terça-feira, 25 de julho de 2017

A sementinha do mal


Muitas pessoas ficam perplexas com o fato de que crianças pecam. Falo de crianças pequenas, que mal sabem falar ou andar. "Como seria possível uma criaturinha tão nova, inexperiente, ser capaz de fazer o mal"? A dúvida a esse respeito brota da falta de compreensão sobre a condição pecaminosa em que se encontram não apenas as crianças, mas a humanidade como um todo. Para muitos o pecado provém e é alimentado em uma fonte externa ao ser humano, que o corrompe processualmente. Seria como dizer que as pessoas aprendem a fazer o mal. Ou, em outras palavras, a corrupção dos homens advém da prática do pecado. Todavia, as Escrituras nos ensinam justamente o contrário: é a prática pecaminosa que procede da corrupção previamente imputada nos homens desde a Queda.
Quando Davi confessa seu pecado no Salmo 51, ele frisa o fato de que "nasceu na iniquidade, e em pecado foi concebido por sua mãe". Nesta passagem (v.5), o rei não nos diz que o ato sexual de seus pais no qual foi fecundado era algo pecaminoso. Ele simplesmente reafirma com outras palavras o que disse no versículo 3 "o meu pecado está sempre diante de mim". Davi sabia que era pecador desde o ventre de sua mãe, e que ao nascer, mesmo sem ainda ter praticado pecado algum, já era um ser iníquo. Ele não aprenderia o pecado com outras pessoas, apenas manifestaria o que já estava nele desde sua concepção. Esse é o legado de nossos pais, o fútil procedimento que marca a humanidade (1 Pedro 1.18).
Mas a ideia corrente entre a maioria das pessoas é do pecado como algo concebido fora, como que tendo raízes externas a nós mesmos. Esse pensamento serve como justificativa de si ou daqueles que amamos. É mais palatável terceirizarmos a responsabilidade das nossas transgressões para outras pessoas ou circunstâncias. "A mulher que me deste.. ela me deu dá árvore, e eu comi" foi a confissão parelhada do homem quando questionado pelo Criador sobre sua desobediência pela qual entrou o pecado no mundo (Gênesis 3.12). Antes de admitir o que fez, com uma cajadada só acusou Deus e seu esposa. Eva também seguiu os passos de seu marido, e lançou a culpa sobre a serpente. Nesse processo, no final, ninguém acaba sendo culpado, pois tudo passa a ser circunstancial para cada um.
Se as coisas fossem realmente assim, poderiam seguir a receita dos fariseus quanto no tratamento contra o pecado. Bastaria limpar o exterior do copo, e tornar o sepulcro caiado" (Mateus 23.25-28). Contudo, não é assim que nos ensina a Palavra de Deus. Jesus deixa claro que "o que contamina o homem não é o que entra pela boca, mas o que sai" (Mateus 15.11). Para os fariseus, as imundícies que contaminam os homens encontram-se em alimentos ou objetos. Simples cerimonialismos, ou ritos externos, podiam purificar as pessoas. Mas o Senhor desloca essa perspectiva de objetos externos para a fonte real das mazelas humanas: o coração (Mateus 15.18). Esta sobre essa figura decantada em versos é terrivelmente enganoso (Jeremias 17.9). Mas o mundo por sua vez insiste em cantar "listen to your heart".
O coração é a parte mais íntima dos homens, o mais profundo do seu ser de onde procedem as fontes da vida (Provérbios 4.23). É a raiz da vida intelectual, volitiva e emocional, não podendo ser separado de nada que pensamos, desejamos ou estimamos. Em suma, nele as pessoas são o que de fato são, é a verdadeira essência de quem somos, é a aparência de Dorian Gray escondida em seu retrato, conforme a obra de Oscar Wilde.
Enquanto Jesus lista os pecados como frutos que brotam do coração, temos a tendência de sempre depositá-los na conta de outros, na qual somos, por assim dizer, meros beneficiários. Esse foi o argumento usado por Eduardo Cunha quando quis justificar sua offshore na Suíça. Sendo sinceras, ao falar de seus pecados, as pessoas poderiam lançar a campanha #SomostodosEduardoCunha. Sempre que não reconhecemo-nos cabalmente responsáveis por nossos pecados, procedemos como qualquer bandido que se vale de manobras jurídicas espúrias para justificar seus crimes. São as "folhas de figueiras" herdadas de nossos pais do Éden. 
É preciso compreender que quando lançamos uma semente no solo, a árvore que esta para germinar não provém da terra, nem da chuva que rega o solo, mas da semente. É verdade que estes elementos externos propiciam à semente condições necessárias para o desenvolvimento da planta, mas tão somente isso. Desta sorte, o que é externo ao coração do homem pode até ser propício ao pecado, mas não poderemos nos enganar pensando que poderemos enxertar a raiz do pecado em outro lugar quando tivermos que prestar contas de nossos atos. A ilustração que Lutero fazia dessa relação entre tentação e pecado serve bem para uma compreensão maior: Você pode não impedir que um pássaro pouse em sua cabeça, mas pode impedir que ali ele faça o seu ninho.
O entendimento verdadeiro da nossa condição pecaminosa não simplesmente informa, mas aponta a transformação que realmente necessitamos. Quando reconhecemos que o mal está, antes de tudo, em nós mesmos, reconhecemos também que o antídoto vem de fora, e precisa, antede mais nada, ser aplicado em nosso coração. Não adianta blindar a "boca contra o que é impuro" quando no coração encontram-se todo tipo de imundície. A purificação não se achará em nós mesmos, em algum tipo de reeducação moral disposta em uma receita farisaica. A raiz do mal é por demais profunda, está muito além do nosso alcance para arrancá-la. É necessário nascer de novo!
Aquele que venceu a morte é quem tem o poder de nos dar Vida Nova. Não é a primeira infância que torna puro o ser humano, e sim a segunda. É crendo que no sacrifício de Jesus que contemplamos o poder pelo qual somos libertos da escravidão do pecado. Mas esse é o tipo de conhecimento também nos humilha, pois lança por terra a terceirização do pecado e, consequentemente, a bondade intrínseca que imaginamos ter. É tão somente quando nos damos conta do quanto realmente estamos perdidos, do quão profunda foi a nossa queda, que admitimos que somente o Filho de Deus pode nos alcançar. É quando reconhecemos o quão pecadores somos, sem terceirizar nossa culpa, é que também reconhecemos naquele que é Santo o poder para nos fazer crianças do seu Reino, concebidas não em pecado, mas no poder do Espírito que nos santifica.

sábado, 24 de junho de 2017

Como caem os valentes!

Alfred E. Neuman disse que "devemos aprender com os erros dos outros, pois não teremos tempo de cometê-los todos". A Bíblia narra inúmeros erros cometidos pelo povo de Deus, que, segundo Paulo, devem servir de exemplo e advertência para a Igreja desde os seus dias até hoje (1 Coríntios 10.6,11). Esse é um caso que podemos aplicar ao rei Saul.
Ao mesmo tempo trágica e irônica, a derrocada do primeiro rei de Israel adverte-nos quanto a rebeldia e obstinação. Saul desobedeceu as ordens de Deus quanto a sentença de morte ao rei Amaleque e os amalequitas (1 Samuel 15). Desta desobediência veio a sentença de Deus sobre sobre o seu reinado nos seguintes termos: "...a rebelião é como o pecado de feitiçaria, e a obstinação é como a idolatria e culto a ídolos do lar. Visto que rejeitaste a palavra do SENHOR, ele também te rejeitou a ti, para que não sejas rei". (v.23). Esse era o começo do seu fim.
Ali foi posto o machado na raiz do seu trono, mas só muitos anos depois viria sua ruína final. Já no capítulo 28, cercado pelos filisteus, sendo Samuel já morto, Saul não tinha de Deus nenhuma resposta às suas consultas. Tomado de medo, e sem saber o que fazer, tornou literalmente sua rebelião e obstinação em pecados de feitiçaria e idolatria (1 Samuel 28.8-19). Ele buscou uma médium para consultar o espírito de Samuel a fim de obter direção do profeta morto. Polêmicas a parte sobre a real identidade do espírito que ali se manifestou*, a temática central do texto é a desolação em que se encontrava o rei de Israel frente a sua iminente destruição. Em seu louco desespero, se permitiu àquilo que condenou (v.3,9-10; Romanos 14.22).
Mas sua consulta à "mesa branca" não obteve o resultado esperado. O espírito não lhe deu orientação alguma, apenas mais uma vez lembrou-o da sentença que lhe proferiu no passado, e que, dentro em pouco, tornaria-se o seu presente. Em outras palavras, não havia direção futura para o rei Saul, apenas sua morte e o fim de sua dinastia. O rei literalmente caiu ao chão sem forças para se levantar. Quando conseguiu recobrar as forças com o pão feito pela médium, saiu envolto nas trevas da noite. Dentro em pouco Saul não estaria mais entre os vivos.
Em nenhum momento Saul buscou a Deus quebrantado por causa de seus pecados. Sua relação com o SENHOR era puramente utilitária. Seu sofrimento não era acompanhado de quebrantamento. Isso se evidencia pelo fato de chegar ao cúmulo de consultar os mortos, em obvia desobediência a Palavra de Deus.
A experiência de Saul deve trazer temor e tremor aos nossos corações quanto a maneira como buscamos a Deus. Fazer de Deus um talismã, como os filhos de Eli fizeram com a Arca da Aliança no início do livro (1 Samuel 4.1-5) certamente não passará impune aos olhos do SENHOR. Acharmos que Deus está subjugado às nossas pretensões, planos ou metas, e nos voltarmos a Ele apenas para que nos direcione, sem que nos quebrantemos primeiro, é achar que Deus é como qualquer outro ídolo pagão, manipulável, que pode ser comprado com oferendas. Saul foi feiticeiro antes de ir a casa da médium. Foi idólatra se invocar o nome de nenhum outro deus dos povos vizinhos. Também nós podemos nos encontrar sujeitos a esses pecados sem nos afastarmos do "arraial de nossas igrejas", sem necessariamente abraçarmos o espiritismo. Basta confundirmos obstinação com perseverança. A obstinação dá-se ao que é estabelecido por nós em nosso próprio coração. A perseverança é obediência a vontade de Deus expressa em sua Palavra, e isso requer de nós fé.
Davi, como Saul, pecou contra Deus ao longo de seu reinado. Alguns pecados de Davi poderiam ser considerados até mais escandalosos que o de seu antecessor. Mas Davi, sendo homem segundo o coração de Deus, quebrantava-se diante do verdadeiro Rei, e se humilhava dispondo-se em sua mãos, nunca agindo com manipulação. Nos humilhemos diante de Deus, e nos submetamos a sua vontade e não a nossa, fazendo coro com o Salmo 138.8...
O que a mim me concerne o SENHOR levará a bom termo;
a tua misericórdia, ó SENHOR, dura para sempre;
não desampares as obras de tuas mãos.

(*) Sou da posição de que o espírito invocado pela médium nessa passagem bíblica é de fato Samuel. Compartilho dos mesmos argumentos que o Rev. Augustus Nicodemus, que se encontram nesse link. Contudo, não faço da minha interpretação uma bandeira, não faço essa afirmação com a mesma certeza que tenho quanto a outras passagens bíblicas (Confissão de Fé de Westminster cap. I.7). Apenas entendo que o ponto principal dessa passagem é o juízo de Deus sobre Saul.

sábado, 29 de abril de 2017

Rebelde sem causa (justa)

Desta maneira fazia Absalão a todo Israel que vinha ao rei para juízo e,
assim, ele furtava o coração dos homens de Israel.
2 Samuel 15. 6

Absalão, filho de Davi, depois que voltou do "exílio" da presença de seu pai (2 Samuel 14.28), passou a apresentar-se na porta de Jerusalém com a pompa de um rei (2 Samuel 15.1, conf. 1 Samuel 8.11). Ali, de maneira prática, deu-se início ao seu projeto de usurpar o trono de seu pai. Ele roubava o coração dos homens fazendo parecer que seria um juiz mais justo que seu pai, o rei (2 Samuel 15.6).
É fato que Davi pecou tanto como pai quanto como rei. Seu pecado registrado em "caixa alta" nas Escrituras não se restringiria apenas ao seu adultério com Bate-Seba e, consequentemente, ao assassinato de Urias. Sua falta de trato com seus filhos em meio as sucessivas tragédias ocorridas em sua casa, apresentam um homem duplamente omisso. Tamar, filha de Davi, foi estuprada por Amnom, seu meio-irmão, e Davi nada fez a esse respeito (2 Samuel 13.21). Absalão, irmão de Tamar matou Amnom em vingança por sua irmã, e Davi nada fez eficazmente a respeito (2 Samuel 13.39; 14.21-24, 33). É preciso lembrar que estas tragédias na casa de Davi eram juízo de Deus sobre ele por causa dos pecados descritos: A espada jamais se apartará da tua casa (2 Samuel 12.10).
Por esses motivos Absalão achava-se no direito de tirar o trono de seu pai. Talvez, num misto de vingança pessoal, e de uma pretensa justiça social, o filho do rei achava-se a pessoa mais indicada naquele momento para o trono de Israel. Mas, apesar dos pesares, Davi era o ungido de Deus e não Absalão.
Não quero dizer com isso que Davi tinha licença para matar ou adulterar. O juízo que sucedeu ao seus pecados nos prova que não. O que digo nesse caso, conforme as palavras do próprio Davi quanto a Saul, seu antecessor, é que o juízo que deveria cair sobre o rei cabia a Deus aplicar (1 Samuel 26.9-11). Saul havia pecado contra o Senhor, e procurava tirar a vida de Davi, por saber que Deus o havia escolhido para reinar. Apesar de poder argumentar legítima defesa, e de que também era ungido do Senhor, Davi sabia que a vingança pertencia ao Deus, e por isso não pretendia ser mais justo que Ele.
Absalão não havia sido ungido por Deus para reinar. Ele tinha uma crise doméstica como motivo para procurar tomar o lugar de seu pai. E ainda que essa crise entre pai e filhos fosse seríssima, não justificava um golpe de estado. O que ele não entendia a essa altura do campeonato, é que era tão pecador quanto Davi e Amnom. Em seu curriculum vitae poderemos encontrar o assassinato de seu irmão, e o estupro das concubinas de seu pai, que também configurava adúltero. Essa "maldição familiar" Absalão trouxe sobre si, a violência e o adultério. Mas em sua "justiça" (Isaías 64.6), Absalão não se reconhecia pecador, ao passo que Davi, tão pecador quanto seu filho, reconhecia seu próprio pecado (2 Samuel 12.13).
Vejo na história familiar do rei Davi, algo maior do que uma crise entre pai e filho, ou de Estado. Há uma rebeldia da parte de Absalão contra o próprio Deus. Primeiro quando tenta tomar a justiça em suas mãos. Segundo quando não se reconhece pecador, mas, mais justo que o próprio Deus. Davi era rei em Israel, o ungido do SENHOR naquele dias. A rebelião de Absalão era então contra o próprio Deus. Desta mesma sorte, sempre que nos nos achamos suficientemente justos em nós mesmos, necessariamente desprezamos a justiça de Deus em seu Ungido Filho Jesus. Ele, o Rei do reis, a quem Davi tipificava, é muitas vez objeto da ira dos ímpios, que não reconhecem nele autoridade para governar suas vidas. Davi era pecador, mas a razão maior da revolta de Absalão era se achar mais digno que seu pai. Jesus nunca pecou, e seu trono é maior do que o de Davi. Sua justiça nos humilha, e nos conclama a confiar em Deus, nos submetendo a Ele. Não sejamos pois loucos como Absalão, acreditando que podemos tomar o trono do Senhor do Universo, e governarmos nossa própria vida, ou até mesmo o mundo ao nosso redor. A despeito de toda injustiça que nos cerca, não somos melhores que ninguém. Creiamos na justiça de Deus, e nos submetamos ao Justo Juiz, que reina nos céus e na terra, e é quem pode nos redimir de todo pecado, e nos dá a viva esperança em seu reino de paz.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

O Caminho até o lugar que Deus plantou no coração dos homens

“Então, formou o SENHOR Deus ao homem do pó da terra e lhe soprou nas narinas o fôlego da vida, e o homem passou a ser alma vivente. E plantou o SENHOR Deus um jardim no Éden, na direção do Oriente, e pôs nele o homem que havia formado”. Gênesis 2. 7,8

Existem lugares por onde passamos, ou que desejamos ir, que nos parecem a solução de todos os nossos problemas. Talvez uma praia paradisíaca, uma casa no campo, ou simplesmente qualquer outro lugar diferente de onde estou agora soa como um lugar perfeito. É como se ali pudéssemos viver o nosso particular “Felizes Eternamente”.
Sou afeito ao mar, às praias de areias brancas com vento e sol. Não posso negar que morar em uma cidade a beira mar, com essas especificações é uma ideia que me atrai. Minhas férias são sempre programadas pensando nesse tipo de itinerário. As vezes tenho a impressão que morar em um lugar assim, “perfeito”, resolveria todos os problemas da vida. Ledo engano.
Essa trapaça do nosso coração começa a ser desmascarada quando olhamos sinceramente para a história. Via de regra, a maioria dos problemas do onde estamos, não brotam do lugar em si, mas das pessoas. É verdade que existem regiões inóspitas no mundo, mas todos os lugares humanamente habitáveis no planeta têm problemas, mesmo aqueles considerados paradisíacos. Isso demonstra que o problema maior não está meramente no “onde”, mas em “quem”.
Deus fez o homem “muito bom” (Gênesis 1.31), e o lugar onde plantou um jardim para que este morasse chamava-se Éden, que quer dizer “delícia ou prazer”. Neste lugar, Deus empregou o homem para cultivar e guardar o jardim (Gênesis 2.15). Também lhe deu a mulher, sua auxiliadora necessária. Eis um homem perfeito em um lugar perfeito, ambos criados pelo próprio Deus, que mais poderia dar errado?
Alguém teria dito que foi aí onde o “trem descarrilhou”. Mas para contrapor essa insensatez é bom lembrar o quão terrível é estar desempregado e sozinho. As catástrofes da história humana não são na maior parte do tempo culpa de nada, nem de ninguém além do próprio homem. Vejamos como as Escrituras nos provam isso.
Deus institui uma aliança com o homem, na qual, diante de tudo que já lhe havia concedido, lhe requeria tão somente a obediência quanto a não comer do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal (Gênesis 2.17). Um pouco antes, somos também informados da existência da árvore da vida plantada no meio do jardim (Gênesis 2.9). Mais uma vez, alguém pode dizer que Deus não precisava provar a obediência do homem, que isso foi algo mesquinho da parte do Criador. Eu respondo a essa insensatez dizendo que na verdade Deus não precisava sequer criar o homem, quanto mais cerca-lo de todas as delícias imagináveis como o fez. Deus não tinha obrigação de nenhuma para com o homem, mas, ainda assim, bondosamente, o fez habitar em lugar esplêndido, ocupado ao lado daquela a quem declarou ser “osso dos seus ossos e carne de sua carne”. Deus não devia nada ao homem, mas lhe concedeu tudo que desejamos até hoje. Quanto pagaríamos por uma vida assim? Uma fruta poderia valer mais do que tudo isso?
O homem simplesmente devia obedecer a Deus, mas não o fez. Achou-se mais digno que Ele. Pensou que o Criador não era, afinal de contas, tão benevolente assim, pois tinha alguma “carta escondida na manga” (não, não estou dizendo que a fruta em questão era uma manga). Apesar de perfeito, o homem provou-se não tão perfeito quanto deveria ser. A desobediência demonstrou que seu amor por Deus não era tão grande quanto a estima exagerada por si mesmo. Desprezou tudo que o SENHOR Deus lhe havia concedido em troca de uma ideia fixa de que podia ser feliz por seus próprios caminhos (que na verdade eram os de Satanás). Tamanha traição não podia ficar impune. Qualquer um de nós, traídos em condições semelhantes, dificilmente perdoaríamos. A morte enquanto paga para o pecado não era nada mais do que o justo.
Deus não deixou de executar o termo da aliança que dizia que o pecado seria a ocasião da morte entrar em cena no mundo. Nós somos aqueles que desde Adão criamos nossa própria destruição. Mesmo a própria criação, outrora boa, encontra-se corrompida por causa do nosso pecado. Não há lugar onde podemos esconder-nos de nós mesmos. E também não há lugar que possa escapar da nossa presença devastadora. Somos pessoas imperfeitas em um lugar imperfeito, o que poderia dar certo?     
A história poderia ter terminado aí, com num final trágico de uma crônica que começou perfeita. “Mas Deus, sendo rico em misericórdia, por causa do grande amor com que nos amou...” (Efésios 2.4) traz uma reviravolta nesse enredo. Ao mesmo tempo que Ele fez cair sobre os homens e a criação a maldição por causa do pecado, também anunciou que o descendente da mulher é quem venceria o Diabo, aquele que “contrabandeou” a morte para o Jardim do Éden (Gênesis 3.15, 17-18). Esse descendente da mulher é Jesus (Gálatas 4.4), e para que a morte ocasionada pelo pecado fosse morta, Ele morreu na cruz por nossos pecados. Ele sorveu a maldição da quebra da Aliança feita com Adão, consumiu em sua carne a ira de Deus sobre os nossos pecados. E ainda, em nosso lugar, foi perfeitamente obediente, como nosso pai Adão deveria ser. O mesmo Deus que na Criação nos concedeu todas as coisas, agora, depois de traído, na Redenção nos restaura todas as coisas e ainda mais. Quem poderia amar como Ele?
Jesus disse “na casa de meu Pai há muitas moradas...”, e que iria preparar-nos lugar (João 14.2). Agora, mais do antes no Jardim do Éden, o SENHOR Deus nos prepara um lugar junto do Pai. Esse é o lugar que desejamos no nosso mais íntimo, onde poderemos viver longe de todas as mazelas que nos infernizam por dentro e por fora. Não encontraremos paz em uma praia paradisíaca, ou em uma casa no campo. Não está em ninguém e em nenhum lugar desse mundo o prazer que buscamos. Como quem sente saudade do que nunca conheceu, Deus plantou no coração do homem o desejo pelo prazer nunca experimentado, o verdadeiro prazer só pode ser descoberto quando provamos do fruto da árvore da vida, que é Cristo. Desde o Princípio Ele estava lá para deixar claro que nunca seria por nossos pais, ou por nós mesmos o caminho para a mais perfeita comunhão com Deus. Essa árvore da vida que foi cercada depois da Queda, para que o homem não tivesse vida eterna (Gênesis 3. 22-24) agora é novamente acessível pela fé em Jesus Cristo.   
Assim, uma vez aperfeiçoados naquele que é perfeito, em um lugar perfeito, junto a outros que também foram aperfeiçoados, viveremos eternamente no paraíso melhor do que aquele perdido por nossos pais. No novo céu e nova terra (Apocalipse 21.1), temos o lugar que, preparado pelo SENHOR Deus, é objeto do desejo do nosso coração pelo que é perfeito. Para chegar lá, o único caminho é conhecido, chama-se Jesus, o Filho de Deus. Creia nele, e tenha a vida eterna.

  

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Sobre a morte dos ímpios e a misericórdia de Deus


No atentado terrorista ao jornal satírico Charlie Hebdo, quando terroristas mulçumanos mataram doze pessoas, e feriram outras cinco, não cedi a tentação de enxergar naquilo algum tipo de juízo de Deus. O fato de publicarem charges que insultam indistintamente Cristianismo e Islamismo, não justifica, nem sequer em pensamento, aquele massacre. Não creio que a ira de loucos mulçumanos produziria a justiça de Deus, e nem vice-versa. Não creio que a ira de nenhum tipo de louco assim o faça.
Quando agora em uma casa noturna gay, um terrorista islâmico mata quarenta e nove pessoas, e fere quase o mesmo número, continuo sem ver uma relação direta do juízo de Deus sobre o pecado dessas pessoas. Ainda que alguns pensem que a iniquidade deles justifique sua execução, não é isso que a Bíblia nos ensina quanto ao caráter de Deus. Em Ezequiel 33.11, a Palavra é explícita quanto ao que preceitua o coração do SENHOR, de que Ele não tem prazer na morte do perverso, mas sim em que se converta do seu mau caminho. E, assim sendo, se Deus, o justo juiz de toda a terra, não tem prazer nessas mortes, como podemos nós, cristãos, termos algum tipo de satisfação em atrocidades cometidas em nome de uma suposta justiça divina? Não podemos partilhar desse sentimento sem incorrer em injustiça.
É verdade que as circunstâncias são complexas, mas até mesmo um ateu como Jean Rostand, evidentemente de uma perspectiva diferente, é capaz de visualizar esse quadro de forma lógica. Ele diz: Se alguém mata um homem, é um assassino. Se mata milhões de homens, é um conquistador. Se mata todos, é um Deus. Quero dizer com isso que não obstante os homens serem responsáveis por suas barbáries, Deus, o Soberano, é quem tem poder sobre a vida e a morte de toda humanidade. Na passagem do profeta Ezequiel, o povo de Israel ainda é advertido em forma de questionamento: Por que razão morrereis, ó casa de Israel? Deus os chama ao arrependimento, pois seu prazer está em que se convertam e vivam.
Balas não converterão os perversos. Ofensas não converterão ninguém. O descaso pela vida humana não trará arrependimento ao coração daqueles que desprezam o SENHOR. Nosso papel como atalaias é de testemunhas contra o pecado, chamando os pecadores ao arrependimento. Esse testemunho, firmado na pessoa e obra de Jesus Cristo, o Justo, conta também com a referência a nós, pecadores. Outrora mortos em nossos delitos e pecados, recebemos vida pelo grande amor com que Deus nos amou. Fomos chamados ao arrependimento, e pela graça operada em nossos corações, sendo contemplados com a fé nas promessas de perdão no nome de Jesus. Sim, nós também caminhávamos a passos largos para a condenação, como qualquer outro pecador. Nosso livramento se deu exclusivamente pela graça de Deus. Não é preciso ser o que se poderia chamar de “notório pecador” para merecer a morte (Romanos 6.23), basta ser pecador. E, como todos pecaram, todos foram destituídos da glória de Deus (Romanos 3.23).
Desta sorte, o mesmo Deus que não tem prazer na morte dos ímpios, é também aquele que executa sobre eles o seu juízo. Mas isso não se dá pela forma da morte em si, seja pela execução nas mãos de um criminoso, ou em circunstâncias trágicas. Em Lucas 13.1-5 o Senhor Jesus fala sobre a morte dos galileus pelas mãos de Pilatos, e também dos habitantes de Jerusalém sob a torre de Siloé. É explanado que, independente de como morreram aqueles homens, todos os demais, igualmente, se não se arrependerem, perecerão. O juízo de Deus sobre o pecador se dá na morte em si, e não em sua forma. Logo, não nos cabe julgar como “mais pecadores” aqueles que morrem de forma trágica, atribuindo o juízo a essa forma de morte, uma vez que sem arrependimento, todo pecador perecerá eternamente.
Compartilho uma experiência que tive com relação a esses sentimentos de justiça própria. Há alguns anos um amigo de infância foi brutalmente assassinado. Senti em algumas ocasiões profundo ódio pelo assassino, maquinando as piores formas de punição e morte para ele. Orei a Deus e pedi que tirasse aqueles sentimentos do meu coração, e roguei a Deus por justiça sobre a vida daquele bandido, bem como o seu perdão sobre seus pecados. Não fui incoerente em minha oração, uma vez que a justiça que lhe era devida, ainda que fosse a pena de morte, caso fosse essa a lei desse país, não me isentava de rogar que ele fosse ao mesmo tempo contemplado com o dom do arrependimento para salvação de sua alma. O jovem assassino, depois de julgado e recolhido a prisão por um tempo, recebeu liberdade condicional logo depois. Descumprido a exigência da sua pena, ele morreu pilotando uma moto em alta velocidade de madrugada. Alguns amigos celebraram a morte daquele rapaz, dizendo que Deus havia feito justiça. Confrontei esses amigos com o pensamento que expus nesse texto, sabendo que mesmo Deus tendo trazido juízo sobre esse assassino, isso não podia ser motivo de satisfação para nós.

O bandido que estava ao lado de Jesus na cruz, evidenciou seu arrependimento nesses termos (Lucas 23.39-43). Ele reconheceu que seu lugar era ali, morrendo na cruz por conta de seus crimes. Mas ele também creu que aquele que estava ao seu lado era o Messias, e que nele havia esperança de um reino vindouro. Jesus lhe disse que naquele mesmo dia eles estariam juntos no paraíso. Aquele criminoso morreu de forma trágica, em uma cruz, mas mesmo assim foi salvo mediante a fé no Rei dos reis. Devemos assim testemunhar aos perversos essa mesma esperança no nome de Jesus, que morreu de forma escandalosa a fim de que a morte não fosse mais uma tragédia na vida daqueles que pela fé se arrependem dos seus pecados.   

quarta-feira, 8 de junho de 2016

Humilhação, um aprendizado do Deserto


Quando estudava missões em Brasília, morei no internato do curso. Lá enfrentávamos tensões na convivência entre os alunos. Lembro-me de uma colega sempre repetir em tom altivo para os demais: Não murmurem, aquele que se humilha será exaltado. Naquele momento aquela fala me soava pretensiosa, e, por si só, já me fazia sentir-me humilhado. Apesar de serem palavras bíblicas, sua interlocutora parecia fazer justamente o contrário quando as pronunciava: Ela parecia se exaltar.
Não demorou muito para perceber que, para alguém se humilhar, faz-se necessário que outra pessoa, ou circunstância, se exalta sobre ele. Somos um povo de dura cerviz (Deuteronômio 9.6), não nos dobramos automaticamente. Deus suscita meios para que aprendamos a nos humilhar. Esses meios, sejam pessoas bem-intencionadas ou não, sejam circunstâncias que julgamos injustas ou não, devem ser recebidos com fé nessa palavra: E quem a si mesmo se humilhar será exaltado. (Mateus 23.12).
Foi o próprio Deus quem conduziu o povo no deserto para que fossem humilhados (Deuteronômio 8.2). Ali, por causa do seu pecado de incredulidade (Números 13, 14), por quarenta anos tiveram que se humilhar diante das circunstâncias de vida em um deserto. É evidente que num lugar de completa escassez de recursos, as condições de vida são praticamente nulas. Desta sorte, pela provisão de comida e roupa (8.3, 4), Deus estava ensinando o seu povo a depender e confiar nele. Mais que do pão que descia do céu, é de toda Palavra que procede da boca de Deus que vive o homem (Mateus 4.4).
Tudo o que procede da boca de Deus é verdadeiro e fiel. Sua Palavra nos sustenta tanto na provisão de todos os dias (como no caso do maná), como também na esperança daquele Dia em que seremos recebidos por Ele em seu Reino Prometido (2 Pedro 3.13). Por isso também, ao contrário do soberbo, o justo viverá pela fé (Habacuque 2.4), humilhando-se na dependência da Palavra de Deus.
Existe ainda uma implicação considerável nesse aprendizado do deserto, em conformidade com o que mencionei acima em Mateus 23.12. Não basta que circunstâncias ou as pessoas nos humilhem, é vital que nós nos humilhemos. As circunstâncias apenas ressaltam nossa misérias e fraquezas que geralmente são camufladas em orgulho e soberba. Em circunstâncias favoráveis, somos induzidos a acreditar que em uma força e autossuficiência que simplesmente não existe. Mas essa nuvenzinha de ignorância que nos toma, se dissipa com a realidade de que somos pó e erva do campo, e que com o menor sopro de nosso Criador, podemos ser dissipados como a palha no vento. Quando nos humilhamos de verdade, reconhecemos a realidade do que somos, e não encontramos outra saída em nossas calamidades se não na graça de Deus.
Assim, na verdade, somos humilhados pela graça de Deus, que nos aponta tanto nossa condição decaída por causa dos nossos pecados, como também o amor e a bondade de Deus para conosco. O povo de dura cerviz nos dias do deserto é o mesmo na Igreja de hoje. Nossa peregrinação até que nosso Senhor retorne, deve ser feita de maneira humilde na presença de Deus, sabendo que toda provisão que temos não procede deste mundo, mas da Palavra de sua boca. Assim, somos disciplinados por nosso Pai (8.5) a fim de não nos ensoberbecermos e menosprezarmos seus Mandamentos, pois é justamente por meio deles que temos vida.

      

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Pai, Pão e Perdão


“Então, caindo em si, disse: Quantos trabalhadores de meu pai tem pão com fartura, e eu aqui morro de fome! Vou me levantar, e irei me encontrar com meu pai, e lhe direi: Pai, pequei contra o céu e diante de ti; já não sou digno de ser chamado seu filho, trata-me como um de seus trabalhadores”. (Lucas 15. 17-19)

A Parábola do Filho Pródigo é uma das mais conhecidas da Bíblia. Muitas pessoas se impressionam com esse filho desnaturado que exigiu parte da herança de seu pai, quando este ainda estava vivo. E como se não bastasse tamanha afronta, depois de receber o dinheiro, deixou sua casa para trás, seguiu seu próprio coração para curtir a vida em país distante. Tudo seria apenas uma grande aventura, mas as coisas não saíram conforme o planejado.
Em um primeiro momento, enquanto durou o dinheiro, tudo foi festa. Mas tão logo seus recursos acabaram, também aquele país entrou em crise quando “houve grande fome”. O rapaz ainda conseguiu trabalho, mas era o pior emprego que um judeu podia imaginar: cuidar de porcos. Esses animais eram cerimonialmente falando imundos conforme a sua lei. Mesmo trabalhando com porcos, ele ainda passava fome, chegando ao ponto de querer comer a comida daqueles animais. A que ponto chegou o pobre menino rico! Em um dia, vivia na ostentação, no outro, invejando ração de porco. Porém, foi nessa equação de sua vida que ele chegou a fórmula de seu verdadeiro tesouro.
Ele poderia ter dito assim: Eureca! Meu pai é rico, justo e trata muito bem os seus empegados. Sei que pequei contra Deus e contra meu pai, amando mais o seu dinheiro que ele mesmo, e que por isso nem mereço mais ser chamado de seu filho. Mas também sei que sendo justo e bondoso, meu pai irá me aceitar como um de seus empregados, e então não sentirei falta de pão. Isso é o que chamamos de arrependimento. Ele não somente reconhece seu pecado, mas, reconhece também, que voltar para casa de seu pai é o melhor caminho para se trilhar agora. Ele sabe que apesar do seu grave pecado, de uma forma ou de outra, seu pai o receberá em sua casa.
Ele voltou e foi se encontrar com seu pai, e de fato foi perdoado. Não foi tratado como um empregado, mas recebido de volta em sua casa como o “filho que estava perdido e foi achado, que estava morto, e reviveu”. Não recebeu só comida, mas também casa e roupa lavada. Houve festa com muita alegria. Além de rico, justo e benevolente, aquele pai o amava profundamente. Ele amava seu filho mais do que o dinheiro desperdiçado. Ele amava aquele filho apesar de todo desprezo que havia recebido antes.
Essa parábola não conta a história de um “vida loka” que se arrependeu e achou o caminho de volta pra casa. Não narra uma aventura que no final termina bem. Essa parábola conta a história do Deus que é Pai, rico, justo, e ao mesmo tempo amoroso. Nos fala de um tesouro que não se encontra nas festas, no sexo, na ostentação, nem em nada desse mundo, mas no Pai que sustenta generosamente até os que não são seus filhos.

Longe de Deus existe uma grande fome em nosso coração, que não encontra satisfação em nada que o mundo oferece. Sobreviver da ração de porcos não é vida, mas comer o pão dado por Deus, é Vida. Jesus, o Filho de Deus, é o Pão da Vida (João 6.35), e nele nosso coração é saciado de toda fome. Sem Jesus, estamos perdidos e mortos, mas nele somos encontrados e ressuscitados. Deixe a comida dos porcos para trás, e segue até a casa do Pai, onde não há falta de pão. O Caminho descrito em João 14.6 é verdadeiro. Certamente lá você será tratado como seu filho.