terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

O Caminho até o lugar que Deus plantou no coração dos homens

“Então, formou o SENHOR Deus ao homem do pó da terra e lhe soprou nas narinas o fôlego da vida, e o homem passou a ser alma vivente. E plantou o SENHOR Deus um jardim no Éden, na direção do Oriente, e pôs nele o homem que havia formado”. Gênesis 2. 7,8

Existem lugares por onde passamos, ou que desejamos ir, que nos parecem a solução de todos os nossos problemas. Talvez uma praia paradisíaca, uma casa no campo, ou simplesmente qualquer outro lugar diferente de onde estou agora soa como um lugar perfeito. É como se ali pudéssemos viver o nosso particular “Felizes Eternamente”.
Sou afeito ao mar, às praias de areias brancas com vento e sol. Não posso negar que morar em uma cidade a beira mar, com essas especificações é uma ideia que me atrai. Minhas férias são sempre programadas pensando nesse tipo de itinerário. As vezes tenho a impressão que morar em um lugar assim, “perfeito”, resolveria todos os problemas da vida. Ledo engano.
Essa trapaça do nosso coração começa a ser desmascarada quando olhamos sinceramente para a história. Via de regra, a maioria dos problemas do onde estamos, não brotam do lugar em si, mas das pessoas. É verdade que existem regiões inóspitas no mundo, mas todos os lugares humanamente habitáveis no planeta têm problemas, mesmo aqueles considerados paradisíacos. Isso demonstra que o problema maior não está meramente no “onde”, mas em “quem”.
Deus fez o homem “muito bom” (Gênesis 1.31), e o lugar onde plantou um jardim para que este morasse chamava-se Éden, que quer dizer “delícia ou prazer”. Neste lugar, Deus empregou o homem para cultivar e guardar o jardim (Gênesis 2.15). Também lhe deu a mulher, sua auxiliadora necessária. Eis um homem perfeito em um lugar perfeito, ambos criados pelo próprio Deus, que mais poderia dar errado?
Alguém teria dito que foi aí onde o “trem descarrilhou”. Mas para contrapor essa insensatez é bom lembrar o quão terrível é estar desempregado e sozinho. As catástrofes da história humana não são na maior parte do tempo culpa de nada, nem de ninguém além do próprio homem. Vejamos como as Escrituras nos provam isso.
Deus institui uma aliança com o homem, na qual, diante de tudo que já lhe havia concedido, lhe requeria tão somente a obediência quanto a não comer do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal (Gênesis 2.17). Um pouco antes, somos também informados da existência da árvore da vida plantada no meio do jardim (Gênesis 2.9). Mais uma vez, alguém pode dizer que Deus não precisava provar a obediência do homem, que isso foi algo mesquinho da parte do Criador. Eu respondo a essa insensatez dizendo que na verdade Deus não precisava sequer criar o homem, quanto mais cerca-lo de todas as delícias imagináveis como o fez. Deus não tinha obrigação de nenhuma para com o homem, mas, ainda assim, bondosamente, o fez habitar em lugar esplêndido, ocupado ao lado daquela a quem declarou ser “osso dos seus ossos e carne de sua carne”. Deus não devia nada ao homem, mas lhe concedeu tudo que desejamos até hoje. Quanto pagaríamos por uma vida assim? Uma fruta poderia valer mais do que tudo isso?
O homem simplesmente devia obedecer a Deus, mas não o fez. Achou-se mais digno que Ele. Pensou que o Criador não era, afinal de contas, tão benevolente assim, pois tinha alguma “carta escondida na manga” (não, não estou dizendo que a fruta em questão era uma manga). Apesar de perfeito, o homem provou-se não tão perfeito quanto deveria ser. A desobediência demonstrou que seu amor por Deus não era tão grande quanto a estima exagerada por si mesmo. Desprezou tudo que o SENHOR Deus lhe havia concedido em troca de uma ideia fixa de que podia ser feliz por seus próprios caminhos (que na verdade eram os de Satanás). Tamanha traição não podia ficar impune. Qualquer um de nós, traídos em condições semelhantes, dificilmente perdoaríamos. A morte enquanto paga para o pecado não era nada mais do que o justo.
Deus não deixou de executar o termo da aliança que dizia que o pecado seria a ocasião da morte entrar em cena no mundo. Nós somos aqueles que desde Adão criamos nossa própria destruição. Mesmo a própria criação, outrora boa, encontra-se corrompida por causa do nosso pecado. Não há lugar onde podemos esconder-nos de nós mesmos. E também não há lugar que possa escapar da nossa presença devastadora. Somos pessoas imperfeitas em um lugar imperfeito, o que poderia dar certo?     
A história poderia ter terminado aí, com num final trágico de uma crônica que começou perfeita. “Mas Deus, sendo rico em misericórdia, por causa do grande amor com que nos amou...” (Efésios 2.4) traz uma reviravolta nesse enredo. Ao mesmo tempo que Ele fez cair sobre os homens e a criação a maldição por causa do pecado, também anunciou que o descendente da mulher é quem venceria o Diabo, aquele que “contrabandeou” a morte para o Jardim do Éden (Gênesis 3.15, 17-18). Esse descendente da mulher é Jesus (Gálatas 4.4), e para que a morte ocasionada pelo pecado fosse morta, Ele morreu na cruz por nossos pecados. Ele sorveu a maldição da quebra da Aliança feita com Adão, consumiu em sua carne a ira de Deus sobre os nossos pecados. E ainda, em nosso lugar, foi perfeitamente obediente, como nosso pai Adão deveria ser. O mesmo Deus que na Criação nos concedeu todas as coisas, agora, depois de traído, na Redenção nos restaura todas as coisas e ainda mais. Quem poderia amar como Ele?
Jesus disse “na casa de meu Pai há muitas moradas...”, e que iria preparar-nos lugar (João 14.2). Agora, mais do antes no Jardim do Éden, o SENHOR Deus nos prepara um lugar junto do Pai. Esse é o lugar que desejamos no nosso mais íntimo, onde poderemos viver longe de todas as mazelas que nos infernizam por dentro e por fora. Não encontraremos paz em uma praia paradisíaca, ou em uma casa no campo. Não está em ninguém e em nenhum lugar desse mundo o prazer que buscamos. Como quem sente saudade do que nunca conheceu, Deus plantou no coração do homem o desejo pelo prazer nunca experimentado, o verdadeiro prazer só pode ser descoberto quando provamos do fruto da árvore da vida, que é Cristo. Desde o Princípio Ele estava lá para deixar claro que nunca seria por nossos pais, ou por nós mesmos o caminho para a mais perfeita comunhão com Deus. Essa árvore da vida que foi cercada depois da Queda, para que o homem não tivesse vida eterna (Gênesis 3. 22-24) agora é novamente acessível pela fé em Jesus Cristo.   
Assim, uma vez aperfeiçoados naquele que é perfeito, em um lugar perfeito, junto a outros que também foram aperfeiçoados, viveremos eternamente no paraíso melhor do que aquele perdido por nossos pais. No novo céu e nova terra (Apocalipse 21.1), temos o lugar que, preparado pelo SENHOR Deus, é objeto do desejo do nosso coração pelo que é perfeito. Para chegar lá, o único caminho é conhecido, chama-se Jesus, o Filho de Deus. Creia nele, e tenha a vida eterna.

  

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Sobre a morte dos ímpios e a misericórdia de Deus


No atentado terrorista ao jornal satírico Charlie Hebdo, quando terroristas mulçumanos mataram doze pessoas, e feriram outras cinco, não cedi a tentação de enxergar naquilo algum tipo de juízo de Deus. O fato de publicarem charges que insultam indistintamente Cristianismo e Islamismo, não justifica, nem sequer em pensamento, aquele massacre. Não creio que a ira de loucos mulçumanos produziria a justiça de Deus, e nem vice-versa. Não creio que a ira de nenhum tipo de louco assim o faça.
Quando agora em uma casa noturna gay, um terrorista islâmico mata quarenta e nove pessoas, e fere quase o mesmo número, continuo sem ver uma relação direta do juízo de Deus sobre o pecado dessas pessoas. Ainda que alguns pensem que a iniquidade deles justifique sua execução, não é isso que a Bíblia nos ensina quanto ao caráter de Deus. Em Ezequiel 33.11, a Palavra é explícita quanto ao que preceitua o coração do SENHOR, de que Ele não tem prazer na morte do perverso, mas sim em que se converta do seu mau caminho. E, assim sendo, se Deus, o justo juiz de toda a terra, não tem prazer nessas mortes, como podemos nós, cristãos, termos algum tipo de satisfação em atrocidades cometidas em nome de uma suposta justiça divina? Não podemos partilhar desse sentimento sem incorrer em injustiça.
É verdade que as circunstâncias são complexas, mas até mesmo um ateu como Jean Rostand, evidentemente de uma perspectiva diferente, é capaz de visualizar esse quadro de forma lógica. Ele diz: Se alguém mata um homem, é um assassino. Se mata milhões de homens, é um conquistador. Se mata todos, é um Deus. Quero dizer com isso que não obstante os homens serem responsáveis por suas barbáries, Deus, o Soberano, é quem tem poder sobre a vida e a morte de toda humanidade. Na passagem do profeta Ezequiel, o povo de Israel ainda é advertido em forma de questionamento: Por que razão morrereis, ó casa de Israel? Deus os chama ao arrependimento, pois seu prazer está em que se convertam e vivam.
Balas não converterão os perversos. Ofensas não converterão ninguém. O descaso pela vida humana não trará arrependimento ao coração daqueles que desprezam o SENHOR. Nosso papel como atalaias é de testemunhas contra o pecado, chamando os pecadores ao arrependimento. Esse testemunho, firmado na pessoa e obra de Jesus Cristo, o Justo, conta também com a referência a nós, pecadores. Outrora mortos em nossos delitos e pecados, recebemos vida pelo grande amor com que Deus nos amou. Fomos chamados ao arrependimento, e pela graça operada em nossos corações, sendo contemplados com a fé nas promessas de perdão no nome de Jesus. Sim, nós também caminhávamos a passos largos para a condenação, como qualquer outro pecador. Nosso livramento se deu exclusivamente pela graça de Deus. Não é preciso ser o que se poderia chamar de “notório pecador” para merecer a morte (Romanos 6.23), basta ser pecador. E, como todos pecaram, todos foram destituídos da glória de Deus (Romanos 3.23).
Desta sorte, o mesmo Deus que não tem prazer na morte dos ímpios, é também aquele que executa sobre eles o seu juízo. Mas isso não se dá pela forma da morte em si, seja pela execução nas mãos de um criminoso, ou em circunstâncias trágicas. Em Lucas 13.1-5 o Senhor Jesus fala sobre a morte dos galileus pelas mãos de Pilatos, e também dos habitantes de Jerusalém sob a torre de Siloé. É explanado que, independente de como morreram aqueles homens, todos os demais, igualmente, se não se arrependerem, perecerão. O juízo de Deus sobre o pecador se dá na morte em si, e não em sua forma. Logo, não nos cabe julgar como “mais pecadores” aqueles que morrem de forma trágica, atribuindo o juízo a essa forma de morte, uma vez que sem arrependimento, todo pecador perecerá eternamente.
Compartilho uma experiência que tive com relação a esses sentimentos de justiça própria. Há alguns anos um amigo de infância foi brutalmente assassinado. Senti em algumas ocasiões profundo ódio pelo assassino, maquinando as piores formas de punição e morte para ele. Orei a Deus e pedi que tirasse aqueles sentimentos do meu coração, e roguei a Deus por justiça sobre a vida daquele bandido, bem como o seu perdão sobre seus pecados. Não fui incoerente em minha oração, uma vez que a justiça que lhe era devida, ainda que fosse a pena de morte, caso fosse essa a lei desse país, não me isentava de rogar que ele fosse ao mesmo tempo contemplado com o dom do arrependimento para salvação de sua alma. O jovem assassino, depois de julgado e recolhido a prisão por um tempo, recebeu liberdade condicional logo depois. Descumprido a exigência da sua pena, ele morreu pilotando uma moto em alta velocidade de madrugada. Alguns amigos celebraram a morte daquele rapaz, dizendo que Deus havia feito justiça. Confrontei esses amigos com o pensamento que expus nesse texto, sabendo que mesmo Deus tendo trazido juízo sobre esse assassino, isso não podia ser motivo de satisfação para nós.

O bandido que estava ao lado de Jesus na cruz, evidenciou seu arrependimento nesses termos (Lucas 23.39-43). Ele reconheceu que seu lugar era ali, morrendo na cruz por conta de seus crimes. Mas ele também creu que aquele que estava ao seu lado era o Messias, e que nele havia esperança de um reino vindouro. Jesus lhe disse que naquele mesmo dia eles estariam juntos no paraíso. Aquele criminoso morreu de forma trágica, em uma cruz, mas mesmo assim foi salvo mediante a fé no Rei dos reis. Devemos assim testemunhar aos perversos essa mesma esperança no nome de Jesus, que morreu de forma escandalosa a fim de que a morte não fosse mais uma tragédia na vida daqueles que pela fé se arrependem dos seus pecados.   

quarta-feira, 8 de junho de 2016

Humilhação, um aprendizado do Deserto


Quando estudava missões em Brasília, morei no internato do curso. Lá enfrentávamos tensões na convivência entre os alunos. Lembro-me de uma colega sempre repetir em tom altivo para os demais: Não murmurem, aquele que se humilha será exaltado. Naquele momento aquela fala me soava pretensiosa, e, por si só, já me fazia sentir-me humilhado. Apesar de serem palavras bíblicas, sua interlocutora parecia fazer justamente o contrário quando as pronunciava: Ela parecia se exaltar.
Não demorou muito para perceber que, para alguém se humilhar, faz-se necessário que outra pessoa, ou circunstância, se exalta sobre ele. Somos um povo de dura cerviz (Deuteronômio 9.6), não nos dobramos automaticamente. Deus suscita meios para que aprendamos a nos humilhar. Esses meios, sejam pessoas bem-intencionadas ou não, sejam circunstâncias que julgamos injustas ou não, devem ser recebidos com fé nessa palavra: E quem a si mesmo se humilhar será exaltado. (Mateus 23.12).
Foi o próprio Deus quem conduziu o povo no deserto para que fossem humilhados (Deuteronômio 8.2). Ali, por causa do seu pecado de incredulidade (Números 13, 14), por quarenta anos tiveram que se humilhar diante das circunstâncias de vida em um deserto. É evidente que num lugar de completa escassez de recursos, as condições de vida são praticamente nulas. Desta sorte, pela provisão de comida e roupa (8.3, 4), Deus estava ensinando o seu povo a depender e confiar nele. Mais que do pão que descia do céu, é de toda Palavra que procede da boca de Deus que vive o homem (Mateus 4.4).
Tudo o que procede da boca de Deus é verdadeiro e fiel. Sua Palavra nos sustenta tanto na provisão de todos os dias (como no caso do maná), como também na esperança daquele Dia em que seremos recebidos por Ele em seu Reino Prometido (2 Pedro 3.13). Por isso também, ao contrário do soberbo, o justo viverá pela fé (Habacuque 2.4), humilhando-se na dependência da Palavra de Deus.
Existe ainda uma implicação considerável nesse aprendizado do deserto, em conformidade com o que mencionei acima em Mateus 23.12. Não basta que circunstâncias ou as pessoas nos humilhem, é vital que nós nos humilhemos. As circunstâncias apenas ressaltam nossa misérias e fraquezas que geralmente são camufladas em orgulho e soberba. Em circunstâncias favoráveis, somos induzidos a acreditar que em uma força e autossuficiência que simplesmente não existe. Mas essa nuvenzinha de ignorância que nos toma, se dissipa com a realidade de que somos pó e erva do campo, e que com o menor sopro de nosso Criador, podemos ser dissipados como a palha no vento. Quando nos humilhamos de verdade, reconhecemos a realidade do que somos, e não encontramos outra saída em nossas calamidades se não na graça de Deus.
Assim, na verdade, somos humilhados pela graça de Deus, que nos aponta tanto nossa condição decaída por causa dos nossos pecados, como também o amor e a bondade de Deus para conosco. O povo de dura cerviz nos dias do deserto é o mesmo na Igreja de hoje. Nossa peregrinação até que nosso Senhor retorne, deve ser feita de maneira humilde na presença de Deus, sabendo que toda provisão que temos não procede deste mundo, mas da Palavra de sua boca. Assim, somos disciplinados por nosso Pai (8.5) a fim de não nos ensoberbecermos e menosprezarmos seus Mandamentos, pois é justamente por meio deles que temos vida.

      

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Pai, Pão e Perdão


“Então, caindo em si, disse: Quantos trabalhadores de meu pai tem pão com fartura, e eu aqui morro de fome! Vou me levantar, e irei me encontrar com meu pai, e lhe direi: Pai, pequei contra o céu e diante de ti; já não sou digno de ser chamado seu filho, trata-me como um de seus trabalhadores”. (Lucas 15. 17-19)

A Parábola do Filho Pródigo é uma das mais conhecidas da Bíblia. Muitas pessoas se impressionam com esse filho desnaturado que exigiu parte da herança de seu pai, quando este ainda estava vivo. E como se não bastasse tamanha afronta, depois de receber o dinheiro, deixou sua casa para trás, seguiu seu próprio coração para curtir a vida em país distante. Tudo seria apenas uma grande aventura, mas as coisas não saíram conforme o planejado.
Em um primeiro momento, enquanto durou o dinheiro, tudo foi festa. Mas tão logo seus recursos acabaram, também aquele país entrou em crise quando “houve grande fome”. O rapaz ainda conseguiu trabalho, mas era o pior emprego que um judeu podia imaginar: cuidar de porcos. Esses animais eram cerimonialmente falando imundos conforme a sua lei. Mesmo trabalhando com porcos, ele ainda passava fome, chegando ao ponto de querer comer a comida daqueles animais. A que ponto chegou o pobre menino rico! Em um dia, vivia na ostentação, no outro, invejando ração de porco. Porém, foi nessa equação de sua vida que ele chegou a fórmula de seu verdadeiro tesouro.
Ele poderia ter dito assim: Eureca! Meu pai é rico, justo e trata muito bem os seus empegados. Sei que pequei contra Deus e contra meu pai, amando mais o seu dinheiro que ele mesmo, e que por isso nem mereço mais ser chamado de seu filho. Mas também sei que sendo justo e bondoso, meu pai irá me aceitar como um de seus empregados, e então não sentirei falta de pão. Isso é o que chamamos de arrependimento. Ele não somente reconhece seu pecado, mas, reconhece também, que voltar para casa de seu pai é o melhor caminho para se trilhar agora. Ele sabe que apesar do seu grave pecado, de uma forma ou de outra, seu pai o receberá em sua casa.
Ele voltou e foi se encontrar com seu pai, e de fato foi perdoado. Não foi tratado como um empregado, mas recebido de volta em sua casa como o “filho que estava perdido e foi achado, que estava morto, e reviveu”. Não recebeu só comida, mas também casa e roupa lavada. Houve festa com muita alegria. Além de rico, justo e benevolente, aquele pai o amava profundamente. Ele amava seu filho mais do que o dinheiro desperdiçado. Ele amava aquele filho apesar de todo desprezo que havia recebido antes.
Essa parábola não conta a história de um “vida loka” que se arrependeu e achou o caminho de volta pra casa. Não narra uma aventura que no final termina bem. Essa parábola conta a história do Deus que é Pai, rico, justo, e ao mesmo tempo amoroso. Nos fala de um tesouro que não se encontra nas festas, no sexo, na ostentação, nem em nada desse mundo, mas no Pai que sustenta generosamente até os que não são seus filhos.

Longe de Deus existe uma grande fome em nosso coração, que não encontra satisfação em nada que o mundo oferece. Sobreviver da ração de porcos não é vida, mas comer o pão dado por Deus, é Vida. Jesus, o Filho de Deus, é o Pão da Vida (João 6.35), e nele nosso coração é saciado de toda fome. Sem Jesus, estamos perdidos e mortos, mas nele somos encontrados e ressuscitados. Deixe a comida dos porcos para trás, e segue até a casa do Pai, onde não há falta de pão. O Caminho descrito em João 14.6 é verdadeiro. Certamente lá você será tratado como seu filho.      

quarta-feira, 13 de abril de 2016

Sobre o que orar


Quanto a oração, devemos nos lembrar de alguns elementos básicos. Mas antes, o elementar precisa ser dito, de que toda oração deve ser dirigida à Deus, em nome de Jesus, pois quem mais poderia nos ouvir em qualquer lugar e responder eficazmente conforme a Sua vontade, se não o SENHOR?
R. C. Sproul em sua apostila Verdades Essências da Fé Cristã sugere um interessante acróstico "CASA" para nos auxiliar quanto aos elementos de uma oração. Ele significa Confissão, Adoração, Súplicas e Agradecimento.
  1. Precisamos ter em mente que ao orarmos, sabendo que somos pecadores, devemos confessar nossos pecados. É imprescindível nos humilharmos diante de Deus como fez o publicano (Lucas 18.13). Reconhecermo-nos transgressores da Lei, e ao mesmo tempo clamarmos a justiça em Cristo, o nosso Justo advogado (1João 2.1).
  2. Ao adorarmos reconhecemos em Deus sua santidade, justiça, sabedoria, bondade, soberania, poder e demais atributos. Reconhecemos também a nossa pequenez e dependência dele. Nos consagramos a Ele, em obediência para servirmos de todo coração. Não se tratam de elogios vagos, soltos, mas de uma declaração consciente e verdadeira a respeito de quem Deus é, e, consequentemente, do que Ele faz (Romanos 11.33-36).
  3. Nas súplicas temos talvez a parte mais fácil, mas, ainda assim, a mais suscetível ao erro. Naturalmente reconhecemos nossas necessidades e as colocamos diante de Deus, como de fato devemos fazer. Mas é preciso entender que estes pedidos não se restringem às nossas necessidades materiais ou imediatas. Em nossas súplicas devemos priorizar o Reino e a justiça ante as demais coisas. Antes do “pão nosso de cada dia”, a santificação do Nome e a vinda do seu Reino (Mateus 6. 9-11).
  4. A gratidão final se dá pela fé, na certeza de que tudo que Deus faz e fará é segundo sua imensa bondade, graça e misericórdia. Devemos ser gratos não simplesmente pelas respostas positivas que talvez venhas obter, mas pelo simples fato de Deus nos ouvir. Sim, o Alto e Sublime Deus ouve aos pecadores por causa do nome do Seu Filho. Devemos agradecer antes de tudo pela Vida que nos concedeu, uma vez nada é mais necessário. Se nos concederá ou não aquilo que buscamos para nós mesmos, isso não é mais precioso que o fato de já nos ter buscado para Si (Mateus 6.5-8).   


quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

10 anos atrás... 10 Anos depois... 1 década ao seu lado


Dedico esse texto a você, Candice, mulher que Deus me deu, minha auxiliadora idônea, esposa
prudente, mulher da minha mocidade.

Hoje completamos dez anos casados. Foi em 21 de janeiro de 2006 que deixamos nossos pais, e nos unimos, tornando-nos uma só carne. As misericórdias do Senhor tem se renovado a cada manhã. Ele tem edificado nossa casa, e guardado nossa cidadela. Também nos concedeu filhos, que são sua herança.
Tenho dez motivos de alegria que demonstram como Deus tem sido bom comigo através de você, nesses dez anos até hoje:

1. Dez anos atrás éramos 2, e então Deus nos fez 1.
2. Dez anos atrás era muito triste me despedir toda noite e voltar para casa, hoje é muito bom ouvir seu "boa noite", e dormir ao seu lado.
3. Dez anos atrás eu me sentia mais forte e menos cansado, mas sozinho, hoje, menos forte e mais cansado, me sinto realizado em tudo que faço ao seu lado.
4. Dez anos atrás perseverei até te amar, hoje amo perseverar por você.
5. Dez anos atrás não sabia o que era amar um filho, hoje amo os dois filhos que Deus nos deu.
6. Dez anos atrás minhas lutas eram solitárias, hoje, ao seu lado, tenho sempre seu auxílio.
7. Dez anos atrás eu não tinha uma casa edificada, hoje, pelas suas mãos, edificamos a nossa.
8. Dez anos atrás eu sabia bem menos a respeito do amor de Deus, hoje, ao seu lado e dos nossos filhos, Deus me ensina intensamente como amar e ser amado.
9. Dez anos atrás eu tinha mais tempo para mim, e isso era um vazio muito grande, hoje nosso tempo preenche meu coração com um significado maior e permanente.
10. Dez anos atrás eu desejava estar ao teu lado até o fim, hoje continuo desejando estar ao teu lado até o fim, mas acima de tudo, para o fim que Deus nos uniu: a sua glória, eternamente. Amém.

"...alegra-te com a mulher da tua mocidade". Essa é a benção de Deus que desejo para nós, Amor do Meu Coração, desde dez anos atrás, até que a morte nos separe.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Domingo eu preguei - A competência do Pai sobre os tempos, e a nossa sobre o testemunho


Quem já viajou de carro com crianças já teve a experiência de ouvir ad infinitum perguntas como: "Já estamos chegando?"; "Já chegou?"; "Já está perto?". Essa ansiedade é compreensível pela vontade de se verem livres dos cintos e do carro. Porém, essa curioso anseio sobre o tempo de chegada é completamente inútil. Não mudará em nada o trajeto estabelecido, não adiantarão nem tardarão a viagem, apenas tornam as horas mais difíceis de suportar.
O Novo Testamento por vezes compara os crentes com meninos (1 Coríntios 3.1; Efésios 4.14; Hebreus 5.11-13), mostrando que existem casos de atraso no amadurecimento proposto na vida cristã. Esse crescimento não provém do acúmulo de conhecimento teológico, ainda que esteja associado a ele. Creio que a maturidade cristã tem a ver com o equilíbrio que encontramos entre nossa vida com seus desafios nesse mundo, e a confiança depositada na Palavra. 
No último domingo de 2015, expus Atos 1. 6-11, considerando precisamente o antídoto para a meninice de alguns travestido de ansiedade. Como crianças em uma longa viajem de carro, somos tentados a pensar que, de conformidade com nossas projeções, podemos apressar a vinda do Senhor. Todos anos, previsões feitas por otimismo ingênuo, ou por superstições, tomam conta dos dias que antecedem o 31 de dezembro.
Nesse início de seu segundo volume, Lucas vinha falando resumidamente dos últimos dias do Senhor junto aos discípulos sobre a terra (v.1-2). Sua morte e ressurreição foram reafirmadas, e num período de pelo menos 40 dias o Senhor esteve junto deles, tratando de assuntos concernentes ao Reino (v.3). Uma importante ordem é dada então: Que eles não se ausentassem de Jerusalém, mas esperassem até o cumprimento da promessa do Pai, reproduzida pelo próprio Cristo: Os discípulos receberiam o batismo com o Espírito muito em breve (v.4-5).  
Nesse contexto os discípulos o perguntam no versículo 6 sobre o tempo da restauração do reino á Israel, o que, na resposta de Jesus, nos dá a competência do Pai e de seus discípulos: Os tempos pertencem a autoridade de Deus, e a nós a responsabilidade de testemunharmos do Senhor até os confins, até que Ele venha.

1. O que concerne a Deus. A Pergunta trazida a tona reflete um pouco de imaturidade ainda vigente entre os discípulos. Sabemos que o anseio messiânico dos judeus era a restauração do Reino a Israel. Suas projeções os lançavam aos dias do rei Davi, sua glória e poder. Acreditavam portanto que a promessa do Pai os remeteria ao domínio político que um dia existiu. Não posso responder pelo que pensou Jesus, mas sua resposta inicialmente áspera me faz imaginar que não ficou muito satisfeito com o teor da pergunta. Creio que o problema não era tanto a questão do "quando", uma vez que os discípulos já o haviam arguido quanto a sua manifestação (Mateus 24.3; Lucas 21.7), mas a insistência de pensar que Israel estava no centro da promessa do Pai.
A resposta de Jesus a primeira instância nos remete a Deuteronômio 29.29, sobre as coisas não reveladas que pertencem a Deus. Apesar de não negar objetivamente a "restauração do reino a Israel", Jesus deixa claro que o conhecimento de tempos e épocas (chronos e kairós) é reservado  ao Pai por sua exclusiva autoridade. Somos instados nessa resposta a nos recolhermos ao nosso lugar, sabendo que isso não nos compete, mas ao Pai, que detêm, exclusivamente, o conhecimento concernente o tempo e as ocasiões específicas. Muitos se aventuraram ao longo da história da Igreja em tentativas frustradas de prever a vinda de Cristo, ou até mesmo de indicar outros acontecimentos futuros. Esses falsos profetas levaram milhares ao engano, e até hoje arrastam muitos com suas previsões pretensiosas. Essas previsões, quase sempre triunfalistas, criam todo fim de ano expectativas falsas, que caso não seja substituído pela frustração da realidade, são seguidas por uma alienação cada vez maior.Jesus nos advertiu que a estes não podemos seguir (Mateus 24.4-5, 11, 23-26).

2. O que concerne a nós. Mas, graciosamente, o Senhor nos fala com maior precisão sobre a promessa que os discípulos deviam esperar em Jerusalém (v.4). Enquanto o Pai tem exclusiva autoridade (exousia - regência ou domínio), os discípulos receberiam poder (dunamis - força ou habilidade) oriundo do Espírito. Esse poder não é nosso, mas derivado da terceira pessoa da Trindade. O poder alcançado na descido do Espírito sobre eles faria deles testemunhas de Jesus. As implicações disso são distorcidas por muitos nos movimentos pentecostais. O poder e o testemunho de Cristo têm a sua fonte na pessoa do Espírito Santo. O descer do Espírito sobre os discípulos é a promessa do Batismo com o Espírito. Essa promessa do Pai, é ratificada e executada pelo Filho não é uma segunda benção, exclusiva para alguns crentes que buscam mais o Espírito. Assim como João batizou com água, o Cristo batiza com o Espírito, todos os crentes, em cumprimento da promessa do Pai, para o propósito de seu testemunho. Desta sorte, todo crente verdadeiramente nascido de novo, pela obra regenerativa do Espírito (João 3.6) é, a partir do Pentecostes em Atos 2, capacitado pelo mesmo Espírito para ser testemunha (martusde Jesus. Esse é o propósito estabelecido no batismo com o Espírito, a capacitação dos crentes no testemunho (martureo) do seu Senhor (João 15.26-27).

3. Até onde e quando? Enquanto a preocupação dos discípulos era a restauração do Reino à Israel, tem este como o fim, ao menos político, a resposta de Jesus agora nos conduz a um outro alvo temporal: os confins da terra. Jerusalém, a cidade de Davi, onde, das portas para fora (Hebreus 13. 12-14), o Filho de Deus sofreu nossa morte, não era a linha de chegada, mas o ponto de partida. As quatro referências dadas aqui (Jerusalém, Judéia, Samaria, até aos confins da terra) tem seu cumprimento ao longo do livro de Atos (capítulos 2, 8, 10, 19). Mas nesse caso, me chama atenção que os "confins da terra" não é uma localização precisa, mas até onde o evangelho precisa chegar, sendo então todo lugar. A perspectiva do Reino não é domiciliar de uma nação, ou de um povo, mas dos quatro cantos da terra (Apocalipse 7.9). É necessária nossa compreensão disso para não reduzirmos a Igreja a nossa perspectiva, ou tempo. O testemunho de Cristo, que é o evangelho, perfaz a expansão do Reino anunciado. Essa compreensão, histórica e cultural, serve para desfazer qualquer pretensão pessoal no sucesso do crescimento da Igreja de Cristo. A Igreja cresce ao longo dos séculos, nas mais inóspitas sociedades, pelo exclusivo poder do Espírito que transforma homens perdidos, como aqueles discípulos "ensimesmados" em testemunhas de Jesus.
Mas existe um tempo estabelecido para que essa expansão chegue ao seu limite. Ao ser assunto aos céus, os que testemunhavam este evento extraordinário ficaram, naturalmente, perplexos, mesmo após Jesus ser oculto em uma nuvem. Não sei se tinham a expectativa de o verem novamente naquele instante, ou o quê; fato é que anjos surgem para anunciar-lhes que Ele voltaria da mesma forma que partiu, a vista de todos os olhos. Assim como em sua anunciação, nascimento, tentação, paixão e ressurreição, os mensageiros celestes de Deus surgem para falar aos homens sobre Jesus, lembrando-os que Ele voltaria aqui. Não convinha que os discípulos ficassem ali, com torcicolo, a espera de um retorno imediato. Eles tinham o que fazer em Jerusalém, e depois além. Deviam saber sim, que aquele de quem testemunhariam voltará um dia, mas que não antes de se cumprirem suas Palavras quanto ao Fim dos tempos. Pedro nos fala em esperar e apressar a vinda de Cristo (2Pedro 3.12), o que significa não somente o aguardo simples, mas o forte anseio sobre isso. Isso reorienta nossas prioridades, tendo o Reino e sua Justiça em primeiro lugar na ordem de nossas vidas (Mateus 6.33). Especulações infundadas sobre o retorno de Cristo, contribui contra a anunciação do seu Reino, uma vez que confunde aquilo que nos foi revelado na Palavra, com o que pressupões os supersticiosos que desejam fundar seus próprios reinos.

Portanto, devemos ter em mente o que nos foi anunciado sobre a volta de Jesus, mas ao mesmo tempo nossas mãos, pés, e, principalmente, bocas, na proclamação do evangelho. Essa é a nossa competência. Confiar que o Reino estabelecido pelo nosso Senhor, maior que nossas expectativas, tem sua manifestação final e total a seu tempo é um exercício de fé e esperança. Todavia, em nosso tempo, em todo tempo, em dias maus, como os do ano de 2015, ou em nebulosos, como serão os de 2016, devemos nos apresentar como testemunhas de Cristo, capacitados pela pessoa do Espírito que habita em nós, e dá poder para tanto.
Finalizo assim esse texto com as duas últimas estrofes e o coro do Hino 105 do Hinário Novo Cântico - A Certeza do Crente:

Não sei o que de mau ou bem/ é destinado a mim;
Se maus ou áureos dias vêm,/ até da vida o fim.

Não sei se ainda longe está,/ ou muito perto vem,
A hora em que Jesus virá,/ na glória que Ele tem.

Mas eu sei em quem tenho crido,/ e estou bem certo que é poderoso!
Guardará, pois, o meu tesouro,/ até ao dia final.

Deus assim abençoe seus discípulos verdadeiros no ano de 2016, como tem abençoado a toda sua Igreja ao longo dos séculos, até a sua consumação.