sábado, 23 de dezembro de 2023

Os primeiros convidados para o Natal

Natal é costumeiramente o tempo de nos reunirmos, especialmente com a família. Pessoas se deslocam de suas casas, seja na própria cidade, de uma cidade para outra, ou até de um país para outro. Mas muitos antes de sairmos de casa para uma festa de fim de ano, a Bíblia já nos falava sobre outras pessoas que saíram de suas casas por casa do Natal.

É interessante pensar nos dois grupos que compareceram ao primeiros Natal. Na ordem dos acontecimentos, os pastores chegaram antes dos magos. Eles cuidavam dos rebanhos nos arredores de Belém, e na mesma noite que Jesus nasceu, anjos lhes anunciaram a vinda ao mundo do Salvador, que é o Cristo (que quer dizer Ungido), o Senhor. Os pastores ficaram atemorizados, mas aqueles eram boas-novas, e que por isso não deviam ter medo. Um coral de seres celestiais louvou a Deus com um cântico que deixaria claro que a criança anunciada era o Filho de Deus. Os pastores foram então até Belém, e encontraram Jesus na manjedoura, como o anjo havia dito.

Os magos por sua vez, era estrangeiros vindos do Oriente (da Babilônia, ou da Pérsia). Mago era uma designação que significava “grande” em riqueza e sabedoria. Certamente eram estudiosos das constelações, e tinham muitas posses que os permitiam ofertar a Jesus presentes dignos da realeza. Eles foram até o rei Herodes o Grande, um preposto rei que Roma designou sobre os judeus (que nem israelita era; era descendente de Esaú), procurando a confirmação de onde havia nascido o verdadeiro rei dos judeus. Eles foram orientados por antigas profecias, e foram guiados por uma estrela cintilante até onde encontrariam a criança prometida. Foram até Belém para adorar o menino, e se alegram quando o encontraram o em sua casa, mesmo que humilde, mas igualmente digno de toda alegria e júbilo transbordantes de seus corações.

Humildes pastores judeus, e nobres estudiosos gentios foram até Jesus para adorá-lo. Pessoas de perto e de longe foram até Jesus porque ele é digno de toda adoração. Assim também, até hoje, ricos e pobres carecem igualmente do Cristo, o Senhor e Salvador, o Filho de Deus. Não importa onde ou como estejamos, Ele veio para nos salvar da condenação dos nossos pecados. Ele veio a esse mundo, para que fossemos levados para o seu Reino. O Filho de Deus se fez homem, para que homens fossem feitos filhos de Deus.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

Expectativas foram criadas

É curiosa a relação tão próxima, e ao mesmo tempo distante, entre as festas de final de ano. Primeiro as pessoas comemoram o Natal, de maneira mais contida e introspectiva. Com um afã religioso e involuntário, comumente chamado de espirito natalino, que possui os homens, lembram-se dos seus semelhantes buscando (ainda que temporariamente) promover o bem deles. Mas, poucos dias depois, um frenesi toma essas mesmas pessoas na celebração do Réveillon. Transbordantes de expectativas de um tempo melhor, valem-se de superstições através das cores das roupas, crendo que seus anseios sobrenaturalmente se realizarão. Extravasam a euforia de sobreviver a tudo que passou, e festejam antecipadamente as incertezas sobre o ano que virá. 

É uma semana cristã, e outra pagã. Uma em que olham para o passado, para o nascimento de Jesus, com todo sentimento de bem ao próximo. A outra em que vislumbram um ano novo, com pretensões de amor, saúde e prosperidade projetados para o futuro. É assim todos os anos. Mas tem que ser sempre assim?

Como no filme "O Feitiço do Tempo", ou na música "Cotidiano" de Chico Buarque, a sensação de estar preso no tempo é inegável. Alguns que percebem essas algemas, desejam algo além desse dia, ou desse ano. Algo que muito leva além dessa correnteza que nos arrasta a vida toda. Se refletirmos sobre todos os anos pelos quais já passamos, e mesmo aqueles que vieram antes de nós, como podemos esperar algo realmente novo deste que se aproxima? Somos obrigados a concordar com Salomão quando diz: "tudo é vaidade [...] nada há novo debaixo do sol" (Eclesiastes 1.2,9). Mas o que fazer com todas essas expectativas criamos? Onde elas devem desaguar?

Nossos olhos devem voltar-se mais um vez para o passado, para o primeiro Natal em Belém, e percorrer o caminho de Jesus até Jerusalém, e seguir além, saindo da sepultura até o céu. Só existirá um ano novo realmente novo quando o Natal não for apenas um feriado que nos traga uma reflexão temporária. Alguém já disse que a manjedoura está vazia, assim como a cruz e o túmulo, mas o trono não. É a direita de Deus Pai que nossas expectativas devem se desaguar. Lá, em Cristo, é devemos depositar nosso tesouro, as expectativas do nosso coração. Lá tomamos conhecimento da promessa do Novo Céu e Nova Terra que concretizará os anseios mais extraordinários que podemos ter.

Quando Jesus nasceu, expectativas foram criadas. Todavia, nenhuma expectativa se cumprirá com a mera mudança do calendário. Todo amor, saúde e riquezas que esperamos serão encontradas no Novo Céu Nova Terra. Lá também haverá festa, ceia, celebração como nunca antes em toda história. Não será por uma noite, nem por um ano, mas pela Eternidade.        

quarta-feira, 25 de agosto de 2021

Entre a Sabedoria e a Loucura

 


A palavra sábia é um nó firme. Mas a palavra insensata é como um nó cego. Ambas afirmam algo pretendido, mas só a primeira cumpre o que diz sem causar danos.

A loucura é muitas vezes confundida com a sabedoria. Ela não se omite, aparenta uma coragem admirável, mas a ruína que se desencadeia dela é sem fim. Por isso o próprio Senhor Jesus nos diz que a sabedoria será justificada por seus filhos (Mateus 11.19).

Se pretendemos gerar palavras sábias, não podemos encontrar outra mãe além da sabedoria. Ela é a mulher que clama em alta voz nas ruas, nas encruzilhadas e pelos caminhos a fora (Provérbios 1.20-21; 8.1-3). Ela mesmo preparou sua casa com um banquete e nos convidou (Provérbios 9.1-5). Com ela geramos filhas que serão bênçãos a todos que lhe derem ouvidos. Por ela também teremos nossa casa edificada sobre a Rocha, firme como um nó bem feito.

Mas, se descermos as escadas do inferno com a loucura (Provérbios 5.5), para comer os pães às ocultas e beber as águas roubadas, daremos a luz às trevas, nascerá dessa união a morte (Provérbios 9.17-18). Como a sabedoria, ela também anda pelas praças e ruas, mas é silenciosa, e discreta e ardilosa, espreita como um caçador sua caça para lhe atravessar com suas flechas (Provérbios 7.12,23). A ruína filha única dessa união, mas é suficiente para desmantelar tudo ao seu redor.

Para reconhecer em nossos caminhos quem esta diante de nós, se a sabedoria ou a loucura, devemos pedir que Deus pese nosso espírito (Provérbios 16.2). Perguntas tais como: o que desejamos produzir? Para quem? Para quê? E por que? Devem ser feitas diante de Deus. As respostas só podem ser confiáveis quando sustentadas em sua Palavra. 

Não são apenas nossos caminhos que devem ser colocados diante do Senhor, mas nosso espírito precisa ser antes provado. Só assim faremos distinção entre a sabedoria e a insensatez.  

segunda-feira, 16 de agosto de 2021

Prontos para o dia mau?


 

Os dias maus chegarão para todos. Dias até piores do que aqueles dos quais estamos acostumados a reclamar. A grande questão nesse tempo sombrio é: Como estaremos diante de Deus quando essa hora chegar?

Não sabemos quando, e nem quão mau serão esses dias. Os dias parecem maus por si só, mas é certo que a medida que os anos passam, o pior ainda está por chegar. Como podemos nos preparar para essa mal?

A Palavra do apóstolo Paulo em Efésios 5.16 nos fala sobre remir o tempo. É remir é o mesmo que resgatar mediante o pagamento de um preço. Ninguém resgata nada a custo se não tiver um propósito melhor em mente. Mas como podemos fazer o uso adequado do tempo? 

Devemos proceder conforme o ensino do rei Salomão em Eclesiastes 12.1, remimos o tempo lembrando-nos do nosso Criador quando ainda nos encontrarmos jovens. Apesar dos atrativos e das distrações da mocidade, devemos nos lembrar que os prazeres desse mundo passam com os anos, e que por isso nossa satisfação acha-se em alguém que não passará com esse mundo: a saber, o nosso Deus. 

Pode ser que talvez vocês não sejam tão jovens para se identificarem com a Palavras do filho de Davi, e por isso acredite que agora já seja tarde. Nesse caso, e em todos outros, devemos atentar para a abrangência da Palavra do profeta Isaías em seu livro no capítulo 55.6: Buscai ao SENHOR enquanto se pode achar; invocai-o enquanto está perto. Ainda há tempo para resgatar o tempo. É tempo de buscar a Deus, pois Ele se encontra acessível pela sua Palavra. Ela não está no alto céu, nem no profundo abismo, mas desceu até nós, e nele o encontramos para enfrentar o dia mau.

Mas voltando a questão inicial: Como nos encontraremos diante de Deus quando chegar o dia mau? Devemos ser achados como em todos os demais dias; enxergando que esses dias, bons ou maus, os melhores e mesmos os piores, passarão, mas não o nosso SENHOR Deus, o Criador. Devemos comprar todo o nosso tempo de vida para o propósito para o qual realmente se presta, para buscar a Deus, e estar em sua presença. Esse é a Rocha firme para que não resvalem os nosso pés, nosso esconderijo seguro, onde os dias mesmo sendo maus, não permitirá que o mal nos alcance. 



  

domingo, 10 de janeiro de 2021

Há pão na casa do Pai



Lendo a Parábola do Filho Pródigo (não concordo com esse título, mas é assim que ela conhecida) me deparei com algumas coisas que só são verdadeiras na casa do pai.

A primeira, e mais evidente, que somente lá há pão com fartura. A lembrança de que seu pai era generoso até com seus empregados trouxe como o impacto de uma queda (caindo em si) a certeza de que ele estava no lugar errado. Trabalhando com porcos bem alimentados e sem ter o que comer, o filho pródigo se lembra da bondade do seu pai e resolve voltar para casa.

Pão é uma temática antiga na Bíblia. O Senhor fartou seu povo com o maná no deserto, e multiplicou pães e peixes para as multidões. Jesus nos ensinou a orar pelo pão de cada dia, mas a Palavra diz que não só de pão vive o homem. É na casa do Pai que temos não somente as nossas necessidades básicas supridas, mas toda Palavra que procede da boca de Deus.

O filho, com discurso pronto, e maltrapilho como um mendigo, voltou com a esperança de ser aceito com um empregado na casa de seu pai. O que ele encontrou, mesmo antes de entrar em casa, foi o amor do pai que correu até ele literalmente de braços abertos. Ele não teve tempo de terminar sua proposta de trabalho, foi logo interrompido pelas ordens do pai para que fosse restaurado às condições de um filho. Não seria mais um mendigo, e nem se tornaria um empregado, ele era membro daquela família, suas roupas e o anel eram sinal disso.

Não fazemos ideia do que Deus tem reservado para nós, isso é fato. Mais do que pedimos ou pensamos, é o que Deus tem para nós. Somos modestos em nossas pretensões, achando que tendo comida, morada e roupa, já temos tudo que precisamos. Mas Deus tem infinitamente mais que isso. Ele tem para nós um lugar em sua família. Ele nos restaura à condição de filhos, deixada para trás lá no Éden. Esse é todo o sentido do nosso ser: filhos de Deus, sua imagem e semelhança.

Por fim, o filho que achava que poderia trabalhar para seu pai por pão, encontra em casa um novilho cevado preparado para a festa, e fora de casa um irmão invejoso e legalista. A celebração era uma marca das três parábolas irmãs de Lucas 15. Nas anteriores essas festas refletiam o júbilo no céu e dos anjos pelos pecadores arrependidos. Nesta não é diferente. A única coisa que se acrescenta é a sombra dos fariseus e escribas que rejeitavam a graça de Deus.

O prazer e o júbilo do nosso Deus e dos anjos é real. E estará estampados aos nossos olhos quando Cristo vier buscar a sua noiva. Hoje, como que refletido num espelho, celebramos essa restauração através dos cultos com que servimos ao Senhor. Essa mesma adoração é escândalo para um mundo que se acha suficiente em sua própria justiça. Celebramos a vitória de Jesus sobre a morte e o nosso resgate, tropeço para para aqueles que não reconhecem a bondade do Senhor. Mas, apesar de toda essa oposição, a festa continua, e continuará eternamente quando formos finalmente reunidos ao nosso Senhor e Salvador.

Digam a aqueles que estão fora da casa do pai, longe ou perto: voltem para casa de Deus. Lá tem pão. Lá você tem identidade. Lá a alegria e a celebração será por toda eternidade.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

O PRESENTE DO NATAL

 


            Todos os anos o Natal é embalado como um presente, com caixa, papéis e laços bem típicos. As trocas de presentes, a ceia e a própria reunião da família caracterizam bem essa data. Mas seria tudo isso apenas mais um costume festivo? Não existiria uma razão maior para essa celebração? Creio que essa “embalagem” do Natal pode nos ajudar a descobrir o que há de mais precioso nesse presente que nos foi dado há tanto tempo.   

Sim, a celebração do nascimento de Jesus é uma ocasião para presentes. O Evangelho de Mateus registrou que os reis magos que visitaram Jesus levaram consigo presentes muito valiosos. E mesmo hoje, continua sendo costume quando visitamos um recém-nascido, ou vamos a uma festa de aniversário, dar presentes: demonstramos desta maneira nossa consideração e carinho pelas pessoas. Mas no caso do Natal, o mais curioso é que o presente mais precioso não foi nenhum daqueles dados pelos magos, nem esses que trocamos hoje. O presente mais valioso é o próprio Senhor Jesus: “Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu” (Isaías 9.6).  

            Mesmo a ceia por sua vez, que não tem registro na ocasião do nascimento de Jesus, é um tema muito presente em toda sua vida ao longo dos Evangelhos. Ele esteva na ceia do casamento em Caná da Galiléia, foi convidado para jantares por fariseus e publicanos, e quando necessário multiplicou pães e peixes para alimentar milhares de pessoas. Ainda assim, Jesus disse que ele mesmo é o Pão da Vida, que sua carne é a verdadeira comida e seu sangue a verdadeira bebida (João 6. 51,55). Quando Jesus comeu a ceia da Páscoa com seus discípulos, era para o seu sacrifício que aquela refeição apontava. E na promessa de sua volta, nos foi dito que haverá uma ceia do seu casamento com sua Noiva.

            Jesus não nasceu nas melhores condições, mas nasceu sob o cuidado e carinho de seus pais. Maria o recebeu com a missão de ser a mãe do Salvador. José, como seu pai adotivo, recebeu a ordem do anjo de não abandonar Maria grávida, e de dar o nome da criança de Jesus (Mateus 1.20,21). Pela genealogia de Jesus tomamos conhecimento que sua família ao longo da história era marcada por muitos problemas, como qualquer outra sobre a terra. Mesmo com seus irmãos, Jesus enfrentou conflitos. Mas nem por isso ele deixou de ser o Salvador do seu povo. É em Cristo que somos feitos verdadeira família, sob um só Pai (Marcos 3.35).

            Sempre que no Natal nos reunimos como família para ceia e para trocar presentes, devemos nos perguntar: isso é Natal ou só uma festa de fim de ano? O costume pode ser bom, saudável, as vezes cansativo e marcado por contrariedades, mas no final válido. Mas seria só isso? Não haveria um propósito maior? Se não no Natal não celebramos o dom de Deus, o Pão da vida, aquele que nos faz família de Deus, apenas repetimos todos os anos um costume vazio, como um embrulho sem presente. Temos a aparência, mas não temos a essência. Crer no Filho que se nos deu como quem nos salva dos nossos pecados, que ao oferecer-se como sacrifício em nosso lugar, nos faz família de Deus, é a verdadeira razão de ser do Natal. Para isso Jesus nasceu, viveu, morreu e ressuscitou. Creia nisso e receba o presente da vida eterna.     

sábado, 25 de abril de 2020

O Rei Davi e a Justiça do Rei Celeste


Quando em 2 Samuel 12 o rei Davi foi procurado pelo profeta Natã com um "caso" para ser julgado (essa era uma das funções do rei, julgar os casos em Israel), com aquela historinha da cordeirinha do pobre que foi comida pelo vizinho rico que recebeu um hóspede; Davi, mais que depressa, sentenciou o culpado muito além do que era prescrito. Disse o rei: “Tão certo como vive o Senhor, esse homem nasceu para morrer”! Essa sentença não era justa conforme a Lei. Um ladrão que roubava não por causa da fome, mas por usura, a sentença era aquela que foi proferida em seguida: “Restitua quatro vezes mais”. Me parece que Davi, num arroubo de justiça, achou-se se achou acima do que era prescrito na lei.
Sabemos que na sequência, Natã revela que esse homem na verdade era o próprio Davi, cujo crime era muito pior. O rei não roubou um animal de estimação de um pobre para fazer churrasco, mas adulterou com Bate-Seba, e assassinou seu marido Urias de maneira fria. Dois crimes qualificados em Israel, sobre os quais a punição era a morte sem chance de apelação. Davi havia julgado um crime menor com ira, sentenciando de maneira excessiva o criminoso, não de acordo com a lei, enquanto ele mesmo, que havia cometido crimes de sangue, era de fato, segundo a Lei, réu de morte.
Até entendo que ao ouvir a história, o rei que tinha sido pastor quando jovem, e sendo o último filho de uma linhagem se sete, se viu no lugar do pobre roubado, e por isso julgou com ira, e não de conformidade com a lei. Nós, da mesma sorte, muitas vezes, não julgamos conforme a Palavra de Deus, mas julgamos conforme nossas conveniências, conforme a nossa história.
Todavia, Deus surpreende Davi ao sentencia-lo com vida. Ao ouvir sua confissão: "Pequei contra o SENHOR", Natã emenda: "Também o SENHOR te perdoou; não morrerás". É evidente a misericórdia de Deus sobre Davi. O Rei que julga não somente Israel, mas toda terra, que escreveu a Lei com os próprios dedos, e que ali disse que o adúltero, e o assassino deviam morrer, aparentemente contradiz sua própria Palavra. É assim mesmo? Certamente que não!
Esse mesmo Rei celeste viria a terra, fazendo-se homem, sendo chamado de Filho de Davi. Esse mesmo Filho de Davi, mesmo cumprindo perfeitamente a Lei, viria morrer na cruz em lugar dos pecadores, o que incluía o próprio Davi. Deus não anulou ou contradisse sua própria Lei, antes a cumpriu, como quando disse: não vim revogar a lei, mas a cumpri-la (Mateus 5.17, 18).
Essa é a diferença entre nós e Deus quando se trata da Lei. Queremos usá-la para nossos arroubos de justiça, segundo nossas conveniências, que não correspondem ao que Deus quer. Queremos ser mais justos que Deus, quando na verdade a ira do homem não produz a justiça de Deus (Tiago 1.20). Mas a realidade é que sempre quebramos a Lei, e somos por isso culpados de morte. Enquanto isso, Deus, o Rei justo e misericordioso, que se fez homem, que cumpriu perfeitamente a Lei, foi, em nosso lugar, sentenciado à morte. Eis a ironia dos fatos, o escândalo do evangelho: Nós que transgredimos sua lei, e que por isso éramos merecedores da morte, fomos contemplados não só com perdão, mas com a Vida Eterna, por meio daquele que cumpriu a lei perfeitamente.
Apesar de muitas vezes nos identificarmos com Davi quando este venceu Golias, somos na verdade como ele quando se deitou com Bete-Seba, e quando matou Urias. Somos como ele quando repreendido por Natã, ouvirmos o evangelho desmascarado nosso pecado. Espero que sejamos também como ele, quando cremos nesse mesmo evangelho que nos promete o perdão de Deus sobre nossos pecados, afirmando que ao invés de morrermos, o Filho de Davi morreu em nosso lugar.

domingo, 12 de abril de 2020

Extra! Extra! Jesus de Nazaré não foi achado no sepulcro!

ELE NÃO ESTÁ AQUI!


Domingo, ao romper da aurora, as mulheres que foram ao encontro do corpo de Jesus para embalsamá-lo, foram tomadas de grande surpresa ao constatarem que Ele não se achava mais em seu túmulo. Estas mulheres seguiram Jesus em seu ministério, e o serviram com seus bens (Lucas 8.2-3). E mesmo em suas últimas horas, correram risco de morte, mas não o abandonaram como a maioria de seus discípulos. José de Arimatéia e Nicodemos já haviam provido lençóis com óleos aromatizados para que o corpo fosse enfaixado (João 19.38-40). Mas foram justamente as mulheres que acompanharam a tudo, até o sepultamento na sexta-feira à tarde, e que por causa do sábado, não podendo embalsamar apropriadamente o corpo do Mestre, deixaram para o fazê-lo no domingo (Lucas 23.49,55- 24.1). Elas foram sozinhas ao sepulcro.
Com uma disposição notável, uma vez que sabiam que a pedra era impossível de ser removida, a não ser por homens (Marcos 16.3), seguiram assim mesmo para sua missão em favor daquele que jazia no túmulo. Mas ao chegarem lá, não só a pedra havia sido removida, mas também dois anjos assentados sobre ela, disseram-lhe que Jesus já não estava mais ali. Lucas registra a fala dos anjos em um tom mais áspero, ainda que não conflitante com os demais relatos. Questionaram a ida das mulheres ao túmulo justamente por pressuporem que elas deveriam saber que Jesus não poderia ser encontrado entre os mortos: Por que buscais entre os mortos ao que vive? Ele não está aqui, mas ressuscitou.
Apesar da nobre intenção daquelas mulheres, o que se revelou ao mesmo tempo foi a sua incredulidade para com as palavras de Jesus sobre sua morte e ressurreição (Lucas 24.5-7). Apesar de procederem melhor que os discípulos, que sequer foram ao túmulo auxiliar na remoção da pedra, tal cuidado com o corpo de Jesus desconsiderava suas palavras. Elas buscavam servir o seu Senhor como a um morto, quando na verdade ele já se achava vivo.
É perceptível como muitas pessoas procedem da mesma maneira como essas mulheres. Ainda que com gestos e atitudes nobres, retratam Jesus meramente como um vulto histórico, ou um espírito de luz, com grandes lições e exemplo de vida para dar. Nessa perspectiva, a ressurreição não faz diferença, posto que o Nazareno entrou para história meramente como um símbolo, como uma inspiração para os homens encontrarem em si o melhor.
Mas a contundente mensagem dos anjos, como no dia do seu nascimento (Lucas 2.10-14), é que algo sobrenatural havia acontecido: “Ele não está aqui, mas ressuscitou”. Essa é a Palavra que faz toda diferença: Ele vive! Ninguém mais precisa temer a morte, pois a morte foi vencida. Ariano Suassuna, no Auto da Compadecida, pela boca de Chicó, descreve assim a morte:
Cumpriu sua sentença. Encontrou-se com o único mal irremediável, aquilo que é a marca do nosso estranho destino sobre a terra, aquele fato sem explicação que iguala tudo o que é vivo num só rebanho de condenados, porque tudo o que é vivomorre.
            Pois bem, esse mal outrora irremediável encontrou seu antídoto: O Cristo vivo. E como diz o cântico: “porque Ele vive, posso encarar o amanhã/ porque Ele vive, temor não há”. Nos depararmos com a ressurreição de Jesus muda nossa vida, e, consequentemente, toda nossa agenda. Não vivemos mais em função da morte, mas da viva que é digna de ser vivida. Antes, como as mulheres com seus bálsamos, devíamos apenas nos preparar para a morte, fosse a de outros ou a nossa. Mas com a ressurreição de Jesus, anunciamos e nos preparamos para a vida eterna, pois tragada foi a morte pela vitória (1 Coríntios 15.54). Já não mais vivemos para morrer, pois se com Ele morremos, também com Ele viveremos (Romanos 6.8).
            Assim, anunciamos nesse domingo que a morte de sexta-feira foi, na verdade, a morte da morte. A ressurreição de Jesus é, hoje, o renascimento da vida; da vida em inextinguível que Ele prometeu a todos os que nele creem (João 11.25).  


sexta-feira, 10 de abril de 2020

Extra! Extra! Morreu em Jerusalém Jesus de Nazaré!



Apesar de ser a esperança de redenção de Israel para alguns, Jesus, também conhecido como o Nazareno, morreu crucificado no Gólgota, nessa sexta-feira de Páscoa por volta das 3 horas da tarde. Tendo sofrido sua sentença de morte entre malfeitores, chama atenção o processo que o levou até a cruz. Ao que tudo indica, seu julgamento não foi comum como o dos demais condenados à cruz.
Jesus de Nazaré começou seu ministério há cerca de três anos, acompanhado de doze discípulos que ele mesmo escolheu. Sua mensagem era sobre o arrependimento necessário, e a fé nas boas novas, em vista do Reino que se aproximava. Peregrinando com mais frequência entre as cidades galileias, realizou, segundo relatam, muitos milagres, sinais e curas. Mesmo pessoas possessas por demônios eram exorcizadas, e, segundo o próprio Jesus, libertas “pelo [poder do] Espírito de Deus”, como indicação da chegado do Reino de Deus. Pães e peixes foram multiplicados, ao menos duas vezes, alimentando multidões que o acompanharam em lugares desertos.
A respeito de seus ensinos, era evidente, desde o começo, que sua autoridade não era incomparável. Sua pregação chamava atenção para o coração do homem, visível por Deus, não para as aparências e palavras lisonjeiras que podiam impressionar apenas aos homens. Esse foi, inicialmente, um dos grandes desconfortos causados entre os fariseus. Por serem, juntamente com os escribas, tão apegados aos holocaustos, sem necessariamente levar em consideração a misericórdia, tais afirmações expõem sua hipocrisia.
Ao que tudo indica, o incomodo maior viria ainda pela proporção que seu ministério tomou com um milagre em específico. Segundo relatos, após a ressurreição de um amigo por nome Lázaro, de Betânia, irmão de Marta e Maria, o Sinédrio se viu na obrigação de eliminar o Nazareno, uma vez que “o mundo todo ia após Ele”, e que também, por isso, os Romanos poderiam vir sobre eles e o povo, tomando-lhes a nação. Nas palavras do Sumo Sacerdote deste ano: “Vós nada sabeis, nem considerais que vos convém que morra um só homem pelo povo e que não venha a perecer toda a nação”.
A partir de então, na semana antes da festa de Páscoa, os ânimos começaram a se acirrar cada vez mais. No domingo, Jesus adentrou Jerusalém montado em um jumentinho, sendo recebido pelos populares com ramos postos no chão e exclamações de “Hosana ao Filho de Davi”! Depois disso, expulsou os vendedores e cambistas que se instalaram no Templo, mais precisamente no Átrio dos Gentios. Não havendo mais como esperar, os principais sacerdotes fizeram um acordo financeiro com Judas Isacariotes, um dos discípulos, para que Jesus fosse entregue a prisão em uma ocasião que evitasse tumulto. Há relatos de que o preço acordado foi o de trinta moedas de prata.
Ao se reunir na ceia da Páscoa, com seus doze discípulos em um aposento superior da casa de um dos seus seguidores, Jesus lhes disse que seria traído por um deles que se achavam naquela mesa. Mesmo que cada um tenha se acusado em tom de dúvida, nenhum deles achou que poderia ser Judas, por ter ele o cargo de confiança de tesoureiro. Mas havendo chegada a hora, Jesus segui dali de madrugada para o Jardim Getsêmani afim de orar. Lá ele foi preso por uma escolta guiada por Judas, e seus discípulos fugiram com medo.
Ainda de madrugada, Jesus de Nazaré foi levado para a casa do sumo sacerdote. Em um julgamento às pressas, com testemunhas incoerentes, a acusação que prevaleceu foi de que o Nazareno havia dito que destruiria o templo, e o reedificaria em três dias. Não respondendo ao sumo sacerdote Caifás, Jesus foi por ele conjurado a responder pelo Deus vivo ser era ele o Cristo, o Filho de Deus. A resposta do réu foi: “Sim, de fato. Porém, digo a vocês que breve verão o Filho do Homem assentado à direita do Todo-Poderoso e vindo sobre as nuvens do céu”. A sentença que já havia sido decidida há dias, não precisava mais de interrogatórios: Jesus era culpado de ser o Filho de Deus.
O réu foi então encaminhado à autoridade civil maior, o governador Pilatos. Sendo-lhe dito que Jesus era galileu, por ser da jurisdição de Herodes, que estava em Jerusalém naqueles dias, enviou-lhe para que se reportasse a ele. Nada respondendo a Herodes, servindo-lhe apenas de objeto de escárnio, devolve-o para Pilatos com uma túnica estilosa. O governador não estava convencido de que Jesus era um criminoso de fato, até porque não dava a mínima para a religião judaica, e percebia que havia ciúmes da parte das autoridades religiosas. Para não desagradar os membros do Sinédrio, disse que castigaria Jesus e depois o soltaria. Mas isso não era suficiente para aqueles homens.
Pilatos tenta em vão soltar Jesus pela escolha popular, colocando seu nome ao lado de um malfeitor chamado Barrabás. Mas mesmo questionando o povo quanto ao crime que teria sido cometido pelo Nazareno, nada ouvia além de “crucifica-o”! A pressão aumenta sob o governador, pois o crime de Jesus segundo seus acusadores não era apenas de blasfêmia, mas político, uma vez que seria o Rei dos judeus. Com medo de ser acusado perante o Imperador de sedição, Pilatos não viu outra saída a não ser soltar Barrabás, e autorizar a crucificação de Jesus. Num ato simbólico, o governador lava as mãos do sangue de Jesus, que para ele era inocente.
Como em um espetáculo de horror, Jesus carregou sua própria cruz pelas ruas de Jerusalém até o Gólgota, como dito inicialmente. Foi acompanhado pela multidão dividida, que de um lado zombava dele, e de outro chorava por ele. A túnica sem costura que ganhou de Herodes, foi sorteada entre os soldados que o colocaram na cruz. E uma vez entre seus companheiros de sentença, continuou ouvindo as ofensas vindas das autoridades junto a multidão: Salvou os outros, salve-se também, se de fato é o Cristo de Deus. Consta também que algumas mulheres que o seguiam, um de seus discípulos, e mesmo sua mãe, estavam ao pé da cruz. Ele sofreu escárnio até de um dos malfeitores crucificados, mas foi defendido pelo outro, que dele ouviu uma promessa sobre o paraíso naquele mesmo dia.
Jesus morreu estranhamente antes dos outros dois condenados. O céu escureceu ao meio dia, e exclamando em alta voz, disse: “está pago”, expirando em seguida. Terremoto e rochas fenderam. Fora dito que até a cortina do santuário rasgou-se em duas partes. E há relatos inclusive de mortos que voltaram a viver. Normalmente não se morre crucificado com um forte brado, mas agonizando em sufoco. Até o centurião acostumado a execuções deste tipo, com muito medo disse que “verdadeiramente este era o Filho de Deus”. Por isso suas pernas não foram quebradas para acelerar a morte, como se fez com os outros condenados. Mas para constatar sua morte, uma lança foi atravessada ao seu lado.
O corpo do Nazareno foi tirado da cruz, e levado por um homem de posição da região de Arimatéia, chamado José, que o pediu a Pilatos. Os judeus que organizaram o julgamento de Jesus, pretendem requerer uma escolta sobre o túmulo, e um selo, para que, segundo eles, o corpo não seja roubado. Havia sido dito por Jesus aos seus discípulos, que ele ressuscitaria ao terceiro dia.
Jesus de Nazaré não morreu como morrem todos os homens. Ele também não viveu como os demais. Ele estava certo desde o começo sobre o caminho que trilhava, até mesmo em direção à cruz. Foi como se ao invés de ser levado, ele mesmo tivesse se entregado. Como se tivesse nascido para isso.
Alguns de seus discípulos estão desolados, com medo, e desacreditados. Mas se domingo acontecer conforme suas Palavras, não mais terão razão para não crer. Tudo o que disse em sua vida, mesmo sobre sua morte, foi verdade. Não poderia ser diferente a respeito de sua ressurreição. Nesses próximos três dias, cabe-nos esperar pela remissão de Israel.

domingo, 29 de março de 2020

Deus Santo e Amoroso

Mas Deus, sendo rico em misericórdia, por causa do grande amor com que nos amou, e estando nós mortos em nossos delitos, nos deu vida juntamente com Cristo, — pela graça sois salvos
(Efésios 2.4,5)
“Tudo que você precisa é amor” já dizia exaustivamente a música dos Beatles. Aparentemente é mais fácil falar de amor. Amor é um tema quase sempre agradável de se tratar. É algo que todos desejam, estimam. É automático para muitos dizer que a solução para o mundo é mais amor, ou simplesmente amor ao próximo.
Mas amor, meramente amor, não é a resposta. C. S. Lewis já disse que “Deus é amor, mas o amor não é Deus”. Amor não é um ser, uma entidade ou uma substância que pode ser absorvida pelos homens como um tipo de vacina contra todo o mal. À parte de Deus, o amor é um dos maiores males que existe na face da terra. Somente em Cristo é que temos o verdadeiro amor poderoso para resgatar os homens da sua condição de miséria espiritual.
      1. Qualquer maneira de amor vale a pena?
a)     Paula e Bebeto é uma música muito bonita de Milton Nascimento, escrita sobre a separação de um casal de amigos nos anos 70. Mas estética musical à parte, a questão é que podemos colocar é: qualquer maneira de amar é amor de fato? É valido e aceitável por simplesmente ser chamado de amor?
b)      João nos diz que existe um amor que não vale a pena, que é inaceitável e proibido por Deus: “Não ameis o mundo nem as coisas que há no mundo. Se alguém amar o mundo, o amor do Pai não está nele” (1 João 2.15). Esse amor pelo mundo e suas coisas (concupiscência da carne e dos olhos, e a soberba da vida – v. 16) é o tipo de amor que não vale a pena nem o canto.
c)      O que não falta é amor na humanidade. Mas esse amor é tão deteriorado do seu valor essencial – entregar-se – que sequer é reconhecido assim. As pessoas se amam antes de tudo, e, consequentemente, amam tudo o que pode lhes trazer benefícios. Esse amor, quando tem alguma “entrega”, não o faz sem algum “retorno”.
d)      É por conta desse tipo de amor que o mundo se encontra tão minado do que é verdadeiramente amor. Esse tipo de amor mundano é um amor pobre, miserável, em todos os sentidos. Mesquinho que volta tudo para si. Somente o amor de Deus é rico e benevolente de verdade.
       2. O amor que valeu a Pena.
a)      Essa expressão “valer a pena” tão usada, mas pouco refletida, encaixa-se perfeitamente no amor de Deus. Valer a pena significa compensar o dano, a perda, a condenação se sofre em razão de um ato. Por isso o amor de Deus é santo, pois somente ele compensou verdadeiramente o dano que sofreu. Mas vamos começar a falar sobre esse amor por sua entrega.
b)      O versículo mais conhecido da Bíblia nos diz exatamente isso “Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (João 3.16). O amor de Deus constitui-se basicamente de uma entrega. Ele entregou seu Filho, seu Unigênito a quem Ele ama. Essa entrega não tinha para si mesmo nenhum ganho pessoal, nenhum retorno de algo que lhe faltava. Ele entregou seu Filho para nosso ganho, para ganharmos a Vida Eterna, evitando a perdição eterna.
c)      Em Efésios 2.4, Paulo também diz a mesma coisa quando nos fala que Deus “sendo rico em misericórdia, por causa do seu grande amor com que nos amou... nos deu vida”. Mais uma vez o amor é uma entrega. Primeiro a entrega do Filho, segundo, e com Ele (nele) a entrega da Vida. O amor de Deus nos deu vida eterna, mas a que custo? Ao custo da própria vida de seu Filho.
d)      Ainda em João, o próprio Jesus disse “Ninguém tem maior amor do que este: de dar alguém a própria vida em favor dos seus amigos” (João 15.13). Mais uma vez o amor é associado a dar, entregar, sem retorno previsto. E afinal, o que podemos receber em troca de uma vida? Por outro lado: o que compensa a morte?
      3. Deus é amor.
a)      João (quase sempre ele) nos diz que quem “ama é nascido de Deus e conhece a Deus, pois o amor procede de Deus” (1 João 4.7). Só conhecemos o amor verdadeiro quando somos achados por esse amor. Só amamos de verdade, quando descobrimos o grande amor com que Deus nos amou.
b)      Esse é o amor que transcende sentimentos, ou ações egoístas. Esse é o amor que não se encontra no mundo. Esse é o amor que vale a pena.
c)      O amor do Pai e do Filho valeu a pena, não foi em vão. Jesus ressuscitou. Esse é o amor santo, incomparável e maravilhoso. Esse é o amor que nos dá mais do que o sentido para a vida, nos dá a própria Vida.
Conclusão:
            Creio que devo concordar em parte com a música dos Beatles que diz “tudo que nós precisamos é amor”. Mas a pergunta é: de que amor estamos falando?
            Qualquer outro amor nesse mundo, não é somente passageiro, é mal. No fim trará mais do que desilusão, traz destruição.
Precisamos do amor de Deus, em Cristo, que por nós se entregou, e com Ele, nos deu Vida. Esse é o amor que também nos faz amar. É aquele que se entrega, e que nos capacita a fazer o mesmo.
     



domingo, 22 de março de 2020

Deus Santo e Irado

A ira de Deus se revela do céu contra toda impiedade e perversão dos homens que detêm a verdade pela injustiça" Romanos 1.18


II.   
Ao longo da História, em tempos mais remotos, Deus era mais comumente retratado como um Deus irado. A visão que Lutero tinha de Deus, de um Deus punitivo, com o pavor que lhe causava, fazia com que se penitenciasse a fim de aplacar sua ira. Jonathan Edwards pregou seu famoso sermão “Pecadores nas mãos de um Deus irado” nos tempos de avivamento do século 18. Contudo, a partir do século 19, essa perspectiva mudou radicalmente. Os homens já não eram mais “tão pecadores”, e Deus, por sua vez, já não estaria “tão irado”. Por que, e o que mudou?
Primeiro faz-se necessários considerar a visão Teológica Liberal sobre Deus e o homemO liberalismo teológico propagado a partir do século 19, buscou esvaziar as Escrituras de tudo que pudesse ser considerado sobrenatural. Toda e qualquer ação divina na história, seja pela Providência, ou mesmo através de milagres, passaram a ser creditados como mitos criados a fim de causar nos leitores uma certa apreensão. O trabalho dos teólogos naqueles dias era desmistificar o texto bíblico “recheado de lendas” escritas para uma sociedade “primitiva” (perspectiva que já refletia uma cosmovisão evolucionista).
Segundo essa perspectiva, a humanidade havia evoluído, e o pensamento iluminista insistia que o homem, cheio da razão, não tinha mais necessidade de “contos da carochinha”. E como toda evolução, em tese, é para o bem, homens bons não precisavam se preocupar com a ira de Deus. A Bíblia passou a ser apenas um gigante manual da boa conduta.
O pensamento liberal permeia a mente de todos os que acham que não são tão maus, e que por isso, Deus, não tem o direito de se irar conosco, ou com a humanidade. A “fé na humanidade” é uma afirmação bastante difundida diante de grandes ou pequenos gestos de solidariedade. Mas, o que na verdade afirma-se nessa fé é a suficiência do homem em detrimento da Santidade de Deus.
Em suma: O homem não é tão mau, ele pode sempre melhorar. E Deus, que não é o único ser bom, não tem razão para se irar, apenas precisa ser mais paciente.
Mas qual é a visão bíblica de Deus e do homem?
Romanos 1.18 nos diz que Deus revela sua ira. Mas nos versículos 16 e 17, Paulo já havia dito que o “evangelho, porque é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê” e que “a justiça de Deus se revela no evangelho, de fé em fé”. Antes de entrar na ira de Deus, por assim dizer, Paulo anunciou o evangelho do poder da salvação dos homens, mediante a justiça revelada e recebida pela fé.
O que está implícito aqui, e explícito em outras passagens bíblicas, é que o homem é pecador, está perdido, condenado, morto em seus delitos e pecados. Nessas condições o homem não pode salvar-se a si mesmo. O único que pode salvá-lo é justamente aquele contra quem ele pecou: Deus. E é aí que podemos observar a grandeza de Deus em sua graça, pois justamente Ele quem sofreu a ofensa é quem oferece redenção para o ofensor.
Tamanha bondade imerecida é chamada de graça. E por ser assim tão “incrível”, é que só pode ser recebida pela fé, ou seja, a pura e simples confiança exclusiva em Deus e em seu caráter bondoso. 
Mas se Deus é assim tão bom, ainda há espaço para a ira? É justamente por isso que a visão bíblica da ira de Deus contra os homens se sustenta.
Tome como ponto de partida o que diz Isaías. Na mesma profecia que diz “vinde como estais”, também diz “deixe o perverso o perverso o seu caminho, e o iníquo os seus pensamentos; converta-se ao Senhor” (Isaías 55.1,7). O Evangelho é o poder de Deus para a salvação daqueles que “não têm dinheiro para comprar o que comer”. O homem “espiritualmente negativado”, falido no pecado, é convidado para a mesa do Senhor a quem ele deve literalmente até a alma. O mesmo chamado que admite que o homem não pode se salvar, diz que seus caminhos devem ser endireitados. Isso só é possível pela fé na obra do Salvador.
Esse evangelho que é poder para a salvação, é um convite gracioso do Santo Deus criador dos céus e da terra. Rejeitar esse convite implica não meramente em uma falta de etiqueta, mas em pecado. O pecador é pior do que um cão que morde a mão do seu dono que o alimenta. A ingratidão nesse caso é dobrada em função do fato de que o homem já era devedor. O homem, uma vez convidado ao arrependimento para que sua dívida fosse cancelada, que procede com soberba, não pode esperar nada além da ira de Deus.
Essa ira de Deus é, portanto, santa e justa. (1) Santa não apenas porque procede daquele que é moralmente perfeito, mas também porque procede daquele que não é como ninguém mais. Não podemos comparar a ira de Deus com a nossa, pois Ele está acima de tudo e de todos, e não está sujeito às contingências do tempo e do espaço. (2) Ela é também justa porque não procede de um capricho, ou é desproporcional a sua causa. A ira de Deus não é uma irritação ou um incômodo, mas a manifestação de um julgamento perfeito, e, portanto, proporcional sobre o pecado dos homens.
O que concluímos disso tudo?
Não podemos negar a manifestação da ira de Deus sobre a humanidade ao longo da história. Assim como nas Escrituras constatamos que guerras, fomes, pestes e outras tragédias naturais são creditadas à Deus, também devemos entender que esse mesmo Deus continua sendo o mesmo.
Mas antes de observamos a ira de Deus, devemos atentar para o fato de que Deus, mesmo sendo ofendido pelo nosso pecado, enviou seu Filho para pagar o preço dessa ofensa, com seu sangue na cruz. Esse é o evangelho que salva, que só pode ser recebido pela fé, porque nada em nós pode nos creditar diante de Deus. 
Deus ao longo da história manifesta sua ira, pois ele não pode deixar o pecado impune. Um Deus bom e santo certamente tomará vingança contra seus ofensores, especialmente aqueles que desprezaram o sacrifício do seu Filho na cruz. 
Mas a ira final ainda está para ser derramada. Antes que isso aconteça, o evangelho nos chama a fé e ao arrependimento, ou seja, a confiança na bondade de Deus, e ao abandono das nossas obras más que tanto ofendem aquele que é Santo.
Que Deus nos ajude! 

terça-feira, 24 de dezembro de 2019

Natal de Luz e Vida



Natal é de fato luz. Basta lembrar que os pastores que guardavam seus rebanhos na vigília da noite, e que receberam primeiro as boas novas dos anjos sobre aquele natalício, foram tomados de assombro com a grande glória e o brilho ao seu redor. Também, posteriormente, uma estrela guiou os reis magos até o recém-nascido rei dos judeus. Hoje, as luzes sobrenaturais do primeiro Natal dão lugar às luzes artificiais que iluminam as cidades com seus comércios. De uma forma ou de outra, luzes estão sempre presentes.
O Evangelho de João não faz uma descrição histórica do Natal. Mas ele nos diz que “o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e contemplamos a sua glória, glória como do Unigênito do Pai, cheio de graça e verdade” (João 1.14). Sim, o Filho de Deus, nascido de Maria por obra do Espírito Santo, como descrito por Lucas, é o Verbo encarnado. E esse mesmo Verbo, que é Deus, que estava com Deus no Princípio, criou todas as coisas, e a própria vida. Ele é a vida é a luz dos homens.
Antes das luzes de Natal, do histórico e do contemporâneo, Jesus é a Luz do mundo, e a Vida dos homens. João Batista foi designado pouco antes como testemunha da Luz, pois apesar do mundo ter sido feito pelo Filho, esse mesmo mundo não o conheceu. E mesmo vindo para o que era seu (sua possessão, o que era seu por direito messiânico), os seus (seu povo, sua propriedade exclusiva – Êxodo 19.5) não o receberam (Isaías 1.2,3). Se o mundo criado por ele, e nesse caso, mais especificamente os seres humanos não o conheceram (amaram), era de se esperar que pelo menos o seu povo o recebesse. Mas isso também não aconteceu.
A Luz do mundo, a vida dos homens, é negada e rejeitada, mas ainda assim não pode ser apagada, nem morta. Assim como em Efésios 2.4, um “mas” muda toda a história de trevas e morte. Aqueles que o receberam, receberam a filiação divina. Receberam a luz que é a vida. Contemplaram a glória do Unigênito do Pai, e foram feitos suas testemunhas num mundo de trevas.
Esse é o Natal de Luz e Vida que anunciamos. Jesus, Luz e Vida, crido pela fé dissipa as trevas do pecado, e traz vida aos homens que se encontravam mortos espiritualmente.  



terça-feira, 23 de abril de 2019

Indigência Espiritual



Li certa feita que um dos erros da teologia da prosperidade é tentar adiantar o cumprimento de certas promessas de Deus. No caso, as riquezas materiais que esse movimento reclama para o tempo pressente só se cumprirão perfeitamente na glória. Ausência de dor, sofrimento e plenitude material são realidades futuras, num lugar onde a matéria prima usada na construção da Nova Jerusalém são pedras e metais preciosos (Apocalipse 21). Mas devo admitir que existe outro tipo de prosperidade para hoje, aquela expressa nas Palavras do Senhor Jesus quando diz “eu vim para que tenham vida, e a tenham em abundância” (João 10.10).
Essa prosperidade pode ser muito bem compreendida pela na Parábola do Filho Pródigo. Quando caiu em si, na miséria em que se encontrava, desejando compartilhar da ração dos porcos, o filho pródigo se lembra da fartura da casa de seu pai, que inclusive abastecia seus funcionários. Aquele rapaz, em terra estrangeira, servindo no pior trabalho que um judeu podia considerar, lembra-se do quão rico e benevolente é o seu pai, e por isso, arrependido, decide voltar. A descrição de seu estado ao ser encontrado no caminho próximo da casa de seu pai é de um maltrapilho indigente, sem o seu sinete, descalço e com fome. O pai lhe restaura tudo isso, e festeja sua volta.
É evidente que uma parábola não tem aplicação literal, pois não trata meramente de alguém que fez escolhas financeiras erradas, que quebrou, e que depois viu-se restituído a sua condição primeira. A parábola trata do pecador que acredita que pode viver às custas das bênçãos de Deus, sem, contudo, ter com Ele comunhão. Esse pecador descobre a duras penas que as dádivas naturais que atendem aos justos e injustos não são lhes são suficientes (Mateus 5.45). Ele precisa voltar para casa, ele precisa voltar para seu pai, onde encontra pão e perdão. Deus tem abundância (fartura) de vida para nós, e foi para isso que seu Filho veio. Justiça, identidade e alimento espiritual nos são dados em Cristo na comunhão com Deus.
Por isso, o rei Davi, mesmo que do alto de seu trono, declarou que quando deixou de confessar seus pecados, seus ossos envelheceram e suas forças iam se acabando (Salmo 32.3,4). A despeito das condições materiais favoráveis nas quais Davi se achava, por causa do pecado suprimido em sua alma, o monarca de Israel se encontrava em estrema miséria espiritual. Nenhum trono substitui a comunhão com o Pai, nada pode ser mais próspero que sermos reconciliados com o Rei da Glória.
Em suma, o evangelho da reconciliação com o Pai, é um tesouro em vaso de barro (2 Coríntios 4.7) e nele temos toda prosperidade, presente e futura. Cristo nos concedeu o seu Nome, pelo qual somos chamados filhos de Deus. Também nos concedeu justiça e propósito de vida. Negligenciar isso é tornar-nos tão pobres e famintos quanto o filho pródigo quando servia aos porcos. É adoecer e enfraquecer tanto quanto o adúltero e assassino rei Davi antes de ser perdoado. O fato é que o pecado nos separa de Deus, mas, também, é Deus que nos separa do pecado. É Jesus Cristo quem encerra a subsistente condição de indigência espiritual. É em Cristo que temos vida abundante da graça, e nos tornamos o povo mais próspero deste mundo. 

terça-feira, 7 de agosto de 2018

Qual é o teu Nome?

Perguntou-lhe, pois: Como te chamas? Ele respondeu: Jacó.
Gênesis 32.27

Jacó, que significa suplantador, trapaceiro, viveu sua vida até aquele dia à sombra do seu nome. De fato, esse nome dizia muito acertadamente quem ele era. Lutando contra o Anjo, sem entendermos bem por que razão exatamente, o patriarca pelejou a noite toda. É óbvio que o Anjo podia tê-lo vencido rapidamente, mas deixou a briga se arrastar até quando quis. Para por fim a disputa, simplesmente golpeou sua coxa tornando Jacó manco. E, como tal, em condições humilhantes, o patriarca "deteve" seu oponente para que lhe abençoasse. Esse é o tipo de história que parece estranha, com pontos cegos, mas que a luz das Escrituras pode ser esclarecida.
O Anjo proporcionou ao nosso anti-herói um déjà-vu. Ele fez uma pergunta muito semelhante a que anos atrás Jacó ouviu quando pelejava pela benção com seu pai, enganando-o, e ao mesmo tempo passando a perna em seu irmão Esaú: "Como te chamas? Quem és tu, meu filho?" Na primeira vez, diante dos olhos cegos de seu pai, sua resposta foi "Sou Esaú, teu primogênito". Mas agora, diante daquele que tudo vê, sua resposta sincera e simples foi "Jacó". Era praticamente uma confissão.
Conta a anedota que o menino mal-criado respondeu ao padre: Eu não me chamo, os outros é que me chamam. O nome Jacó, dado ao segundo filho de Isaque já previa quem ele seria, o que de fato confirmamos pela sua história. Mas o mesmo pode ser dito do nome dado pelo Anjo: Israel significa "Deus Prevalece". E pela própria explicação dada em seguida, fica claro que "como príncipe pelejou com Deus e com os homens e prevaleceu". Tratava-se agora de um êxito honroso, não mais de artimanhas ou traições. O velho Jacó tinha tido sucesso como Israel, como "Deus Prevalece".
Devemos considerar que o propósito de Deus prevalecia sobre o patriarca. Mesmo antes de nascer, quando já lutava no ventre de sua mãe com seu irmão, o SENHOR já havia anunciado que o menor prevaleceria sobre o maior (Gênesis 25.23). O segundo tornaria-se o primeiro (príncipe); o menor, o caseiro e mais frágil, tornaria-se aquele que lutaria com o próprio Deus. Jacó sempre foi Israel.
Porém, outro aspecto precisa ser considerado nessa história ainda um pouco nebulosa. Israel não seria apenas o nome do patriarca, mas da nação escolhida por Deus. E nesse sentido, a nação também faria jus ao primeiro nome de seu pai. Israel era Jacó, pois desde os seus doze filhos observamos sucessivas ocasiões de enganos e traições. Basta a leitura dos primeiros versículos da benção de Israel aos seus filhos para se ter ideia de episódios assim na vida dos seus três primeiros filhos (Gênesis 49.1-7). Também toda história de Israel desde o Êxodo até o Exílio faz com que percebamos que as características de Jacó se aplicavam a sua descendência. A traição no deserto veio através da idolatria, e se estendeu à terra prometida nos dias dos Juízes. Mentiras, adultério e violência também adentraram aos palácios dos reis de Israel, e se viu junto aos sacerdotes e do povo. As denúncias dos profetas ao longo da narrativa do Antigo Testamento sempre apontaram para o quanto esses filhos conservaram viva a fama do nome Jacó em sua trajetória.
Indo além deste período, mesmo no Novo Testamento, observamos que a Igreja, o Israel do Senhor, também por vezes se porta como seus pais na Antiga Aliança. Relatos em Atos, como no caso de Ananias e Safira, casos vergonhosos descritos nas epístolas aos Coríntios, nos dão a sensação de que o tempo não passou, e que como disse Belchior em sua célebre canção "ainda somos os mesmos/ e vivemos como nossos pais". Em muitos aspectos como a nação de Israel, a Igreja nesses últimos dias é sua extensão não somente como herdeira da promessa, mas ainda como representante desse nome paradoxo nascido do ventre de Rebeca. Somos um povo de segunda, fracos, desprezíveis (1 Coríntios 1.26-28), mas que também recebeu o nome de um Príncipe. Apesar de correspondermos a alcunha de Jacó, desde a eternidade já havia sido preparado para nós o nome de Israel.
Israel não era apenas o segundo nome que o Patriarca receberia, ou o nome da Nação que dele descendia. Israel era o nome do Príncipe que lutou com Deus e o os homens e prevaleceu. Era o nome do Filho escolhido de Deus "Quando Israel era menino, eu o amei; e do Egito chamei o meu filho" (Mateus 2.15; Oseias 11.1). Jesus, que significa "Ele salvará o seu povo dos seus pecados", é o Nome acima de todo nome. Na cruz Jesus pelejou por nós com Deus, e diferente de Jacó, que apenas teve a sua coxa tocada, o Cristo não foi poupado. Mas apesar do que podia parecer fraqueza ou derrota, sua morte foi, na verdade, sua vitória. Deus Prevalece é o seu Nome, e é nesse nome que somos contados como quem também prevalece.
Quando perguntam pelo meu nome, posso responder com aquele que recebi de meus pais. Junto com ele recebi uma herança maldita desde Adão. Por trás do meu nome escondem-se muitas coisas das quais me envergonho, e que me lembram o nome de Jacó. Lutei com minhas forças para mudar de nome, mas somente pelo Nome de Israel, o Filho a quem Deus ama, e que por mim se entregou na cruz, é que pude receber um novo nome: Cristão. Como Jacó, ainda manco como efeito da luta que travei ao longo de minha vida. Como Jacó, pelo restante dos meus dias serei ainda lembrado pelos pecados que cometi e cometo. Mas como Israel, prevaleci com um nome que não me foi dado quando nasci, que não era meu, mas que estava preparado para mim desde antes da fundação do mundo, e no qual foi abençoado.

terça-feira, 31 de julho de 2018

Jesus foi um refugiado?


Ontem, durante a entrevista do candidato a presidente Jair Bolsonaro no programa Roda Viva, um jornalista afirmou que Jesus foi um refugiado. Ele questionava incoerência do candidato por suas supostas críticas aos refugiados que entram em massa no país. Uma vez que Jair se diz cristão, e sendo Jesus um refugiado, como poderia o candidato menosprezar essas pessoas? Creio que o jornalista se referia ao fato de que Jesus com sua família, por ordem divina, foi ao Egito para escapar da perseguição do rei Herodes contra ele (Mateus 2.13). A despeito da intenção política promovida na entrevista, creio que existem algumas relações dignas de ponderação na identificação proposta pelo jornalista sobre Jesus e os refugiados.
É evidente, nesse sentido, que existe uma co-relação entre os refugiados hoje com fuga de Jesus ainda criança para o Egito. De fato, existem paralelos que devem nos fazer pensar na crise humanitária enfrentada hoje em diversos países, tanto do Oriente como do Ocidente, e as ameaças que levaram Jesus e seus pais a se retirarem para o Egito. Porém, mais do que um debate sobre política internacional, a busca por refúgio é um tema que deve ser considerado sobre todos, seja em sua forma mais evidente ou concreta no cenário mundial, ou em circunstâncias relativas e existenciais de cada um.
O que se deve levar em conta primeiro em tudo isso, é que os paralelos não são exatamente iguais. Quando observamos o cenário internacional nos dias de Jesus em comparação aos nossos dias, nos deparamos com contextos consideravelmente diferentes. A atual conjuntura consiste de nações politicamente organizadas sob governos autônomos. A despeito da paridade entre muitas nações, cada país tem seus limites, leis e reservas quanto a imigração. Nos dias de Jesus, no mundo civilizado, as nações subsistiam sob a autoridade de Roma, no contexto da Pax Romana, e o deslocamento entre os países dentro do Império era livre. A diáspora dos judeus era uma realidade já há muitos séculos, por inúmeros fatores. Portanto, sair da Palestina para outros lugares do Império não consistia necessariamente em um tipo de imigração ilegal, ou uma marcha desesperada como hoje se vê entre as nações. Contudo, apesar deste aspecto histórico, outras circunstâncias observáveis em nosso tema são convergentes em suas similitudes.
Por um lado, se a configuração política internacional de outrora não era a mesma de hoje, podemos observar que por outro prisma que a causa da fuga de Jesus para o Egito é, sob alguns aspectos, semelhante aos motivos que levam milhões de pessoas procurarem refúgio em outras nações nestes últimos tempos. Foi a violência do rei Herodes, o seu desejo de morte ao Messias, que fez com que Jesus precisasse mudar da Palestina para o Egito. A loucura do tirano déspota exterminou milhares de meninos abaixo de até dois anos de idade pelo simples fato de não ter descoberto o domicílio do recém-nascido Rei. Assim também hoje, muitas vidas são ceifadas em países dominados por governantes homicidas. Em países de religião islâmica, conflitos entre etnias que compartilham a mesma fé, e ao mesmo tempo compartilham o ódio uns pelos outros, deixam incontáveis famílias destroçadas. Mais próximos de nós, em nosso continente, países vizinhos regidos por governos regidos por políticas de Esquerda, promovem igualmente a violência e a fome, levando inúmeras famílias a evasão de sua própria pátria. O que está por trás de tudo isso é o pecado da violência, do ódio ao próximo, da força usada contra o mais fraco por amor ao poder. Nesse aspecto, a fuga de Jesus é realmente similar a busca dos refugiados por um lugar seguro em outros países. Todavia, apesar dessa semelhança, há ainda uma notável diferença.
Esses governos que hoje promovem o horror e a necessidade de fuga de seu próprio povo, não têm como alvo uma pessoa específica. É a sandice dos que acreditam que a morte das pessoas que se opõe ao seu poder seja o preço a ser pago para sua perpetuação. O disparate de Herodes também visava sua perpetuação no poder, mas não porque se sentia segura para fazer o que bem lhe parecesse. O rei edomita sabia que um menino nascido naqueles dias seria o Rei de Israel, e que o seu Governo não teria fim. Ele temeu sobremaneira aquela criança. Seu ódio, por causa do destrato dos reis magos, não encontrou nome nem endereço do recém-nascido rei, e por isso muitos pequeninos foram mortos. Por perceber que seu reino tinha seus dias contados, apegou-se ao engodo de que poderia perpetuar-se para sempre com a morte do pequeno Rei. Ledo engano.
A ira de hoje é aleatória, tem causas diversas, e por vezes aparentemente antagônicas. Ao mesmo tempo que regimes políticos erigidos sob a afirmação de que a religião é o ópio do povo, religiosos monoteístas valem-se igualmente de métodos que promovem a morte dentro de sua própria pátria. “Todos iguais, mas uns mais iguais que os outros”. Política e religião se entrelaçam na intenção de fazerem seus nomes célebres ao custo de sangue derramado. Isto é o que está no âmago do êxodo de milhões de pessoas, e que parece que o “mundo civilizado” simplesmente ignora. Discute-se muito a recepção ou não dos refugiados, mas pouco se fala sobre a razão de seu exílio. De maneira hipócrita, alguns defendem que se escancarem as portas das nações para estas em fuga, mas sequer são capazes de condenar os monstros que as expulsaram de seu próprio domicílio. É um cenário catastrófico, onde não se achará lugar seguro para sempre, sem se enfrentar todo o mal responsável por tudo isso. Como desfazer esse caos?
Jesus nos mostra o único caminho seguro para o refúgio dos povos. Sua fuga quando criança para o Egito não foi para evitar a morte, mas para encontrá-la muitos anos depois, em Jerusalém. O rei Herodes não poderia matar o Rei dos reis, pois “sua hora não era chegada”. Era necessário que o Cristo padecesse antes de entrar em sua glória. E esta era sua glória: que ninguém poderia tirar a sua vida, mas ele mesmo voluntariamente a daria. Quando Jesus morreu na cruz, ele matou a Morte. Ao fazer isso, seus agentes, humanos ou demoníacos, foram despojados. Ele, pois, está assentado em seu alto e sublime trono, acima de todo principado e potestade. A Ele foi dada toda autoridade no céu e na terra. Jesus é hoje o refúgio seguro para os refugiados, sejam daqueles que fogem sua pátria para outras, ou daqueles que buscam refúgio em qualquer coisa sem sequer sair do lugar. Pela fé em sua pessoa e obra, todos os povos da terra encontram morada eterna em seu Reino. E ainda, pela fé em sua Palavra que diz que Ele voltará, também um dia serão vingados aqueles que sofreram atrocidades em sua peregrinação por essa terra.

"...porque está escrito: A mim me pertence a vingança; eu é que retribuirei, diz o Senhor". Romanos 12.19