulas seriam pagas pelo SUS, para o conforto das gestantes em casa? Quem não tenha carro, nem dinheiro para táxi, esperaria uma ambulância que lhe levasse ao hospital?
Empoderamento, protagonismo da mulher, escolhas, direitos, nascimento digno... Não seria mais simples para uma gestante escolher, como ela certamente faz em relação a qualquer outra especialidade, um obstetra indicado por conhecidos, que tenha concepções mais em acordo com as suas?
Tipo ser 'bem parteiro', que tenha uma boa relação com as pacientes, que seja tranquilo e competente? Tem tanta coisa bonita que se faz em um hospital...
É que isso não aparece no youtube.
Não só em hospitais de convênios, mas nos hospitais que atendem predominantemente SUS, a equipe dá todo um suporte durante o trabalho de parto, e na hora explica o que vai acontecer, esclarece dúvidas, reassegura sentimentos, estimula potenciais. Tem gente que faz verdadeiras terapias breves unifocais, de urgência, com situações psicológicas delicadas da vida da gente. E também ajuda a tirar fotografias, porque às vezes os pais estão nervosos, podendo curtir o bebê tète-a-tète, e também aparecendo nas fotos. Sai cada zoom mais lindinho que o outro. Música da antena 1 tocando. O bebê fica no colinho da mãe. Toma peito. O pai ajuda a dar o banho e fica com o bebê no bercinho aquecido nos minutos que a mãe precisa para ficar pronta do parto ou terminar a cesárea. Depois o bebê fica todo o tempo junto da mãe, se ele estiver bem. Nossa... tanta gente boa fazendo um trabalho tão bonito, no meio de um hospital, mas sem bandeiras. Um potencial sem fronteiras.
Toda ideologia delimita, limita a realidade multifacetada, multifatorial, dialética.
Corre o risco de ser mais fechada que sua vontade inicial de abertura e mudança ante um fechamento.
Num país sem recursos bem administrados, com uma população com valores antagônicos, qual conduta é mais segura às suas necessidades "afetivas, psicológicas e fisiológicas"... Será que não esquecemos de ponderar também as necessidades patológicas de TODOS os envolvidos? Além das patologias físicas que emergem subitamente ante nossos olhos e coronárias... Há as patologias das gestantes com terror à dor, que trocam de médico se este não fizer cesárea; as que processam por qualquer motivo subjetivo se o médico explica da possibilidade de parto e não de cesárea, e algo não acontecer como na disneylandia; as que querem tirar antes o bebê para não ficarem com estrias; há gente apressada, sem paciência, estressada... Há pessoas autoritárias, com ideologias encerradas em si, acirradas, sejam médicos, enfermeiros, parteiros, doulas, gestantes, papais, repórteres, modelos, cantores, favelados, drogaditos, etc... e gestantes que não fazem ideia do que seja uma urgência obstétrica, ou que perderam a aula na facul sobre bactérias, sepse, endometrite, laceração de reto, com colostomia, de descolamento de placenta, ruptura uterina, pré-eclâmpsia, eclâmpsia, SARA, atonia uterina...parada cardíaca, aspiração de mecônio, paralisia cerebral, hipóxia...
Tudo isso, a partir de uma coisa tão bonita, natural, simples e complexa, que é um parto.
Tudo pode acontecer.
Rogo ao senhor do tempo e de todas as variáveis...
Se alguém for ateu e for criticar meu também direito a achar alguma coisa, como todo mundo...
Então rogo apenas ao tempo e a todas as variáveis desse espaço, que é pura vacuidade... que é pura bênção,
que tudo vê e nos provê...
Que nessa unicidade, os movimentos da vida aconteçam como precisam acontecer, mas que cada vez menos gente morra por idéias, nem se prejudique com idéias de outros, ou se arrependa tarde demais por necessidades, instintos, concepções e sentimentos, sejam eles para que lado forem.
Que todos possam ser ouvidos.
Que cada vez mais pessoas se empoderem do que lhes pertence e que não se apoderem do que seja do outro.
Que tenhamos todos nossos direitos e opiniões respeitados, quaisquer que sejam.
Que possamos respeitar os vivos, os mortos que nos antecederam e também aqueles que ainda não nasceram, que nos sucederão.
Que haja cada vez mais espaço para a vida transbordar no cálice do nosso peito, da nossa alma.
E que todos nós nos responsabilizemos por nossos movimentos, alumiando, à luz da consciência do ser, nossas sabedorias, mas principalmente nossas ignorâncias.
Saúde a todos nós.
E muito amor a nos guiar na lucidez, na compaixão, na misericórdia, na gratidão, na tolerância."
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