terça-feira, 7 de agosto de 2018

Qual é o teu Nome?

Perguntou-lhe, pois: Como te chamas? Ele respondeu: Jacó.
Gênesis 32.27

Jacó, que significa suplantador, trapaceiro, viveu sua vida até aquele dia à sombra do seu nome. De fato, esse nome dizia muito acertadamente quem ele era. Lutando contra o Anjo, sem entendermos bem por que razão exatamente, o patriarca pelejou a noite toda. É óbvio que o Anjo podia tê-lo vencido rapidamente, mas deixou a briga se arrastar até quando quis. Para por fim a disputa, simplesmente golpeou sua coxa tornando Jacó manco. E, como tal, em condições humilhantes, o patriarca "deteve" seu oponente para que lhe abençoasse. Esse é o tipo de história que parece estranha, com pontos cegos, mas que a luz das Escrituras pode ser esclarecida.
O Anjo proporcionou ao nosso anti-herói um déjà-vu. Ele fez uma pergunta muito semelhante a que anos atrás Jacó ouviu quando pelejava pela benção com seu pai, enganando-o, e ao mesmo tempo passando a perna em seu irmão Esaú: "Como te chamas? Quem és tu, meu filho?" Na primeira vez, diante dos olhos cegos de seu pai, sua resposta foi "Sou Esaú, teu primogênito". Mas agora, diante daquele que tudo vê, sua resposta sincera e simples foi "Jacó". Era praticamente uma confissão.
Conta a anedota que o menino mal-criado respondeu ao padre: Eu não me chamo, os outros é que me chamam. O nome Jacó, dado ao segundo filho de Isaque já previa quem ele seria, o que de fato confirmamos pela sua história. Mas o mesmo pode ser dito do nome dado pelo Anjo: Israel significa "Deus Prevalece". E pela própria explicação dada em seguida, fica claro que "como príncipe pelejou com Deus e com os homens e prevaleceu". Tratava-se agora de um êxito honroso, não mais de artimanhas ou traições. O velho Jacó tinha tido sucesso como Israel, como "Deus Prevalece".
Devemos considerar que o propósito de Deus prevalecia sobre o patriarca. Mesmo antes de nascer, quando já lutava no ventre de sua mãe com seu irmão, o SENHOR já havia anunciado que o menor prevaleceria sobre o maior (Gênesis 25.23). O segundo tornaria-se o primeiro (príncipe); o menor, o caseiro e mais frágil, tornaria-se aquele que lutaria com o próprio Deus. Jacó sempre foi Israel.
Porém, outro aspecto precisa ser considerado nessa história ainda um pouco nebulosa. Israel não seria apenas o nome do patriarca, mas da nação escolhida por Deus. E nesse sentido, a nação também faria jus ao primeiro nome de seu pai. Israel era Jacó, pois desde os seus doze filhos observamos sucessivas ocasiões de enganos e traições. Basta a leitura dos primeiros versículos da benção de Israel aos seus filhos para se ter ideia de episódios assim na vida dos seus três primeiros filhos (Gênesis 49.1-7). Também toda história de Israel desde o Êxodo até o Exílio faz com que percebamos que as características de Jacó se aplicavam a sua descendência. A traição no deserto veio através da idolatria, e se estendeu à terra prometida nos dias dos Juízes. Mentiras, adultério e violência também adentraram aos palácios dos reis de Israel, e se viu junto aos sacerdotes e do povo. As denúncias dos profetas ao longo da narrativa do Antigo Testamento sempre apontaram para o quanto esses filhos conservaram viva a fama do nome Jacó em sua trajetória.
Indo além deste período, mesmo no Novo Testamento, observamos que a Igreja, o Israel do Senhor, também por vezes se porta como seus pais na Antiga Aliança. Relatos em Atos, como no caso de Ananias e Safira, casos vergonhosos descritos nas epístolas aos Coríntios, nos dão a sensação de que o tempo não passou, e que como disse Belchior em sua célebre canção "ainda somos os mesmos/ e vivemos como nossos pais". Em muitos aspectos como a nação de Israel, a Igreja nesses últimos dias é sua extensão não somente como herdeira da promessa, mas ainda como representante desse nome paradoxo nascido do ventre de Rebeca. Somos um povo de segunda, fracos, desprezíveis (1 Coríntios 1.26-28), mas que também recebeu o nome de um Príncipe. Apesar de correspondermos a alcunha de Jacó, desde a eternidade já havia sido preparado para nós o nome de Israel.
Israel não era apenas o segundo nome que o Patriarca receberia, ou o nome da Nação que dele descendia. Israel era o nome do Príncipe que lutou com Deus e o os homens e prevaleceu. Era o nome do Filho escolhido de Deus "Quando Israel era menino, eu o amei; e do Egito chamei o meu filho" (Mateus 2.15; Oseias 11.1). Jesus, que significa "Ele salvará o seu povo dos seus pecados", é o Nome acima de todo nome. Na cruz Jesus pelejou por nós com Deus, e diferente de Jacó, que apenas teve a sua coxa tocada, o Cristo não foi poupado. Mas apesar do que podia parecer fraqueza ou derrota, sua morte foi, na verdade, sua vitória. Deus Prevalece é o seu Nome, e é nesse nome que somos contados como quem também prevalece.
Quando perguntam pelo meu nome, posso responder com aquele que recebi de meus pais. Junto com ele recebi uma herança maldita desde Adão. Por trás do meu nome escondem-se muitas coisas das quais me envergonho, e que me lembram o nome de Jacó. Lutei com minhas forças para mudar de nome, mas somente pelo Nome de Israel, o Filho a quem Deus ama, e que por mim se entregou na cruz, é que pude receber um novo nome: Cristão. Como Jacó, ainda manco como efeito da luta que travei ao longo de minha vida. Como Jacó, pelo restante dos meus dias serei ainda lembrado pelos pecados que cometi e cometo. Mas como Israel, prevaleci com um nome que não me foi dado quando nasci, que não era meu, mas que estava preparado para mim desde antes da fundação do mundo, e no qual foi abençoado.

terça-feira, 31 de julho de 2018

Jesus foi um refugiado?


Ontem, durante a entrevista do candidato a presidente Jair Bolsonaro no programa Roda Viva, um jornalista afirmou que Jesus foi um refugiado. Ele questionava incoerência do candidato por suas supostas críticas aos refugiados que entram em massa no país. Uma vez que Jair se diz cristão, e sendo Jesus um refugiado, como poderia o candidato menosprezar essas pessoas? Creio que o jornalista se referia ao fato de que Jesus com sua família, por ordem divina, foi ao Egito para escapar da perseguição do rei Herodes contra ele (Mateus 2.13). A despeito da intenção política promovida na entrevista, creio que existem algumas relações dignas de ponderação na identificação proposta pelo jornalista sobre Jesus e os refugiados.
É evidente, nesse sentido, que existe uma co-relação entre os refugiados hoje com fuga de Jesus ainda criança para o Egito. De fato, existem paralelos que devem nos fazer pensar na crise humanitária enfrentada hoje em diversos países, tanto do Oriente como do Ocidente, e as ameaças que levaram Jesus e seus pais a se retirarem para o Egito. Porém, mais do que um debate sobre política internacional, a busca por refúgio é um tema que deve ser considerado sobre todos, seja em sua forma mais evidente ou concreta no cenário mundial, ou em circunstâncias relativas e existenciais de cada um.
O que se deve levar em conta primeiro em tudo isso, é que os paralelos não são exatamente iguais. Quando observamos o cenário internacional nos dias de Jesus em comparação aos nossos dias, nos deparamos com contextos consideravelmente diferentes. A atual conjuntura consiste de nações politicamente organizadas sob governos autônomos. A despeito da paridade entre muitas nações, cada país tem seus limites, leis e reservas quanto a imigração. Nos dias de Jesus, no mundo civilizado, as nações subsistiam sob a autoridade de Roma, no contexto da Pax Romana, e o deslocamento entre os países dentro do Império era livre. A diáspora dos judeus era uma realidade já há muitos séculos, por inúmeros fatores. Portanto, sair da Palestina para outros lugares do Império não consistia necessariamente em um tipo de imigração ilegal, ou uma marcha desesperada como hoje se vê entre as nações. Contudo, apesar deste aspecto histórico, outras circunstâncias observáveis em nosso tema são convergentes em suas similitudes.
Por um lado, se a configuração política internacional de outrora não era a mesma de hoje, podemos observar que por outro prisma que a causa da fuga de Jesus para o Egito é, sob alguns aspectos, semelhante aos motivos que levam milhões de pessoas procurarem refúgio em outras nações nestes últimos tempos. Foi a violência do rei Herodes, o seu desejo de morte ao Messias, que fez com que Jesus precisasse mudar da Palestina para o Egito. A loucura do tirano déspota exterminou milhares de meninos abaixo de até dois anos de idade pelo simples fato de não ter descoberto o domicílio do recém-nascido Rei. Assim também hoje, muitas vidas são ceifadas em países dominados por governantes homicidas. Em países de religião islâmica, conflitos entre etnias que compartilham a mesma fé, e ao mesmo tempo compartilham o ódio uns pelos outros, deixam incontáveis famílias destroçadas. Mais próximos de nós, em nosso continente, países vizinhos regidos por governos regidos por políticas de Esquerda, promovem igualmente a violência e a fome, levando inúmeras famílias a evasão de sua própria pátria. O que está por trás de tudo isso é o pecado da violência, do ódio ao próximo, da força usada contra o mais fraco por amor ao poder. Nesse aspecto, a fuga de Jesus é realmente similar a busca dos refugiados por um lugar seguro em outros países. Todavia, apesar dessa semelhança, há ainda uma notável diferença.
Esses governos que hoje promovem o horror e a necessidade de fuga de seu próprio povo, não têm como alvo uma pessoa específica. É a sandice dos que acreditam que a morte das pessoas que se opõe ao seu poder seja o preço a ser pago para sua perpetuação. O disparate de Herodes também visava sua perpetuação no poder, mas não porque se sentia segura para fazer o que bem lhe parecesse. O rei edomita sabia que um menino nascido naqueles dias seria o Rei de Israel, e que o seu Governo não teria fim. Ele temeu sobremaneira aquela criança. Seu ódio, por causa do destrato dos reis magos, não encontrou nome nem endereço do recém-nascido rei, e por isso muitos pequeninos foram mortos. Por perceber que seu reino tinha seus dias contados, apegou-se ao engodo de que poderia perpetuar-se para sempre com a morte do pequeno Rei. Ledo engano.
A ira de hoje é aleatória, tem causas diversas, e por vezes aparentemente antagônicas. Ao mesmo tempo que regimes políticos erigidos sob a afirmação de que a religião é o ópio do povo, religiosos monoteístas valem-se igualmente de métodos que promovem a morte dentro de sua própria pátria. “Todos iguais, mas uns mais iguais que os outros”. Política e religião se entrelaçam na intenção de fazerem seus nomes célebres ao custo de sangue derramado. Isto é o que está no âmago do êxodo de milhões de pessoas, e que parece que o “mundo civilizado” simplesmente ignora. Discute-se muito a recepção ou não dos refugiados, mas pouco se fala sobre a razão de seu exílio. De maneira hipócrita, alguns defendem que se escancarem as portas das nações para estas em fuga, mas sequer são capazes de condenar os monstros que as expulsaram de seu próprio domicílio. É um cenário catastrófico, onde não se achará lugar seguro para sempre, sem se enfrentar todo o mal responsável por tudo isso. Como desfazer esse caos?
Jesus nos mostra o único caminho seguro para o refúgio dos povos. Sua fuga quando criança para o Egito não foi para evitar a morte, mas para encontrá-la muitos anos depois, em Jerusalém. O rei Herodes não poderia matar o Rei dos reis, pois “sua hora não era chegada”. Era necessário que o Cristo padecesse antes de entrar em sua glória. E esta era sua glória: que ninguém poderia tirar a sua vida, mas ele mesmo voluntariamente a daria. Quando Jesus morreu na cruz, ele matou a Morte. Ao fazer isso, seus agentes, humanos ou demoníacos, foram despojados. Ele, pois, está assentado em seu alto e sublime trono, acima de todo principado e potestade. A Ele foi dada toda autoridade no céu e na terra. Jesus é hoje o refúgio seguro para os refugiados, sejam daqueles que fogem sua pátria para outras, ou daqueles que buscam refúgio em qualquer coisa sem sequer sair do lugar. Pela fé em sua pessoa e obra, todos os povos da terra encontram morada eterna em seu Reino. E ainda, pela fé em sua Palavra que diz que Ele voltará, também um dia serão vingados aqueles que sofreram atrocidades em sua peregrinação por essa terra.

"...porque está escrito: A mim me pertence a vingança; eu é que retribuirei, diz o Senhor". Romanos 12.19   

domingo, 24 de dezembro de 2017

Um Filho se nos deu

Isaías 9.6

Jesus, o Filho de Deus, também é o filho que o Pai nos deu. Segundo Mateus 1.1-17, Ele é o Filho de Abraão e de Davi. É o Filho da promessa de que na fé de Abraão seriam benditas todas as famílias da terra (Gênesis 12.3). O cumprimento também da aliança feita com Davi de quem o seu descendente se assentaria em seu trono, e que seu reino seria estabelecido para sempre (2 Samuel 7.12).
Mas Mateus também fala de quatro mulheres das quais Jesus descende. Tamar, que gerou de Judá seu sogro em uma trama onde a graça triunfou sobre a perdição (Gênesis 38). Raabe, a prostituta cananéia que gerou de Salmom em uma história de fé e conversão (Josué 2). Rute, a amalequita que gerou de Boaz na esperança de seu resgate (Rute 4). E Bate-Seba, a que era mulher de Urias que gerou do rei Davi (2 Samuel 12).
A família de Jesus, a sua linhagem, não era perfeita. Mas Ele, sendo perfeito, veio justamente para salvar os pecadores, pois esse é o significado do seu nome (Mateus 1.21).
Assim, Jesus, o filho do homem, também é nascido de mulher (Gálatas 4.4). Ele nasceu conforme anunciado em Gênesis 3.15. Nasceu de Maria, serva do Senhor, que reconheceu nele o seu Salvador. Nasceu para salvar homens e mulheres, judeus e estrangeiros, enfim, todos pecadores que creem que Ele é o Filho que Deus nos deu.

“Glória a Deus nas maiores alturas, e paz na terra entre os homens, a quem Ele quer bem”.

Lucas 2.14

terça-feira, 21 de novembro de 2017

Calvinistas de Grife


É fato que uma roupa pode dar uma impressão muito errada a respeito de uma pessoa. Lembro-me de um roubo à uma joalheria em que os bandidos entraram trajando ternos caros. Os funcionários não desconfiaram da intenção daqueles homens até que anunciaram o assalto. Essa camuflagem de panos já era utilizada nos dias de Jesus pelos fariseus, pois que, ao alongarem as franjas de suas túnicas, transpareciam mais santidade que os demais mortais. Mesmo muito antes disso, nossos pais no paraíso acreditaram que remendos de folhas poderiam esconder o seu verdadeiro caráter.
Nesses casos em que nos referimos literalmente às roupas, é mais fácil descobrir que a indumentária de uma pessoa muitas vezes não corresponde ao seu verdadeiro eu. Alguém que se veste bem não é necessariamente uma pessoa de bem, e vice-versa. Mas alguns, de maneira mais sutil, vestem-se de um discurso que pode muito bem lhes conferir uma aparência conveniente ao ambiente onde se encontram, mas isso, todavia, não confere com o que realmente são.
No tempo do seminário eu percebia alguns colegas com um discurso calvinista engajado. Eram entusiastas no ambiente acadêmico, na frente dos professores. Mas, no convívio do dia-a-dia, esses mesmos colegas revelavam-se na prática avessos à teologia Reformada. Muitos encobriam suas tendências pentecostais, outros mostravam-se incrédulos quanto a Providência divina. Para estes, o Calvinismo é apenas uma grife que possibilita sua inclusão entre os reformados, como se fosse uma marca muito apreciada, e necessária para sua aceitação. Contudo, essa mesma marca não lhes caia bem.
Previ que a maioria destes, ao saírem do seminário para seus respectivos ministérios, se despiriam daquela grife ao verem-se livres em suas igrejas. Como alguém que chega em casa e quer por tudo ficar bem à vontade, longe dos olhos dos professores e colegas, eles poderiam trajar a teologia que bem lhes parecesse. Mas, ainda assim, em ocasiões especias, a grife John Calvin seria tirada do guarda roupas teológico, e mais uma vez lhes conferiria uma aparência muito diferente do que são ou creem.
No último ano do seminário, conversando com um pastor que chegava ao nosso presbitério falamos sobre predestinação, eleição, Calvino e outros assuntos que empolgariam qualquer reformado. Apesar daquele impressionante primeiro contato, ao longo do tempo que esteve em nosso presbitério, o que se revelou a seu respeito é que ele podeira ser tudo na vida, menos calvinista. No discurso livre, é fácil sustentar conceitos circunstancialmente convenientes, mas na lida do ministério; no púlpito ou nos aconselhamentos, frente à decisões conciliares, é que as pessoas revelam quem são e no que creem de verdade.
Os Calvinistas de Grife revelam sua incompatibilidade com a teologia Reformada não meramente porque negam a soberania e a graça de Deus na salvação. Os que assim o fazem, são simplesmente arminianos. Os que negam a segurança eterna da salvação dos eleitos, o quinto ponto da Tulip, chamo-os de Calvinistas de quatro patas, e também não me refirmo a estes aqui. Mas muitos que conservam parte da soteriologia calvinista, contudo não aplicam-na à eclesiologia. Esses, ao meu ver, revelam-se embusteiros fardados de Reformados.
Mesmo adotando um discurso onde se afirme a soberania de Deus na salvação do homem, o que se vê em alguns casos é uma incongruência entre mensagem e formato. Se cremos que Deus soberanamente salva os seus eleitos, devemos crer também que Ele o faz pelos meios estabelecidos em sua Palavra, a saber que "a fé vem pelo ouvir, e o ouvir pela Palavra de Deus" (Romanos 10.17). Ao colocar em segundo plano a exposição bíblica, recorrendo à logística humana das mais variadas, evidencia-se que Deus não é tão soberano assim, e que precisa da criatividade dos homens para alcançar seus propósitos sobre a sua Igreja. Como se diz "o formato da mensagem já é uma mensagem em si".
Aqueles que pretenderam "ajudar" Deus como se tivesse necessidade de alguma coisa, não tiveram um final feliz. Penso eu que Nadabe e Abiú tinham boas intenções ao trazerem em seus incensários fogo estranho para o altar. Alguns versículos antes eles viram o fogo de Deus promovendo a Sua glória, trazendo júbilo e temor ao mesmo tempo sobre o povo. Na imaginação deles, com suas próprias mãos, podiam produzir o mesmo efeito, supostamente para glória de Deus. Mas Deus não divide a sua glória, e por isso foram fulminados.
Calvinistas de grife também não confiam na soberania de Deus quanto ao governo da Igreja. O sistema presbiteriano não corresponde meramente à uma forma de governo mais prática e segura quanto às decisões tomadas em conselho. Antes de tudo, significa a confiança na providência divina sobre todo e qualquer processo, mesmo quando as decisões tomadas não correspondem às nossas expectativas. Quando burlam o sistema através de manobras incompatíveis com a nossa Constituição (ainda que esta não seja inspirada, e que por meio do devido processo possa sofrer alterações), desconsideram o senhorio de Cristo sobre a sua Igreja. Usar de recursos irregulares nos processos eclesiásticos é o mesmo que desacreditar a doutrina da Providência. É pretender usurpar de Deus o domínio dele sobre todas as coisas. 
Um exemplo de algo aparentemente menos pretensioso aconteceu com Uzá quando a Arca da Aliança era trazida de volta (1 Crônicas 13.9,10). Apesar de se tratar de um carro novo, o transporte da Arca não foi feito conforme o prescrito na Palavra de Deus (Êxodo 25.12-15), e Uzá ao tocá-la mostrou-se irreverente para com a Santidade de Deus (Números 4.15). Seu reflexo, ainda que de forma não intencional, revelou sua falta de temor para com Deus, o que já esta latente na desobediência às instruções sobre o transporte da Arca.
Muitos tentam dar uma mãozinha para Deus como fez Uzá. Outros trazem fogo estranho para a Igreja como os filhos de Arão. Não me atenho ao chamado foro íntimo, pois deste cada um prestará contas a Deus. Como disse a respeito das personagens bíblicas supracitadas, creio que talvez não tivessem más intenções no que fizeram. Mas ainda assim, não foram poupadas em suas transgressões. Desta sorte, não julgo a intenção de quem quer que seja, mas a incoerência de um discurso Calvinista seguido por práticas que não levam a sério a soberania de Deus. Se Ele atenta às mínimas coisas, aos fios de cabelo de uma pessoa, aos pardais que quase nenhum valor tinham (Lucas 12.6,7), como pode alguém pretender saber mais que Ele. A coerência para com Deus é confiarmos em sua Palavra, e em sua providência, nunca lançando mão de recursos escusos. Assim como Ele disse, assim Ele fará.
Os homens podem ser enganados pela aparência, por pouco ou muito tempo. Podem ser induzidos por discursos carregados de assertivas verdadeiras, mas desacompanhadas de posturas e condutas coerentes com a verdade. Uma vez que SENHOR atenta ao coração (1 Samuel 16.7), aqueles que acreditam que podem enganar os demais com um verniz de teologia Reformada deveriam temer e tremer em sua presença. Ainda que não vejamos hoje o juízo de Deus manifestar-se como com Uzá, Nadabe e Abiú, certamente Deus não deixará passar impune aqueles que maculam sua Noiva e obscurecem sua glória. Os fariseus, com seus largos filactérios e longas franjas, usavam a Lei para sua própria Glória, e não foram condenados por Jesus por aquilo que diziam, e sim pela incongruência de vida (Mateus 23.3). As folhas cerzidas por nossos pais não puderam encobrir o pecado aos olhos de Deus. Fora necessário que o Senhor provesse para eles vestes de peles de animais. Assim, ou confiamos cabalmente em Deus, em sua Palavra e Providência, ou nos enganamos a nós mesmos, e certamente não seremos tidos por inocentes. 
         

terça-feira, 31 de outubro de 2017

Castelo Forte é nosso Deus... e... A Força do homem nada faz

Uma das colocações mais notáveis do Dr. Martinho Lutero, a qual sempre recorro nesta ocasião do Dia da Reforma Protestante é a seguinte:

Simplesmente ensinei, preguei, escrevi a Palavra de Deus; não fiz nada. E então, enquanto eu dormia, ou bebia cerveja de Wittenberg com meu Felipe e meu Amsdorf, a Palavra enfraqueceu tão intensamente o papado que nenhum príncipe ou imperador jamais fez estrago assim. Não fiz nada. A Palavra fez tudo. (grifo meu)

Hoje, quando 500 anos se passaram desde que as 95 teses foram fixadas às portas da Igreja do Castelo de Wittenberg, faz-se necessário considerar a essência da Reforma Protestante. Muitas coisas excelentes afluíram com e a partir da Reforma. O mundo foi agraciado com uma nova perspectiva política, social e econômica que tornou melhor a vida das pessoas. Mas a Reforma, antes de qualquer reformulação externa da sociedade, é o entendimento de que "A força do homem nada faz/ sozinho está perdido/ Mas nosso Deus socorro traz/ em seu Filho escolhido".
Toda luta interna de Lutero para aplacar a ira do Deus Justo, mostrou-se ineficaz. Ainda que não pagando com moedas pelo perdão divino, o antigo monge agostiniano aplicava a sua própria carne as penitências que ao seu ver podiam redimir sua dívida. Mas quando Romanos 1.17 se destravou em sua mente, quando Verdade conhecida o libertou, viu-se salvo pela graça, justificado pela fé.
Devemos olhar sempre para o âmago da Reforma, para que não retrocedermos em seu propósito. Se não compreendermos que o evangelho é o poder de Deus para salvação de todo o que crê, a revelação da justiça de Deus para ser concebida e vivida pela fé, nos conformaremos à tudo quanto a Reforma se opôs.
Ressaltando mais uma vez o que propôs Lutero em termos práticos, chegamos às seguintes palavras: "Se você perguntar a um cristão qual é a sua tarefa e por que ele é digno do nome cristão, não pode haver nenhuma outra resposta senão que ele ouve a Palavra de Deus, isto é, a fé. Os ouvidos são os únicos órgãos do cristão". Eis a razão de se dizer: "A Palavra fez tudo".


As citações feitas aqui encontram-se na obra Teologia do Reformadores, de Timothy George, no capítulo 3 "Ansiando pela Graça: Martinho Lutero, bem como no hino Castelo Forte.


sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Pedofilia - do discurso à prática


A mídia recentemente tem direcionado sua atenção para vários casos relacionados ao tema pedofilia, bem como denúncias de abuso sexual de crianças e mulheres em vias e transportes públicos. A repercussão dos museus de arte, tanto na amostra Santander no Rio Grande do Sul, bem como no MAM em São Paulo, parece até mesmo orquestrada com um propósito maior. Não sou adepto de teorias da conspiração, mas também não acredito na coincidências desses acontecimentos. Como as coisas tendem sempre a piorar, como que em uma corrente do mal, em Paris o museu d'Orsay traz uma amostra onde o apelo publicitário é para que as crianças sejam ali levadas para ver gente nua.
Paralelamente aos debates iniciados sobre essas pretensas questões artísticas, no mundo real notícias sobre casos de abusos sexuais e ataques à mulheres e crianças em transportes e vias públicas repercutem todos os dias. Um menino deixado pelos pais em um presídio na cela de um estuprador "amigo" da família. e uma menina assediada em um ônibus na presença de outros passageiros são manchetes que ainda chocam as pessoas hoje em dia. Ainda que em circunstâncias distintas entre o "debate" e "realidade" literalmente nua e "crua", estamos falando de questões entrelaçadas, ou seja, a exposição e viabilização do sexo às crianças. Isso é novo? Isso é despretensioso?
É fato que que a sexualização de crianças não começou recentemente. Eu fui criança e adolescente nos anos 1980 e 1990 e sei que naqueles dias tudo isso foi tolerado e visto de uma forma mais "inocente" pela sociedade. Havia pouca polarização quanto à essas questões, pois mesmo já existindo a militância favorável às liberdades sexuais, sua agenda não era abertamente apresentada. Minha geração cresceu assistindo a Xuxa com suas roupas minúsculas de manhã, e filmes eróticos de madrugada. Antes da internet, pornografia era um material comprometedor, difícil de se adquirir. Era necessário se expor pessoalmente indo a uma banca de revistas ou locadora de filmes. Mas, com o advento da internet tudo isso mudou radicalmente.
Desde o final do século passado, o acesso à pornografia já não dependia mais de algum estabelecimento comercial fora de casa. O consumo dessa droga virtual passou a acontecer com toda liberdade e privacidade possível no recesso de um quarto fechado. Essas condições favoráveis ao pecado tornaram-se nas duas últimas décadas uma silenciosa e imensurável pandemia entre crianças e adolescentes que hoje, já adultos, sofrem em maior ou menor grau com as sequelas dessa maldição em suas vidas. Uma sociedade ativa e passiva quanto aos abusos sexuais propostos e praticados é o produto dessa panela de pressão sexual em que fomos cozidos nesses últimos anos.
Assim, não é despretensiosa toda essa suposta "arte", psicologia, ciência e políticas públicas favoráveis a sexualização das crianças. Há muito a mente dessa geração foi sendo fertilizada com pornografia, apresentada inicialmente como "entretenimento" apenas. Mas agora, o que antes era um passatempo promíscuo, vadiagem, revelou-se a plataforma para a perversão sexual de toda sociedade em teses científicas e teorias comportamentais. E além da mera teoria, na prática, aqueles que protagonizam casos de abuso sexual, seja em público ou não, são evidentemente consumidores vorazes de pornografia.
Nesse cenário maior, a pornografia é um rio de escórias do qual a sociedade atual vem bebendo a largos sorvos. Alguns direto da fonte, outros pelo encanamento. A exposição a ela não se dá apenas em sites ou materiais explicitamente voltados para o seu fim, mas na própria mídia em geral, especialmente no marketing. Os males que decorrem desse consumo voluntário ou involuntário é a frouxidão moral que se vê em parte dessa sociedade. A pretensão orquestrada de se contaminar a próxima geração de forma mais substancial e patente é de fazer sucumbir completamente qualquer conceito do que verdadeiro, justo e santo. Os assédios e abusos sexuais que hoje ainda são repudiados pela maioria, tendem a serem aceitáveis no futuro.
A essa altura do campeonato não teremos êxito nessa luta medindo forças em questões de ordem filosóficas simplesmente. O mero debate de ideias é inútil enquanto a outra parte incuba a imoralidade de anos, sem se dar conta disso. Sua cosmovisão hedonista busca hoje a legitimidade e seriedade que nunca lhe foram outorgadas no século passado. É necessária uma voz profética que chama de pecado a transgressão da Lei, de imoralidade o que transgride a boa conduta, de impiedade tudo que se opõe ao Criador e sua criação. Não me refiro com isso um ataque irrefletido, irracional, mas a denúncia da real dimensão do problema, que já se enraizou no coração das pessoas, e já se espalhou pelo globo. O que não podemos permitir é que o discurso aparentemente filosófico seja desassociado das práticas noticiadas que por enquanto ainda causam indignação. Para que a prática seja refreada, a teoria tem que ser denunciada e combatida. O machado precisa ser posto à raiz, e não meramente nos galhos.

terça-feira, 25 de julho de 2017

A sementinha do mal


Muitas pessoas ficam perplexas com o fato de que crianças pecam. Falo de crianças pequenas, que mal sabem falar ou andar. "Como seria possível uma criaturinha tão nova, inexperiente, ser capaz de fazer o mal"? A dúvida a esse respeito brota da falta de compreensão sobre a condição pecaminosa em que se encontram não apenas as crianças, mas a humanidade como um todo. Para muitos o pecado provém e é alimentado em uma fonte externa ao ser humano, que o corrompe processualmente. Seria como dizer que as pessoas aprendem a fazer o mal. Ou, em outras palavras, a corrupção dos homens advém da prática do pecado. Todavia, as Escrituras nos ensinam justamente o contrário: é a prática pecaminosa que procede da corrupção previamente imputada nos homens desde a Queda.
Quando Davi confessa seu pecado no Salmo 51, ele frisa o fato de que "nasceu na iniquidade, e em pecado foi concebido por sua mãe". Nesta passagem (v.5), o rei não nos diz que o ato sexual de seus pais no qual foi fecundado era algo pecaminoso. Ele simplesmente reafirma com outras palavras o que disse no versículo 3 "o meu pecado está sempre diante de mim". Davi sabia que era pecador desde o ventre de sua mãe, e que ao nascer, mesmo sem ainda ter praticado pecado algum, já era um ser iníquo. Ele não aprenderia o pecado com outras pessoas, apenas manifestaria o que já estava nele desde sua concepção. Esse é o legado de nossos pais, o fútil procedimento que marca a humanidade (1 Pedro 1.18).
Mas a ideia corrente entre a maioria das pessoas é do pecado como algo concebido fora, como que tendo raízes externas a nós mesmos. Esse pensamento serve como justificativa de si ou daqueles que amamos. É mais palatável terceirizarmos a responsabilidade das nossas transgressões para outras pessoas ou circunstâncias. "A mulher que me deste.. ela me deu dá árvore, e eu comi" foi a confissão parelhada do homem quando questionado pelo Criador sobre sua desobediência pela qual entrou o pecado no mundo (Gênesis 3.12). Antes de admitir o que fez, com uma cajadada só acusou Deus e seu esposa. Eva também seguiu os passos de seu marido, e lançou a culpa sobre a serpente. Nesse processo, no final, ninguém acaba sendo culpado, pois tudo passa a ser circunstancial para cada um.
Se as coisas fossem realmente assim, poderiam seguir a receita dos fariseus quanto no tratamento contra o pecado. Bastaria limpar o exterior do copo, e tornar o sepulcro caiado" (Mateus 23.25-28). Contudo, não é assim que nos ensina a Palavra de Deus. Jesus deixa claro que "o que contamina o homem não é o que entra pela boca, mas o que sai" (Mateus 15.11). Para os fariseus, as imundícies que contaminam os homens encontram-se em alimentos ou objetos. Simples cerimonialismos, ou ritos externos, podiam purificar as pessoas. Mas o Senhor desloca essa perspectiva de objetos externos para a fonte real das mazelas humanas: o coração (Mateus 15.18). Esta sobre essa figura decantada em versos é terrivelmente enganoso (Jeremias 17.9). Mas o mundo por sua vez insiste em cantar "listen to your heart".
O coração é a parte mais íntima dos homens, o mais profundo do seu ser de onde procedem as fontes da vida (Provérbios 4.23). É a raiz da vida intelectual, volitiva e emocional, não podendo ser separado de nada que pensamos, desejamos ou estimamos. Em suma, nele as pessoas são o que de fato são, é a verdadeira essência de quem somos, é a aparência de Dorian Gray escondida em seu retrato, conforme a obra de Oscar Wilde.
Enquanto Jesus lista os pecados como frutos que brotam do coração, temos a tendência de sempre depositá-los na conta de outros, na qual somos, por assim dizer, meros beneficiários. Esse foi o argumento usado por Eduardo Cunha quando quis justificar sua offshore na Suíça. Sendo sinceras, ao falar de seus pecados, as pessoas poderiam lançar a campanha #SomostodosEduardoCunha. Sempre que não reconhecemo-nos cabalmente responsáveis por nossos pecados, procedemos como qualquer bandido que se vale de manobras jurídicas espúrias para justificar seus crimes. São as "folhas de figueiras" herdadas de nossos pais do Éden. 
É preciso compreender que quando lançamos uma semente no solo, a árvore que esta para germinar não provém da terra, nem da chuva que rega o solo, mas da semente. É verdade que estes elementos externos propiciam à semente condições necessárias para o desenvolvimento da planta, mas tão somente isso. Desta sorte, o que é externo ao coração do homem pode até ser propício ao pecado, mas não poderemos nos enganar pensando que poderemos enxertar a raiz do pecado em outro lugar quando tivermos que prestar contas de nossos atos. A ilustração que Lutero fazia dessa relação entre tentação e pecado serve bem para uma compreensão maior: Você pode não impedir que um pássaro pouse em sua cabeça, mas pode impedir que ali ele faça o seu ninho.
O entendimento verdadeiro da nossa condição pecaminosa não simplesmente informa, mas aponta a transformação que realmente necessitamos. Quando reconhecemos que o mal está, antes de tudo, em nós mesmos, reconhecemos também que o antídoto vem de fora, e precisa, antede mais nada, ser aplicado em nosso coração. Não adianta blindar a "boca contra o que é impuro" quando no coração encontram-se todo tipo de imundície. A purificação não se achará em nós mesmos, em algum tipo de reeducação moral disposta em uma receita farisaica. A raiz do mal é por demais profunda, está muito além do nosso alcance para arrancá-la. É necessário nascer de novo!
Aquele que venceu a morte é quem tem o poder de nos dar Vida Nova. Não é a primeira infância que torna puro o ser humano, e sim a segunda. É crendo que no sacrifício de Jesus que contemplamos o poder pelo qual somos libertos da escravidão do pecado. Mas esse é o tipo de conhecimento também nos humilha, pois lança por terra a terceirização do pecado e, consequentemente, a bondade intrínseca que imaginamos ter. É tão somente quando nos damos conta do quanto realmente estamos perdidos, do quão profunda foi a nossa queda, que admitimos que somente o Filho de Deus pode nos alcançar. É quando reconhecemos o quão pecadores somos, sem terceirizar nossa culpa, é que também reconhecemos naquele que é Santo o poder para nos fazer crianças do seu Reino, concebidas não em pecado, mas no poder do Espírito que nos santifica.