
quinta-feira, 31 de dezembro de 2009
2009, o ano que não acaba tão cedo.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009
O Menino baiano e as Agulhas das Religiões Afrobrasilieras

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009
Qual o problema com os rótulos?

Muitas pessoas não gostam de ser "rotuladas". Como se fossem livres de qualquer identidade social ou influencia filosófica, essas pessoas supostamente não rotuláveis acreditam encontrar-se a parte de qualquer grupo previamente reconhecido. Pessoalmente questiono esse tipo de postura incógnita.
Entendo por rótulos toda e qualquer definição maior que o indivíduo assim identificado, e que o relaciona a outra pessoa ou a um grupo, e conseqüentemente, a uma linha de pensamento sustentada por outros. A meu ver o rótulo serve como um atalho na identificação filosófica da pessoa. Não se trata de uma completa definição de alguém (o que considero impossível em uma palavra), mas parte do que se pode atribuir a um indivíduo quanto à postura, comportamento ou conceitos.
Um rótulo em tese deve facilitar um diálogo adiantam o tempo que seria gasto em explicações acerca dos posicionamentos em debate. Sem contar que através dos rótulos podemos usar de uma clareza maior, o que torna um debate mais leal entre as partes, não dando ocasião a subterfúgios ou dissimulações. A pessoa assume quem e o que crê.
Às vezes fico pensando a respeito dos que se acham "inrrotuláveis". O que eles devem achar de si? Tenho algumas teorias diversas. Inicialmente sou da opinião de que existe um grande orgulho que não lhes permite associarem-se posicionamentos pré-estabelecidos. É como se a pessoa não pudesse deixar de ser conhecida pelo próprio nome, como se sua máxima referência foi si mesmo. Esse orgulho é um grande complexo de originalidade, uma enganosa concepção de independência de si para com o resto do mundo. Vivemos numa certa altura da história, onde ser original é bem improvável. Idéias, filosofias, concepções, modelos e estruturas já estão bem definidas, e as que surgem nunca são livres de influências ou referências. Portanto, porque um indivíduo se acharia acima de toda ou a parte de toda e qualquer nomenclatura? Só um ego maior que o mundo poderia imaginar-se tão original.
Existe ainda uma questão de sinceridade e coragem. Uma pessoa que foge de um rótulo tem passe livre para migrar e posicionar-se de acordo com a conveniência. Geralmente usamos o termo "político" para esse tipo. Os políticos brasileiros servem de paradigma nesse caso dado a constante mudança de partidos e posicionamentos. Não digo que mudar seja um crime, mas quando tais mudanças são constantes e contraditórias, é perceptível que se trata de conveniências e nunca de convicções. Coragem deve respaldar-se na convicção sobre algo, e a sinceridade leva o individuo a posicionar-se abertamente para quais quer que sejam as ofensivas contrárias. Nesse caso não há como escorregar e moldar-se ao pensamento ou a estrutura dominante: paga-se o preço por aquilo que se acredita.
Uma última teoria é irmã da segunda: a pura falta de convicção. Nesse caso o fator não se dá por desonestidade, mas por deficiência intelectual mesmo. Algumas pessoas julgam desnecessário qualquer convicção pessoal, e posicionam-se a parte de qualquer orientação que demande de estudo e profundidade. Eles realmente não acreditam no valor de um conceito, e afirmam com isso que qualquer definição pré-via é sinal de arrogância. Na prática isso subsídio para o famoso "não julgar". Admiti-se que cada um tem sua linha de pensamento, mas que isso não pode ser objeto de discussão. É a "verdade" de cada um, que no fim não pode ser apresentada de forma objetiva para que ninguém se sinta julgado ou inquirido a responder.
Creio que todos estes rótulos para os não rotuláveis podem acontecer individualmente, ou com maior ou menor ascensão de cada um. O orgulho, a covardia e a ignorância são rótulos dos não rotuláveis. Eles desprezam por um motivo ou por outro o que é corrente. Note que não estou dizendo que todo pensamento pré-elaborado é válido, e que não deve existir uma identidade pessoal construída com esforço próprio. Mas creio que somos marcados historicamente pelos que vieram antes, e que deles herdamos pelo menos a base de nossas proposições. Citá-los ou nos identificarmos com os que vieram antes não pode ser motivo de vergonha. É fato também que não podemos nos anular em razão de qualquer pensamento ou vulto histórico, como papagaios de pirata. Mas relativamente falando, um bom papagaio de pirata ainda é melhor do que uma lata genérica de idéias. Da mesma sorte devo acrescentar que tornar um rótulo motivo de orgulho, e anular-se em razão do mesmo, não acrescenta nada para o enriquecimento das idéias. O rótulo deixa de ser um atalho e se torna um disfarce para a fraqueza de quem não é solido em suas idéias, e vale-se exclusivamente do que é alheio.
Sinto-me (bem) acompanhado por Charles Spurgeon quando nos diz:
Alguns sobre o pretexto de serem ensinados pelo Espírito de Deus, se recusam a ser instruídos por livros ou por homens vivos. Isso não é honrar ao Espírito de Deus. É um desrespeito para com Ele, pois Ele dá a alguns dos seus servos mais luz que a outros - e é óbvio que Ele o faz - então eles têm obrigação de dar essa luz a outros, e a usá-la para o bem da igreja. Mas se a outra parte da igreja se recusa a usar essa luz, com que finalidade o Espírito de Deus a daria? Isso implicaria que existe um erro em alguma parte da economia dos dons e das graças de Deus, que é administrado pelo Espírito Santo.
Sendo assim, resistir ao chamado rótulo, é resistir a outro nome que tenha maior destaque que o seu. É não admitir a relevância que outros têm ao longo da história. É não querer comprometer-se, ou entender que qualquer definição maior a qual se engaja é altivez. Tudo isso é inútil, pois ainda que não sejam conceitos filosóficos ou estruturais, o orgulho, a covardia e o anti-intelectualismo são rótulos do caráter. É melhor admitir rótulos sobre as idéias que ser rotulado por motivos que não se pode debater, mas apenas lamentar.