
Quando em 2 Samuel 12 o rei Davi
foi procurado pelo profeta Natã com um "caso" para ser julgado (essa
era uma das funções do rei, julgar os casos em Israel), com aquela historinha
da cordeirinha do pobre que foi comida pelo vizinho rico que recebeu um
hóspede; Davi, mais que depressa, sentenciou o culpado muito além do que era
prescrito. Disse o rei: “Tão certo como vive o Senhor, esse homem nasceu para
morrer”! Essa sentença não era justa conforme a Lei. Um ladrão que roubava não por
causa da fome, mas por usura, a sentença era aquela que foi proferida em
seguida: “Restitua quatro vezes mais”. Me parece que Davi, num arroubo de
justiça, achou-se se achou acima do que era prescrito na lei.
Sabemos que na
sequência, Natã revela que esse homem na verdade era o próprio Davi, cujo crime
era muito pior. O rei não roubou um animal de estimação de um pobre para fazer churrasco,
mas adulterou com Bate-Seba, e assassinou seu marido Urias de maneira fria.
Dois crimes qualificados em Israel, sobre os quais a punição era a morte sem chance
de apelação. Davi havia julgado um crime menor com ira, sentenciando de maneira
excessiva o criminoso, não de acordo com a lei, enquanto ele mesmo, que havia
cometido crimes de sangue, era de fato, segundo a Lei, réu de morte.
Até entendo
que ao ouvir a história, o rei que tinha sido pastor quando jovem, e sendo o
último filho de uma linhagem se sete, se viu no lugar do pobre roubado, e por
isso julgou com ira, e não de conformidade com a lei. Nós, da mesma sorte,
muitas vezes, não julgamos conforme a Palavra de Deus, mas julgamos conforme
nossas conveniências, conforme a nossa história.
Todavia, Deus
surpreende Davi ao sentencia-lo com vida. Ao ouvir sua confissão: "Pequei
contra o SENHOR", Natã emenda: "Também o SENHOR te perdoou; não
morrerás". É evidente a misericórdia de Deus sobre Davi. O Rei que julga
não somente Israel, mas toda terra, que escreveu a Lei com os próprios dedos, e
que ali disse que o adúltero, e o assassino deviam morrer, aparentemente
contradiz sua própria Palavra. É assim mesmo? Certamente que não!
Esse mesmo Rei
celeste viria a terra, fazendo-se homem, sendo chamado de Filho de Davi. Esse
mesmo Filho de Davi, mesmo cumprindo perfeitamente a Lei, viria morrer na cruz em
lugar dos pecadores, o que incluía o próprio Davi. Deus não anulou ou
contradisse sua própria Lei, antes a cumpriu, como quando disse: não vim
revogar a lei, mas a cumpri-la (Mateus 5.17, 18).
Essa é a
diferença entre nós e Deus quando se trata da Lei. Queremos usá-la para nossos
arroubos de justiça, segundo nossas conveniências, que não correspondem ao que
Deus quer. Queremos ser mais justos que Deus, quando na verdade a ira do homem
não produz a justiça de Deus (Tiago 1.20). Mas a realidade é que sempre
quebramos a Lei, e somos por isso culpados de morte. Enquanto isso, Deus, o Rei
justo e misericordioso, que se fez homem, que cumpriu perfeitamente a Lei, foi,
em nosso lugar, sentenciado à morte. Eis a ironia dos fatos, o escândalo do
evangelho: Nós que transgredimos sua lei, e que por isso éramos merecedores da
morte, fomos contemplados não só com perdão, mas com a Vida Eterna, por meio daquele
que cumpriu a lei perfeitamente.
Apesar de
muitas vezes nos identificarmos com Davi quando este venceu Golias, somos na
verdade como ele quando se deitou com Bete-Seba, e quando matou Urias. Somos
como ele quando repreendido por Natã, ouvirmos o evangelho desmascarado nosso
pecado. Espero que sejamos também como ele, quando cremos nesse mesmo evangelho
que nos promete o perdão de Deus sobre nossos pecados, afirmando que ao invés
de morrermos, o Filho de Davi morreu em nosso lugar.
Um comentário:
Obrigado Pastor por ser benção em nossas vidas!
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