Tenho acompanhado mobilizações pelo chamado parto humanizado, e visto que o discurso é extremamente áspero contra os profissionais obstetras. Termos como frieza, violência, mesquinhez relacionadas a obstetrícia, dão a entender que essa categoria médica é formada por mercenários. O discurso radical dá a entender que o acompanhamento médico é um mal desnecessário, ou, quando em situações de risco, um mal necessário. Que o parto por cesária é uma violência condenável, como se fosse uma moléstia. Para melhor compreensão sobre o que quero tratar neste post, segue uma descrição dada pelo próprio movimento destacado neste site.
As bandeiras da MARCHA PELA HUMANIZAÇÃO DO PARTO são:
1. Que a Mulher tenha o direito de escolher como , com quem e onde deve parir;
2. Pelo cumprimento da Lei 11.108, de abril de 2005. Que a mulher tenha preservado o direito ao acompanhante que ela desejar na sala de Parto;
3. Que a mulher possa ter o direito de acompanhamento de uma Doula em seu trabalho de parto e parto;
4. Que a mulher, sendo gestante de baixo risco, tenha o direito de optar por um parto domiciliar planejado e seguro, com equipe médica em retaguarda caso necessite ou deseje assistência hospitalar durante o Trabalho de Parto;
5. Que a mulher tenha o direito de se movimentar livremente para encontrar as posições mais apropriadas e confortáveis durante seu trabalho de parto e parto;
6. Que a mulher possa ter acesso a metodos naturais de alívio de dor durante o trabalho de parto, que consistem em: massagens, banho quente, compressa, etc;
7. Contra a Violência Obstétrica e intervenções desnecessárias que consistem em: comentários agressivos, direcionamento de puxos, exames de toque, episiotomia, litotomia, etc;
8. Pela fiscalização das altas taxas de cesáreas nas maternidades brasileiras e que as ações cabíveis sejam tomadas no sentido de reduzir essas taxas;
9. Pela Humanização da Assistência aos Recém-Nascidos, contra as intervenções de rotina;
10. Que a mulher que optar pelo parto domiciliar tenha direito ao acompanhamento pediátrico caso deseje ou seja necessário.
Voltando...
Minha esposa e meu pai são obstetras. Desde que me entendo por gente, a minha vida toda até hoje, acompanho o empenho desses médicos, sua dedicação, sua luta exaustiva para que crianças nasçam com toda segurança. Vejo a tristeza deles quando algo acontece fora do que esperava em uma conduta simples. Eles não são máquinas de extrair bebês, são pessoas que dedicaram anos de estudo e perícia para não por a perder duas ou mais vidas que lhe são confiadas. Aprendi com meu pai a detestar o aborto. Certa feita quando lhe ofereceram dinheiro para tirar uma criança, ele deixou claro que estudou para salvar vidas, e não tirá-las. Sou grato a Deus pela vida dele e de minha esposa, pela graça concedida a eles em sua profissão.
Em conformidade com a onda de "marchas" desses dias, com essa nomenclatura controversa de Parto Humanizado - afinal, seria a cesariana um parto desumano? - esses militantes querem arrastar profissionais responsáveis para suas decisões individuais. Querem dispor de um profissional médico para, em caso de alguma coisa der errada, ser ele o acionado como salvador da pátria. Ao que tudo indica, boa parte das mulheres que aderem a essa moda, são pessoas financeiramente confortáveis, e que acreditam que em casa dispõe de tudo para receber a criança, o que não é a realidade de todas mulheres. De fato, pode até ser que em alguns casos o parto natural ocorra sem nenhuma complicação, e que em qualquer lugar a criança nasça sem problemas. Seria excelente se fosse assim sempre, mas o caso é que não é. Os hospitais, e o acompanhamento médico, são os recursos mais indicados pela segurança que representam. Se não fosse assim, a sociedade não caminharia para esse entendimento ao longo de séculos, não "inventariam" os hospitais, nem haveria o aprimoramento da medicina em suas diversas áreas.
Quando alguém ataca essa ideia, sugerindo que os obstetras só pensam em dinheiro, creio eu que estão fazendo uma leitura pautada em si mesmos. Alguns dos que defendem essa bandeira, sendo até profissionais da saúde que não chegaram a tornar-se médicos, cobram valores elitizados para "acompanhar" as gestantes, e se tornarem naquele instante "melhores amigas". Creio que se a ideia é incentivo emocional e psicológico, por uma custo previamente acertado, chamem um psicólogo. Mas se é prestar solidariedade, esquentar água, fazer massagem; é o caso de chamar mães, irmãs, cunhadas, amigas, que podem desempenhar esse papel tranquilamente sem nada cobrar.
Penso que se a opção pessoal é parir de cócoras, na banheira, na fazenda, ou em uma casinha de sapê, que essas mães o façam sem exigir que os obstetras se responsabilizem por sua provável irresponsabilidade, uma vez que sem os recursos de um hospital, seria extremamente complicado reverter um eventual quadro grave que se apresentasse. Entendo também que em função de um certo desajuste emocional e psicológico que as mulheres podem atravessar durante a gravidez*, e principalmente no momento do parto, não é seguro confiar a elas a sua decisão de "parir onde, quando e com quem querem". Em suma, se querem realmente trazer ao mundo seus filhos como nos tempos das parteiras, que dispensem de vez os médicos, e assumam toda a responsabilidade.
(*) Não estou dizendo com isso que as mulheres são desajustadas ou descontroladas, mas que dada as circunstâncias fisiológicas de dor e apreensão nesse período, qualquer pessoa, inclusive homens em situações equivalentes, pode perde a razão.
