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domingo, 22 de março de 2020

Deus Santo e Irado

“A ira de Deus se revela do céu contra toda impiedade e perversão dos homens que detêm a verdade pela injustiça" Romanos 1.18


II.   
Ao longo da História, em tempos mais remotos, Deus era mais comumente retratado como um Deus irado. A visão que Lutero tinha de Deus, de um Deus punitivo, com o pavor que lhe causava, fazia com que se penitenciasse a fim de aplacar sua ira. Jonathan Edwards pregou seu famoso sermão “Pecadores nas mãos de um Deus irado” nos tempos de avivamento do século 18. Contudo, a partir do século 19, essa perspectiva mudou radicalmente. Os homens já não eram mais “tão pecadores”, e Deus, por sua vez, já não estaria “tão irado”. Por que, e o que mudou?
Primeiro faz-se necessários considerar a visão Teológica Liberal sobre Deus e o homem. O liberalismo teológico propagado a partir do século 19, buscou esvaziar as Escrituras de tudo que pudesse ser considerado sobrenatural. Toda e qualquer ação divina na história, seja pela Providência, ou mesmo através de milagres, passaram a ser creditados como mitos criados a fim de causar nos leitores uma certa apreensão. O trabalho dos teólogos naqueles dias era desmistificar o texto bíblico “recheado de lendas” escritas para uma sociedade “primitiva” (perspectiva que já refletia uma cosmovisão evolucionista).
Segundo essa perspectiva, a humanidade havia evoluído, e o pensamento iluminista insistia que o homem, cheio da razão, não tinha mais necessidade de “contos da carochinha”. E como toda evolução, em tese, é para o bem, homens bons não precisavam se preocupar com a ira de Deus. A Bíblia passou a ser apenas um gigante manual da boa conduta.
O pensamento liberal permeia a mente de todos os que acham que não são tão maus, e que por isso, Deus, não tem o direito de se irar conosco, ou com a humanidade. A “fé na humanidade” é uma afirmação bastante difundida diante de grandes ou pequenos gestos de solidariedade. Mas, o que na verdade afirma-se nessa fé é a suficiência do homem em detrimento da Santidade de Deus.
Em suma: O homem não é tão mau, ele pode sempre melhorar. E Deus, que não é o único ser bom, não tem razão para se irar, apenas precisa ser mais paciente.
Mas qual é a visão bíblica de Deus e do homem?
Romanos 1.18 nos diz que Deus revela sua ira. Mas nos versículos 16 e 17, Paulo já havia dito que o “evangelho, porque é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê” e que “a justiça de Deus se revela no evangelho, de fé em fé”. Antes de entrar na ira de Deus, por assim dizer, Paulo anunciou o evangelho do poder da salvação dos homens, mediante a justiça revelada e recebida pela fé.
O que está implícito aqui, e explícito em outras passagens bíblicas, é que o homem é pecador, está perdido, condenado, morto em seus delitos e pecados. Nessas condições o homem não pode salvar-se a si mesmo. O único que pode salvá-lo é justamente aquele contra quem ele pecou: Deus. E é aí que podemos observar a grandeza de Deus em sua graça, pois justamente Ele quem sofreu a ofensa é quem oferece redenção para o ofensor.
Tamanha bondade imerecida é chamada de graça. E por ser assim tão “incrível”, é que só pode ser recebida pela fé, ou seja, a pura e simples confiança exclusiva em Deus e em seu caráter bondoso. 
Mas se Deus é assim tão bom, ainda há espaço para a ira? É justamente por isso que a visão bíblica da ira de Deus contra os homens se sustenta.
Tome como ponto de partida o que diz Isaías. Na mesma profecia que diz “vinde como estais”, também diz “deixe o perverso o perverso o seu caminho, e o iníquo os seus pensamentos; converta-se ao Senhor” (Isaías 55.1,7). O Evangelho é o poder de Deus para a salvação daqueles que “não têm dinheiro para comprar o que comer”. O homem “espiritualmente negativado”, falido no pecado, é convidado para a mesa do Senhor a quem ele deve literalmente até a alma. O mesmo chamado que admite que o homem não pode se salvar, diz que seus caminhos devem ser endireitados. Isso só é possível pela fé na obra do Salvador.
Esse evangelho que é poder para a salvação, é um convite gracioso do Santo Deus criador dos céus e da terra. Rejeitar esse convite implica não meramente em uma falta de etiqueta, mas em pecado. O pecador é pior do que um cão que morde a mão do seu dono que o alimenta. A ingratidão nesse caso é dobrada em função do fato de que o homem já era devedor. O homem, uma vez convidado ao arrependimento para que sua dívida fosse cancelada, que procede com soberba, não pode esperar nada além da ira de Deus.
Essa ira de Deus é, portanto, santa e justa. (1) Santa não apenas porque procede daquele que é moralmente perfeito, mas também porque procede daquele que não é como ninguém mais. Não podemos comparar a ira de Deus com a nossa, pois Ele está acima de tudo e de todos, e não está sujeito às contingências do tempo e do espaço. (2) Ela é também justa porque não procede de um capricho, ou é desproporcional a sua causa. A ira de Deus não é uma irritação ou um incômodo, mas a manifestação de um julgamento perfeito, e, portanto, proporcional sobre o pecado dos homens.
O que concluímos disso tudo?
Não podemos negar a manifestação da ira de Deus sobre a humanidade ao longo da história. Assim como nas Escrituras constatamos que guerras, fomes, pestes e outras tragédias naturais são creditadas à Deus, também devemos entender que esse mesmo Deus continua sendo o mesmo.
Mas antes de observamos a ira de Deus, devemos atentar para o fato de que Deus, mesmo sendo ofendido pelo nosso pecado, enviou seu Filho para pagar o preço dessa ofensa, com seu sangue na cruz. Esse é o evangelho que salva, que só pode ser recebido pela fé, porque nada em nós pode nos creditar diante de Deus. 
Deus ao longo da história manifesta sua ira, pois ele não pode deixar o pecado impune. Um Deus bom e santo certamente tomará vingança contra seus ofensores, especialmente aqueles que desprezaram o sacrifício do seu Filho na cruz. 
Mas a ira final ainda está para ser derramada. Antes que isso aconteça, o evangelho nos chama a fé e ao arrependimento, ou seja, a confiança na bondade de Deus, e ao abandono das nossas obras más que tanto ofendem aquele que é Santo.
Que Deus nos ajude! 

sábado, 29 de abril de 2017

Rebelde sem causa (justa)

Desta maneira fazia Absalão a todo Israel que vinha ao rei para juízo e,
assim, ele furtava o coração dos homens de Israel.
2 Samuel 15. 6

Absalão, filho de Davi, depois que voltou do "exílio" da presença de seu pai (2 Samuel 14.28), passou a apresentar-se na porta de Jerusalém com a pompa de um rei (2 Samuel 15.1, conf. 1 Samuel 8.11). Ali, de maneira prática, deu-se início ao seu projeto de usurpar o trono de seu pai. Ele roubava o coração dos homens fazendo parecer que seria um juiz mais justo que seu pai, o rei (2 Samuel 15.6).
É fato que Davi pecou tanto como pai quanto como rei. Seu pecado registrado em "caixa alta" nas Escrituras não se restringiria apenas ao seu adultério com Bate-Seba e, consequentemente, ao assassinato de Urias. Sua falta de trato com seus filhos em meio as sucessivas tragédias ocorridas em sua casa, apresentam um homem duplamente omisso. Tamar, filha de Davi, foi estuprada por Amnom, seu meio-irmão, e Davi nada fez a esse respeito (2 Samuel 13.21). Absalão, irmão de Tamar matou Amnom em vingança por sua irmã, e Davi nada fez eficazmente a respeito (2 Samuel 13.39; 14.21-24, 33). É preciso lembrar que estas tragédias na casa de Davi eram juízo de Deus sobre ele por causa dos pecados descritos: A espada jamais se apartará da tua casa (2 Samuel 12.10).
Por esses motivos Absalão achava-se no direito de tirar o trono de seu pai. Talvez, num misto de vingança pessoal, e de uma pretensa justiça social, o filho do rei achava-se a pessoa mais indicada naquele momento para o trono de Israel. Mas, apesar dos pesares, Davi era o ungido de Deus e não Absalão.
Não quero dizer com isso que Davi tinha licença para matar ou adulterar. O juízo que sucedeu ao seus pecados nos prova que não. O que digo nesse caso, conforme as palavras do próprio Davi quanto a Saul, seu antecessor, é que o juízo que deveria cair sobre o rei cabia a Deus aplicar (1 Samuel 26.9-11). Saul havia pecado contra o Senhor, e procurava tirar a vida de Davi, por saber que Deus o havia escolhido para reinar. Apesar de poder argumentar legítima defesa, e de que também era ungido do Senhor, Davi sabia que a vingança pertencia ao Deus, e por isso não pretendia ser mais justo que Ele.
Absalão não havia sido ungido por Deus para reinar. Ele tinha uma crise doméstica como motivo para procurar tomar o lugar de seu pai. E ainda que essa crise entre pai e filhos fosse seríssima, não justificava um golpe de estado. O que ele não entendia a essa altura do campeonato, é que era tão pecador quanto Davi e Amnom. Em seu curriculum vitae poderemos encontrar o assassinato de seu irmão, e o estupro das concubinas de seu pai, que também configurava adúltero. Essa "maldição familiar" Absalão trouxe sobre si, a violência e o adultério. Mas em sua "justiça" (Isaías 64.6), Absalão não se reconhecia pecador, ao passo que Davi, tão pecador quanto seu filho, reconhecia seu próprio pecado (2 Samuel 12.13).
Vejo na história familiar do rei Davi, algo maior do que uma crise entre pai e filho, ou de Estado. Há uma rebeldia da parte de Absalão contra o próprio Deus. Primeiro quando tenta tomar a justiça em suas mãos. Segundo quando não se reconhece pecador, mas, mais justo que o próprio Deus. Davi era rei em Israel, o ungido do SENHOR naquele dias. A rebelião de Absalão era então contra o próprio Deus. Desta mesma sorte, sempre que nos nos achamos suficientemente justos em nós mesmos, necessariamente desprezamos a justiça de Deus em seu Ungido Filho Jesus. Ele, o Rei do reis, a quem Davi tipificava, é muitas vez objeto da ira dos ímpios, que não reconhecem nele autoridade para governar suas vidas. Davi era pecador, mas a razão maior da revolta de Absalão era se achar mais digno que seu pai. Jesus nunca pecou, e seu trono é maior do que o de Davi. Sua justiça nos humilha, e nos conclama a confiar em Deus, nos submetendo a Ele. Não sejamos pois loucos como Absalão, acreditando que podemos tomar o trono do Senhor do Universo, e governarmos nossa própria vida, ou até mesmo o mundo ao nosso redor. A despeito de toda injustiça que nos cerca, não somos melhores que ninguém. Creiamos na justiça de Deus, e nos submetamos ao Justo Juiz, que reina nos céus e na terra, e é quem pode nos redimir de todo pecado, e nos dá a viva esperança em seu reino de paz.