quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

O Verbo Encarnado não é o Verbo Encenado


O Verbo Eterno que se encarnou tem alguns concorrentes em sua celebração natalícia. Os homens dividem a atenção entre o Filho de Deus e o "Bom Velhinho". Entre Belém e o Polo Norte. Os pastores e anjos são substituídos por renas e duendes. Os presentes entregues ao menino (ainda que esse evento tenha se dado um bom tempo após seu nascimento) dão lugar aos presentes de amigo oculto. É natural que os homens que amam as trevas ao invés da Luz se deslumbrem com outro enredo distante das Escrituras. Isso vem de longa data, e não se restringe ao Natal, mas é visível na Páscoa, na concorrência entre o "Coelho" e o Cordeiro de Deus.
Mas, seria possível que igrejas históricas também substituíssem a mensagem das Escrituras por encenações e cantatas, ainda que contando a história de Jesus? Infelizmente sim. Sem precisar invocar Papai Noel, ou qualquer outro artifício do comércio natalino, sempre que uma igreja substitui a exposição das Escrituras por encenações artísticas, nega-se o âmago do Natal:
E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do Unigênito do Pai. (João 1.14)
Não sou contra o teatro em si. Acho válido enquanto recurso didático. Particularmente sou fã dos autos católicos enquanto matéria prima artística, pois são capazes de cativar a audiência e transmitir com simplicidade sua mensagem. Obviamente sou contrário à mensagem desses autos, uma vez que não correspondem a fé bíblica. Com isso, porém, quero pontuar que reconheço uma certa utilidade no teatro, pelo menos para o ensino. O que não reconheço a luz das Escrituras, é o seu lugar no culto público.
O Senhor Jesus nunca fez uso de dramatização em sua proclamação do evangelho. Mesmo após a ressurreição, quando andou com os discípulos no caminho de Emaús, valeu-se das Escrituras para expor-lhes o que havia acontecido (Lucas 24.25-27). Os apóstolos após sua assunção ao céu também não usaram outro dispositivo além das pregações. Na história da Igreja não se viu isso nem na apóstata Roma. A Reforma fez por onde limpar o culto, saindo de uma missa ininteligível, para o serviço a Deus por meio da centralidade da Palavra. E agora o teatro toma lugar do púlpito, o drama rouba a cena da Exposição bíblica. Por que?
Não ouso julgar os corações de todos os que se prestam a esse papel (literalmente), pois sei que, a exemplo dos fariseus, eles podem ter zelo, mas sem entendimento (Romanos 10.2). O que me arrisco a fazer são três observações do que motiva alguns crentes no presente século, filosófica e literalmente falando.

  1. A Exposição das Escrituras não é suficiente. Já faz tempo que se ouve dizer que alguns recursos tem maior alcance que a Palavra exposta pela pregação. Dizia-se no fim do século passado que a música podia chegar a lugares onde a pregação não chegaria. Evidentemente a música tornou-se insuficiente, pois hoje acrescenta-se outras manifestações artísticas, tais como danças e encenações. Em suma, não se confia plenamente no método bíblico de proclamação do evangelho, aquele usando pelos profetas, Jesus e seus discípulos. Na melhor das hipóteses a exposição das Escrituras precisa ser acrescida de recursos que se comuniquem mais com os olhos do que com os ouvidos, isso, quando a pregação não é totalmente substituída.
  2. Há confusão entre dons e talentos. Muitas pessoas querem de alguma forma servir ao Reino, mas não buscam descobrir os dons bíblicos para tanto. No afã de serem relevantes, imaginam que teatro, dança e música são dons que servem a proclamação da Palavra, e que assim podem dividir espaço com o púlpito no culto público. Talentos não são transformados em dons espirituais pelo simples uso no contexto da igreja. Podemos dar o exemplo de uma pessoa que cozinha bem, e que pode servir aos irmãos em um acampamento ou jantar, mas que nem por isso faz com que a boa culinária seja um dom espiritual. Para um bom entendimento sobre esse tema, sugiro a leitura do artigo do pastor David Merkh, nesse link aqui.
  3. A reverência no culto tem sido abandonada. Nos movimentos neopentecostais criou-se a "adoração extravagante" onde se expressa a insatisfação com o culto restrito a Palavra, sacramentos, cânticos e orações. É triste que algumas igrejas históricas se deixem contaminar por esse impulso de "adorar a Deus" como lhes parece melhor. O Princípio Regulador do culto tem sido esquecido, e para muitos é um ensino completamente estranho à vida da igreja. No entendimento destes, não é Deus pela sua Palavra que institui a maneira como deve ser adorado, mas o "adorador", que acha que qualquer coisa "sincera" que lhe brote ao coração serve como culto. Mesmo sem usar imagens de escultura, quebram o segundo mandamento (Êxodo 20.4). 
Uma vez que se extrapola a mensagem bíblica para além da exposição da Palavra, e cada um promove seu próprio talento a dom, para servir segundo seu bel prazer, o culto torna-se um espetáculo (as vezes, literalmente falando). Ainda que a história de Jesus esteja sendo contada, textos encenados e músicas entoadas em um teatro ou cantata não podem substituir a Pregação da Palavra. Que toda criação é o teatro da glória de Deus, isso é fato. Mas, a dramatização do evangelho instituída no culto se dá pela proeminência da Palavra Encarnada, exposta nas Escrituras, e Proclamada do Púlpito, pelo pregador que nada mais é que o instrumento designado por Deus para tanto.
Toda honra, glória, louvor e poder neste drama, pertencem ao Senhor e Salvador de nossas almas. Não cabe aos servos se apossarem de um ato sequer deste drama, mas apenas servi-lo em gratidão e obediência. No culto, em oração, somos instados ao arrependimento e a confissão dos nossos pecados. Somos também convidados para louvar a Deus por toda sua Providência em Cristo Jesus. Os sacramentos são sinais externos da graça de Deus depositada na vida dos crentes, instituídos por Jesus, que, em outras palavras, são meios de graça que edificam a Igreja. Todos estes atos são permeados pela Palavra, porém, é justamente pela sua Exposição nas Escrituras que Deus nos fala com graça e verdade a respeito de seu Filho, desde sua encarnação, vida, morte e ressurreição. E nele que podemos ver atentamente a glória do Unigênito do Pai. A centralidade da Palavra no culto é a manifestação da glória do Filho de Deus, e sua habitação em definitivo conosco. As Escrituras é que testificam a seu respeito (João 5.39), e a pregação é o instrumento escolhido por Deus para sua exposição (2 Timóteo 4.2). Não temos autorização nem razão para substituirmos ou acrescentarmos ao púlpito nenhum outro recurso. Aqueles que o fazem, em maior ou menor escala, estão se rendendo ao antropocentrismo vigentes em muitas igrejas que já esqueceram a autoridade bíblica em sua vida e no culto público. Sejamos encontrados fiéis despenseiros tanto no conteúdo como na forma de anunciarmos a Jesus em tudo, desde o seu nascimento, vida, morte e ressurreição.

Um comentário:

Eder Martines disse...

Muito bom estas palavras que posamos ser fiéis as escrituras