quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Qual o problema com os rótulos?



Muitas pessoas não gostam de ser "rotuladas". Como se fossem livres de qualquer identidade social ou influencia filosófica, essas pessoas supostamente não rotuláveis acreditam encontrar-se a parte de qualquer grupo previamente reconhecido. Pessoalmente questiono esse tipo de postura incógnita.


Entendo por rótulos toda e qualquer definição maior que o indivíduo assim identificado, e que o relaciona a outra pessoa ou a um grupo, e conseqüentemente, a uma linha de pensamento sustentada por outros. A meu ver o rótulo serve como um atalho na identificação filosófica da pessoa. Não se trata de uma completa definição de alguém (o que considero impossível em uma palavra), mas parte do que se pode atribuir a um indivíduo quanto à postura, comportamento ou conceitos.


Um rótulo em tese deve facilitar um diálogo adiantam o tempo que seria gasto em explicações acerca dos posicionamentos em debate. Sem contar que através dos rótulos podemos usar de uma clareza maior, o que torna um debate mais leal entre as partes, não dando ocasião a subterfúgios ou dissimulações. A pessoa assume quem e o que crê.


Às vezes fico pensando a respeito dos que se acham "inrrotuláveis". O que eles devem achar de si? Tenho algumas teorias diversas. Inicialmente sou da opinião de que existe um grande orgulho que não lhes permite associarem-se posicionamentos pré-estabelecidos. É como se a pessoa não pudesse deixar de ser conhecida pelo próprio nome, como se sua máxima referência foi si mesmo. Esse orgulho é um grande complexo de originalidade, uma enganosa concepção de independência de si para com o resto do mundo. Vivemos numa certa altura da história, onde ser original é bem improvável. Idéias, filosofias, concepções, modelos e estruturas já estão bem definidas, e as que surgem nunca são livres de influências ou referências. Portanto, porque um indivíduo se acharia acima de toda ou a parte de toda e qualquer nomenclatura? Só um ego maior que o mundo poderia imaginar-se tão original.


Existe ainda uma questão de sinceridade e coragem. Uma pessoa que foge de um rótulo tem passe livre para migrar e posicionar-se de acordo com a conveniência. Geralmente usamos o termo "político" para esse tipo. Os políticos brasileiros servem de paradigma nesse caso dado a constante mudança de partidos e posicionamentos. Não digo que mudar seja um crime, mas quando tais mudanças são constantes e contraditórias, é perceptível que se trata de conveniências e nunca de convicções. Coragem deve respaldar-se na convicção sobre algo, e a sinceridade leva o individuo a posicionar-se abertamente para quais quer que sejam as ofensivas contrárias. Nesse caso não há como escorregar e moldar-se ao pensamento ou a estrutura dominante: paga-se o preço por aquilo que se acredita.


Uma última teoria é irmã da segunda: a pura falta de convicção. Nesse caso o fator não se dá por desonestidade, mas por deficiência intelectual mesmo. Algumas pessoas julgam desnecessário qualquer convicção pessoal, e posicionam-se a parte de qualquer orientação que demande de estudo e profundidade. Eles realmente não acreditam no valor de um conceito, e afirmam com isso que qualquer definição pré-via é sinal de arrogância. Na prática isso subsídio para o famoso "não julgar". Admiti-se que cada um tem sua linha de pensamento, mas que isso não pode ser objeto de discussão. É a "verdade" de cada um, que no fim não pode ser apresentada de forma objetiva para que ninguém se sinta julgado ou inquirido a responder.


Creio que todos estes rótulos para os não rotuláveis podem acontecer individualmente, ou com maior ou menor ascensão de cada um. O orgulho, a covardia e a ignorância são rótulos dos não rotuláveis. Eles desprezam por um motivo ou por outro o que é corrente. Note que não estou dizendo que todo pensamento pré-elaborado é válido, e que não deve existir uma identidade pessoal construída com esforço próprio. Mas creio que somos marcados historicamente pelos que vieram antes, e que deles herdamos pelo menos a base de nossas proposições. Citá-los ou nos identificarmos com os que vieram antes não pode ser motivo de vergonha. É fato também que não podemos nos anular em razão de qualquer pensamento ou vulto histórico, como papagaios de pirata. Mas relativamente falando, um bom papagaio de pirata ainda é melhor do que uma lata genérica de idéias. Da mesma sorte devo acrescentar que tornar um rótulo motivo de orgulho, e anular-se em razão do mesmo, não acrescenta nada para o enriquecimento das idéias. O rótulo deixa de ser um atalho e se torna um disfarce para a fraqueza de quem não é solido em suas idéias, e vale-se exclusivamente do que é alheio.


Sinto-me (bem) acompanhado por Charles Spurgeon quando nos diz:
Alguns sobre o pretexto de serem ensinados pelo Espírito de Deus, se recusam a ser instruídos por livros ou por homens vivos. Isso não é honrar ao Espírito de Deus. É um desrespeito para com Ele, pois Ele dá a alguns dos seus servos mais luz que a outros - e é óbvio que Ele o faz - então eles têm obrigação de dar essa luz a outros, e a usá-la para o bem da igreja. Mas se a outra parte da igreja se recusa a usar essa luz, com que finalidade o Espírito de Deus a daria? Isso implicaria que existe um erro em alguma parte da economia dos dons e das graças de Deus, que é administrado pelo Espírito Santo.


Sendo assim, resistir ao chamado rótulo, é resistir a outro nome que tenha maior destaque que o seu. É não admitir a relevância que outros têm ao longo da história. É não querer comprometer-se, ou entender que qualquer definição maior a qual se engaja é altivez. Tudo isso é inútil, pois ainda que não sejam conceitos filosóficos ou estruturais, o orgulho, a covardia e o anti-intelectualismo são rótulos do caráter. É melhor admitir rótulos sobre as idéias que ser rotulado por motivos que não se pode debater, mas apenas lamentar.

4 comentários:

Robson Rosa Santana disse...

Caro colega Adalberto, veja que tu és filósofo (rsrsrs). Achei muito boa a sua colocação acerca de pessoas que não gostam de rótulos ou pelos menos de uma teologia/filosófia que as dirige ou governa suas idéias e açoes. A única ressalva que faço é quanto à precipitação. Às vezes nem conhecemos mais de perto algumas pessoas e agimos com relação a elas com preconceito, por causa de preconcepções erradas acerca da pessoa. Exemplo: alguns colegas presbiterianos, por causa se seu jeito mais extrovertido e outras características são chamados de pentecostais. Sendo que ser pentecostal é a enfase em uma doutrina e práticas distintas. Outros são chamados de liberais, neo-ortodoxos, semi-católicos, etc. Ou seja, o rótulo nem engloba tudo o somos, em termos de pensamentos e ações.

Continua expressando aquilo que está em seu coração. Pois, pelo menos aqui na terra, o que ficam são nossos reigistros.

Quanto à eternidade futura, aí é outra história.

Adalberto A. R. Taques disse...

Sergipão... nessa foto vc está a cara do Geraldo Alkimin... hehehe.
De fato, rotular é perigoso, mas ainda assim não deixa de ser um recurso. Creio q qdo o rótulo é legítimo, ele não vêm de uma fonte só. Qdo somos rotulados de maneira injusta, devemos justamente nos posicionarmos de maneira clara.
Abs!!!

Natássia Maia disse...

Adalberto estava na net procurando justamente uma imagem para colocar no meu post q tbm fala sobre rótulos, então achei o seu blog. É muito interessante sua colocação, porém não concordo com tudo.

Você quis dizer que pessoas q não concordam com os rótulos e acreditam q eles não deveriam existir se refugiam com essa idéia para não se responsabilizarem com o que pensam e com o que acreditam..como pessoas "políticas"?

Não sei se entendi bem, mas pelo que vi, a sua colocação nega o fato de q somos pessoas em transformação, pessoas que podem sim mudar de opinião e posicionamento, não é verdade? Mesmo que sigam uma corrente de pensamento.

Não estou dizendo que os rótulos n existem e que estamos isentos de cair na armadilha de rotular, mas minha opinião, particularmente, os rótulos não são bons e na maioria das vezes são equivocados.

Você, como cristão, como pude perceber, sabe que o rótulo não existe quando uma pessoa muda de caminho, qd, por exemplo, entende o senhor como salvador da sua vida e passa não ser como era, então o rótulo muda? Então na nossa vida usamos milhares e milhares de rótulos?
Eu, sinceramente acredito que somos serem complexos, personagens redondos, cheios de características que mudam com cada circunstâncias, idade, enfim..e um rótulo é pouco para nos definir.

Grande abraço ;

Adalberto A. R. Taques disse...

Olá Natássia;
Obrigado pelo comentário.
Desculpe se generalizei de alguma forma o tratamento aos que se opõe aos rótulos, não era essa a minha intensão. Eu apenas quis mostrar q o rótulos podem ser úteis da seguinte forma:
"Ao meu ver o rótulo serve como um atalho na identificação filosófica da pessoa. Não se trata de uma completa definição de alguém (o que considero impossível em uma palavra), mas parte do que se pode atribuir a um indivíduo quanto à postura, comportamento ou conceitos."
Note que o ponto não é definir alguém completamente, mas apenas indicar algo que pode ser definido a parte do indivíduo.
Também não quis dizer q pessoas não podem mudar de idéia, mas creio q se o fizerem, q assumam a mudança explicitamente, não "escorregando" de um pensamento para outro, tentando incobrir suas deficiências em suportar um pensamento.

Espero contar com outros comentários seus e outros textos.
Abs... Deus abençoe!