sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Aviso aos Navegantes


Não tenho tido tempo para postar nos últimos meses em razão dos trabalhos a serem concluidos para integralização do meu curso de teologia. O preparo para a chegada do Benicio também tem tomado meu tempo. A sensação sobre o tempo nesses últimos meses tem sido antagonica. Tanto quero que novembro chegue logo para ter meu filho nos braços, como também sinto o peso desse mês enquanto prazo final para a conclusão dos meus trabalhos.

Que Deus me dê graça, e a graça.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Um aborto contra outro aborto

O aborto tem sido o tema de maior peso nessas últimas semanas em vista da campanha eleitoral. A candidata peti-lulista Dilma, ex-guerrilheira, agora quer se tornar ex-militante pró aborto. Como tem sido amplamente noticiado, a partir de uma sabatina feita na Folha de São Paulo (video abaixo), em 2007, a ex-ministra defendeu abertamente a descriminação do aborto, o que em termos práticos quer dizer que qualquer gestante, por qualquer motivo, não poderia ser enquadrada em crime contra a vida por essa prática. Ou seja, o assassinato de uma criança que sequer nasceu não é crime, mas uma opção pessoal da mãe "sobre seu corpo".

Um braço evangélico da campanha de Dilma é o bispo Crivella, sobrinho de Edir Macedo, o dono da IURD. O sobrinho do "Tio Donald gospel" diz ter perdido voto em sua candidatura a reeleição por causa da Dilma e a questão do aborto. Quanto incoerência. Como é sabido e notório, Macedo é a favor do aborto, por questões absurdas, as quais ele falaciosamente chama de "planejamento familiar". Sendo assim, tão incoerente quanto a mudança de discurso da Dilma, é a fala de Crivella de que perdeu votos por causa dessa questão, sendo essa posição defendida abertamente por seu chefe.

Ao assistir o video de Macedo* (video abaixo), tenho que confessar meu pecado. Enquanto ele defendia o aborto como uma forma de salvaguardar a sociedade de crianças que cresceriam desajustadas socialmente, eu só conseguia pensar no aborto dele. Usando o seu raciocínio, sendo ele mesmo um indivíduo desajustado moralmente, seria obviamente um candidato nato (ou nesse caso, não) ao aborto.

Mas não podemos nos deixar vencer pelo mal, mas sim vencer com o bem. A Deus pertence a vingança (Rm 12.19-21). Se não podemos abortar o Macedo, abortemos pelo menos as pretenções políticas de Dilma, pois isso sim, podemos fazer.

(*) Esse video inicia com uma citação bíblica fora de contexto. Isso bem reflete o que Dr Martin Lloyd Jones diz: Ensine o livro de Eclesiastes a sua igreja, antes que o diabo o faça.

domingo, 25 de julho de 2010

Sombra do que está por vir







Ontem, sábado , dia 24, tive pela primeira vez uma experiência de tato com meu filho. Ele já está com quase cinco meses, é um menino, e é muito agitado. Candice disse que começou a senti-lo mexendo nessa semana, e antes de dormirmos disse para eu colocar a mão em sua barriga. Pude senti-lo mexer também. Essa sensação de seus movimentos, ainda que incompleta, é maravilhosa.


Minha mulher além de ginecologista e obstetra, também é formada em ultrassonografia. Pelo menos duas vezes por semana ela tira um tempo em seu expediente no ultrassom para dar uma olhada em nosso filho. Na sexta-feira, no fim do seu expediente pude dar uma espiada nele. Manejei com muita dificuldade o aparelho de ultrassom, seguindo as orientações da "doutora-mãe-e-paciente". Tirando os aspectos rotineiros de saúde, o que mais me faz desejar vê-lo (se fosse posssível todos os dias) na ultrassom é o anseio por suas formas. Tentar enxergar o seu rosto, seus pezinhos, mesmo em imagens tão distorcidas e escuras é um sinal do quanto estamos ansiosos por sua vinda.


O toque através da barriga da mãe, as imagens de um ultrassom, tudo isso traz sensações limitadas, mas mesmo assim são gratificantes. É pouco, mas nos faz saber que nosso filho está perto e bem. Não é nada perfeito, mas é o que temos até o dia em que ele deixar o seu mundinho no ventre da mãe para adentrar o nosso aqui fora. Quando isso acontecer, não fará sentido ficar em frente a um monitor com imagens nada nítidas. Não ficaremos mais esperando seus movimentos ocultos na barriga de sua mãe. Nós o teremos em nossos braços, poderemos vê-lo, beija-lo, cheira-lo, e ouvi-lo. Enfim, teremos o nosso filho conosco, disponível a todos os nossos sentidos. O que é em parte será deixado para trás.


Depois desses dias me peguei pensando de forma análoga na vinda do Filho de Deus. No Antigo Testamento existiram muitos sinais de sua primeira vinda. A liturgia do povo de Israel, os sacramentos, e o próprio desenrolar da história apontavam para a vinda do Messias. Paulo nos fala em Colossenses 2.17 a respeito do que era sombra das coisas que estavam por vir, sendo os sinais que apontavam para a vinda de Jesus e sua salvação. Na antiga aliança Deus concedeu a circuncisão, tirou Israel do Egito instituindo a Páscoa, alimentou o povo no deserto com o maná, e muito mais. Todas essas coisas e ainda outras, apontavam para Aquele que selaria para si um povo tirado da morte do pecado, e que seria suprido por Ele mesmo, o Pão da vida.


É maravilhoso que hoje possamos contemplar na Palavra o Filho que já veio. Não há necessidade de voltarmos à sombra, uma vez que Ele se fez carne, e habitou entre nós (João 1.14). Mas nesse mesmo sentido, também hoje esperamos a segunda vinda de Cristo. Isso é muito claro todas as vezes que quando tomamos a sua Ceia e "anunciamos a sua morte até que Ele venha" (1 Coríntios 11.26). Cada vez que lemos a Escritura, depositamos nossa fé na obra consumada de Jesus, e lançamos nossa esperança em sua volta.


Os sinais da primeira vinda não mentiam, e assim sendo, podemos ter certeza de que os da segunda também não falharão. Será maravilhoso, uma vez que não o sentiremos mais no pão ou no cálice, mas que estará diante dos nossos olhos, ao alcance de nossas mãos. Sua voz será audivel, como era para Moisés (Deuteronômio 34.10).


Nosso filho deve chegar no fim de novembro. Ele ainda não tem nome. Não sabemos se será mais parecido com o pai ou com a mãe. Mas nós já o amamos, sem nome e sem aparência. Nos alegramos muito com cada sinal que temos dele. Mas é certo que tudo isso ainda é pouco, perto do dia em que o Deus o entregar em nossos braços. Quando Jesus voltar, nenhuma alegria, prazer ou satisfação nessa vida poderá ser comparada com o júbilo que sentiremos. A satisfação que já temos em sua Palavra e sacramentos se tornará infinitamente maior em sua presença. Obrigado Pai pelo nosso filho. Obrigado, pelo seu Filho.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Ainda falando sobre "serviços prestados"


Nos últimos post falei dos fiéis clientes que desejam ser adulados para permanecerem nas igrejas. Demonstrei como muitas igrejas têm se desdobrado para agradar essas pessoas a ponto de perder de vista o propósito para o qual existem. Por muito tempo enxerguei essas comunidades como mercados da fé, onde eram oferecidos vários produtos conforme a necessidade do cliente. Mas recentemente tenho notado que algumas dessas comunidades mercantilistas têm se "especializado" em alguns ramos, mais precisamente falando, em alguns pecados. Dedico esse post ao caso das "igrejas gays".

O caso mais recente no Brasil é a da Igreja Cristã Contemporânea, que se apresenta como pioneira no movimento de inclusão de homossexuais em um sistema religioso. Trata-se de uma denominação que visa apoiar o pecado da homossexualidade, o qual é claramente condenado em Romanos 1.24-28. Baseados na suposta marginalização dos homossexuais, essa denominação assume o compromisso de resgatá-los dessa condição social através da inclusão desse grupo no Corpo de Cristo.

Não se pode confundir alhos com bugalhos. Primeiro é preciso esclarecer que há mais de uma década os homossexuais não devem ser vistos como um grupo marginalizado. Hoje eles são (no bom sentido) figuras ativas na sociedade, participando praticamente de todo mercado de trabalho. Lutam recentemente para ingressar no exercito fora do anonimato. A luta para constituir "família" através do "casamento" e pela possibilidade de adotar crianças, cada dia se torna mais próxima da realidade desse país. Se alguns ainda são marginalizados, isso se deve ao tipo de "trabalho", como no caso dos travestis que se prostituem. Mas fora esses, a maioria dos homossexuais desempenham funções sociais comuns às demais pessoas. Portanto, socialmente falando, a pós-modernidade já cumpriu a missão de resgatar os homossexuais da margem social.

Essa tentativa de inclusão postiça esconde outra intenção. A idéia de que ser plenamente incluso no caso da Igreja Contemporânea passa pelo conceito de ser parte do Corpo de Cristo. Como se não fosse suficiente que a sociedade em geral aceitasse o homossexualismo, esses militantes, que são frutos da cultura gospel, lançaram-se no encalço por uma igreja própria, a fim de tornar a dor da rejeição mais amena. Não basta ser aceito pelos homens, é preciso ser aceito por Deus. Não basta tomar a sociedade, é preciso tomar o Reino dos Céus.

O grande engano dos gays auto denominados evangélicos, é achar que a rejeição sofrida irá desaparecer quando fizerem parte de uma igreja. De nada vale ganhar o mundo e perder a sua alma (Marcos 8.36). Eles podem ser aceitos em toda sociedade, aceitos em uma igreja criada para si, mas perdem suas almas uma vez que ainda trilham o caminho para o inferno. Jesus é o único caminho de volta para Deus, e todo aquele que trilha esse caminho precisa deixar para trás a estrada da perdição (Mateus 7.13). A homossexulidade nada mais é que uma das muitas manifestações dos estado de perdição em que se encontra o pecador (1 Coríntios 6. 9,10). Nem eles, nem qualquer outro pecador que não se arrepende do seu pecado, pode entrar no Reino.

Essa louca tentativa de criar uma igreja que sirva de amparo para o pecado, nada mais é que uma armadilha terrível, uma vez que estão chamando o errado de certo, o amargo de doce (Isaías 5.20). Em Juízes 18 podemos ver como os filhos de Dã tomaram para si o levita Jônatas, para ser sacerdote de sua tribo a fim de encobrir todos os seus pecados de violência e transgressão. Esse mesmo levita já era sacerdote de um idólatra ladrão chamado Mica (Juízes 17), inaugurando em Israel a privatização do culto. Quando seguiu os homens da tribo de Dã, apenas seguiu seu instinto comercial, uma vez que fez do sacerdócio um comércio.

Hoje, dessa mesma forma, cria-se igrejas que servem aos pecados de cada um. Já existiam igrejas que serviam a ganancia, agora é a vez daquelas que servem a imoralidade. Assim como essas denominações caça-níqueis dividiram-se e multiplicaram, em franca competição, o futuro dessa nova denominação também é a divisão e a disputa pelo mercado homossexual.

terça-feira, 8 de junho de 2010

O cliente sempre tem razão






No comércio é compreensível que a máxima acima seja aceitável. Uma loja vive de sua clientela, e por isso deve aplicar-se ao máximo no sentido de agradar os consumidores. A competitividade nessa área faz com que cada estabelecimento invista em meios para atrair e conservar esses consumidores. Acho isso uma troca justa, uma vez que o cliente que paga pelo produto disposto na loja merece ser valorizado. Em primeira instância ele é o sustento do dono e dos funcionários do estabelecimento.

Mas e quando o caso da frase acima refere-se aos membros de igrejas, seria uma afirmação justa? Já não é de hoje que igrejas têm sido comparadas com o comércio em geral. Isso não chega a ser nenhuma novidade, uma vez que na história da Igreja temos vários casos de tentativas de lucro com a fé alheia - basta lembra-se de Simão em Atos 8, e da venda de indulgências na Idade Média. É quase impossível nesses dias desassociar a idéia de empresas das igrejas, e por isso dizem abertamente "pequenas igrejas, grandes negócios". Uma igreja que funciona como um comércio não tem membros, mas sim clientes.

A cartilha empresarial das igrejas neo-pentecostais sustenta a máxima de não contrariar o cliente, e por isso ele sempre terá razão. Nunca me esqueço de um "artigo" que li em um boletim de uma igreja onde se dizia que a pessoa mais importante no culto é o visitante, e que por isso tudo deveria ser planejado para que ele se senta bem. Esse culto antropocêntrico reflete o pensamento de quem se esqueceu que o Senhor da Igreja é Jesus, e que Ele é o seu fundamento e edificador. MacArthur fala de um "ministério sensível aos interessados" quando se refere a algumas obras literarias que ensinam as igrejas a se adaptarem ao seu público alvo. A intensão parece nobre, pois soa como Paulo dizendo: fiz-me tudo para com todos, com o fim de, por todos os modos, salvar alguns (1 Co 9.22). Porém, apenas parece. Paulo não está ali ensinuando que o culto deve ser moldado aos gostos ou estilos de vida. Antes, ele fala de sua disposição pessoal para chegar a todo tipo de indivíduo, quebrando barreiras que poderiam limitá-lo por questões pessoais. Paulo vivia para cumprir o propósito para o qual foi chamado (Fp 3.12), e nada deveria se opor a isso, principalmente algum tipo de indisposição pessoal. Por isso ele estava pronto a ir a todos, mas não tornar o culto segundo o gosto de todos.

Com essa idéia torta de tornar o culto atraente a todos estilos e gostos pessoais, as igrejas têm funcionado como um verdadeiro shopping center. Existe igreja para atender a todo tipo de "consumidores da fé". Em muitos casos, uma mesma igreja pode agregar programações que atendem à públicos diferentes com cultos direcionados. É a igreja com a cara de quem a frenquenta, não importando o tipo de vida que esses clientes vivem.

Nessas igrejas, obedecendo a máxima da razão que o cliente sempre têm, nunca alguiém pode ser contrariado. Os ouvintes podem até levar umas chacoalhadas com algumas palavras que soam duras, mas nunca no sentido de se pregar contra o pecado. A pregação que é na verdade uma palestra de auto-ajuda, pode chamar as pessoas à algum tipo de responsabilidade, e até usar palavras duras, mas nunca no sentido de afirma a completa incapacidade que a pessoa tem de se salvar. No fim dessas palestras, convencidos de sua capacidade inerente, o indivíduo se sentirá melhor consigo mesmo, pensado: "Sim, eu posso! Se eu venho fazendo algo errado, eu posso concertar." É sempre bom lembrar que por "errado" nem sempre se quer dizer pecado, e nesses casos de auto-ajuda, nunca.

A questão final que precisamos abordar é: Qual é a razão que temos para fazer parte da Igreja de Cristo? De sermos membros de seu corpo? Não somos clientes e nem consumidores da fé. A Igreja não é uma empresa e nem um comércio, e não é sustentada por nós. Que razão nos resta? É justamente porque estávamos perdidos, mortos em nossos delitos e pecados, sem razão alguma nesse mundo, é que devemos correr para a Videira onde temos vida (Jo15.1-5; Ef 2.1-4). Essa Vida que temos em Cristo, enquanto membros de seu Corpo, é a nossa única razão. Por essa mesma razão Pedro responde a Jesus quando os 12 foram questionados se queriam seguir seus próprios caminhos: Senhor, para quem iremos? Tu tens as palavras da vida eterna...". A razão de tudo isso é que entregues a nós mesmos, não temos razão alguma, nada realmente faz sentido. A nossa razão para estarmos na Igreja é que não temos razão em nada nessa vida, se não em Cristo. Ele é e tem toda a razão de ser.

terça-feira, 11 de maio de 2010

O evangelho proclamado também deve ser defendido


Existe uma severa crítica à crítica dentro das igrejas evangélicas. Algumas pessoas argumentam que o tempo que se gasta "criticando" teologias, ministérios e líderes, deveria ser dedicado ao evangelismo. Esse pensamento pseudo-espiritual tropeça na Bíblia e na História da Igreja Cristã.


Os apologistas nos primeiros séculos da Igreja aplicavam-se em defender o evangelho e a Igreja Cristã diante dos ataques sofridos da parte dos pagãos do Império Romano. Várias acusações infundadas contra o cristianismo nos primeiros séculos foram cotra atacadas por homens que gastaram tempo buscando provar que os cristãos não eram merecedores de perseguições como as sofridas naquela época. Os argumentos dos apolistas eram de cunho negativo e positivo, ou seja, por um lado demonstravam que o cristianismo nada tinha em comum com as acusações depreciativas, por outro demonstravam que o evangelho de Jesus era superiormente incomparavel a fé pagã e judaica. Justino Mártir e Tertuliano são nomes que se destacaram nesse propósito.

Por sua vez, os polemistas se aplicavam na luta pela pureza do evangelho dentro da Igreja, indo contra heresias que mesclavam mentiras a verdade, e se apegavam assim às doutrinas cristãs. Falsos ensinos como o Gnosticismo e Montanismo marcaram os primeiros séculos. Irineu escreveu a obra "Contra Heresias" para refutar doutrinhas gnósticas.

Falando mais especificamente dos polemistas, podemos dizer também que não foi só a partir do segundo século da era cristã que eles surgiram. Em certo sentindo, podemos achá-los na própria Bíblia. O apóstolo Paulo foi um vigoroso polemista, lutando contra heresias judaizantes (Gálatas - resistindo o próprio Pedro), como também lutando contra falsos apóstolos (2 Coríntios 11). João foi um forte polemista contra a heresia gnóstica que estava surgindo na Igreja no fim do primeiro século. Pedro combate intensamente alguns falsos mestres na sua segunda epístola, e Judas faz o mesmo emulando algumas das palavras do apóstolo. O próprio Senhor Jesus era forte polemista contra os abusos farisaicos de observação vazia da lei (Mateus 23). No Antigo Testamento, os profetas muitas vezes falavam contra os falsos profetas que profetizavam suas próprias idéias e sonhos.

A Palavra de Deus nos incumbe não só de anunciar as boas novas do evangelho, mas também de militar pela sua integridade para que toda e qualquer torção doutrinária seja tratada com o máximo rigor. É preciso postura como a que Paulo requer daqueles que um dia receberam o evangelho:


Mas, ainda que nós ou mesmo um anjo vindo do céu vos pregue evangelho que vá além do que vos temos pregado, seja anátema. Galátas 1.8

sexta-feira, 30 de abril de 2010

A religiosidade de cada um


O ser humano é uma criatura religiosa por natureza. Digo, faz parte das pessoas relacionarem-se com alguém ou algo que está acima delas. Isso não se encontra apenas na narrativa bíblica, mas desde os primeiros relatos da história humana em geral. Portanto, negar a própria religiosida como alguns fazem, com a intensão de parecer despretenciosos é um grande embuste.
A questão não é se somos ou não religiosos, mas como nossa religiosidade se manifesta. Isso reflete o tipo de relação e entendimento que se têm sobre quem o está sobre nós. Jesus conta uma parábola com o claro propósito de demonstrar como a religiosidade das pessoas pode ser tão antagônica, mesmo entre aquelas tão próximas. Ele fala a respeito de dois homens que foram ao templo com o mesmo propósito: orar. Um era fariseu, membro de uma rígida seita judaica, o outro era publicano, um coletor de impostos para Roma. Estes coletores via de regra eram associados com pecadores por cobrar mais do que o devido. Era um respeitado membro da sociedade e uma odiada pessoa no templo com um mesmo propósito: elevar suas preces a Deus.

Ambos oravam, um em pé e outra afastado. Um de si para si, o outro sem sequer erguer os olhos ao céu. Um dava graças, o outro batia no peito. Um enumerava suas qualidades e desdenhava do publicano, enquanto este pedia misericórdia e confessava-se pecador. Jesus declarou que o publicano voltou para casa justificado, e o outro não, pois que os que se exaltam serão humilhados, e os que se humilham serão exaltados.

Qual a grande questão entre os dois, afinal, sendo ambos religiosos? Seria o caso de desprezar todas as práticas enumeradas pelo fariseu e adotar uma vida libertina como a do publicano? Certamente que não. A grande questão encontra-se na postura diante de Deus. Como Jesus definiu claramente, a oração do fariseu era de si para si. No caso, Deus era apenas um pretexto para que ele estivesse ali se exaltado diante de todos e sobre o publicano. Aquilo que ele deveria fazer para glória de Deus, em sua oração servia para sua própria exaltação. Sua primeira expressão de “gratidão” era por não ser como os demais pecadores. Mas a Palavra ao contrario disso, afirma que “todos pecaram e carecem da glória de Deus” (Rm 3.23). O segundo motivo de gratidão do fariseu era a sua agende de boas obras: Jejum e dízimos. Mais um vez repito que a parábola não está condenado o ato de jejuar e dizimar. Todavia é nítido que isso não pode ser usado para a glória pessoal. Jejuamos porque carecemos de Deus em nossas vidas. Nada é mais importante que Ele, e por isso abrimos mão por vezes do nosso alimento diário a fim de expressarmos nossa fome por Ele. Os dízimos são dedicados na “casa de Deus” para o sustento da mesma, e isso não é mais que uma prazeirosa obrigação e sinal de gratidão diante do sustento que Deus provê para os seus filhos. Não se pode querer literalmente comprar glória pessoal pelos dízimos, mas sim devolver parte do que pertence a Deus, como sinal de gratidão e confiança. Assim, na íntegra a oração do fariseu negava a glória de Deus, tomando-a para si.

A oração e a postura do publicano era mais simples e contida. Ele provavelmente não estava em um lugar de destaque, pois o texto diz que estava afastado. Ele também não devia orar em alta voz, pois nem sequer os olhos ele erguia para o céu, quanto mais a sua voz. Além disso ele batia no peito, sinalizando contrição de sua parte. Sua curta oração rogava a Deus o seu favor, ainda que ele fosse pecador. Na verdade, a expressão propício tinha todo sentido particular para aquele lugar. O propiciatório, lugar onde se fazia sacrifícios pelos pecados cometidos pelo povo estava ali no Templo, era a tampa da Arca da Aliança onde os animais eram mortos. Aquele publicano parecia tanto saber quem era, como também com quem falava e onde estava. Ele sabia que era pecador, e que estava falando com Deus dentro de Sua casa.

A justificação é um ato que pertence a Deus. Jesus declara que o publicano desceu justificado, ou seja, ele saiu do templo diferente de como entrou. Ao passo que o fariseu saiu da mesma forma. A nossa religiosidade não pode ser de nós para nós mesmos. Não pode ser pautada em nossos atributos ou práticas religiosas. Nesse sentido, todos sobre a terra são religiosos, e isso em si não lhes acrescenta nada. As orações, jejuns e dízimos não nos recomendam a Deus. Ou fazemos isso em sua dependência e para sua glória, ou estamos entregues a nós mesmos. Nossa religiosidade deve ser segundo quem Deus é, e o que Ele fez e faz por nós. Deus é Senhor e soberano sobre a terra, diante de quem devemos nos apresentar com reverência, temor e fé. Sabemos que seu Filho é o supremo sacrifício, e que a cruz é o lugar da propiciação pelos pecados. Nós pecadores não temos outra esperança a não ser confiar na obra realizada na cruz, e crer que o Pai é quem nos justifica pelo sangue do seu Filho.