quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Sobre o PARTO HUMANIZADO... ou... Se querem Respeito, Respeitem!


Tenho acompanhado mobilizações pelo chamado parto humanizado, e visto que o discurso é extremamente áspero contra os profissionais obstetras. Termos como frieza, violência, mesquinhez relacionadas a obstetrícia, dão a entender que essa categoria médica é formada por mercenários. O discurso radical dá a entender que o acompanhamento médico é um mal desnecessário, ou, quando em situações de risco, um mal necessário. Que o parto por cesária é uma violência condenável, como se fosse uma moléstia. Para melhor compreensão sobre o que quero tratar neste post, segue uma descrição dada pelo próprio movimento destacado neste site.


As bandeiras da MARCHA PELA HUMANIZAÇÃO DO PARTO são:
1. Que a Mulher tenha o direito de escolher como , com quem e onde deve parir;
2. Pelo cumprimento da Lei 11.108, de abril de 2005. Que a mulher tenha preservado o direito ao acompanhante que ela desejar na sala de Parto;
3. Que a mulher possa ter o direito de acompanhamento de uma Doula em seu trabalho de parto e parto;
4. Que a mulher, sendo gestante de baixo risco, tenha o direito de optar por um parto domiciliar planejado e seguro, com equipe médica em retaguarda caso necessite ou deseje assistência hospitalar durante o Trabalho de Parto;
5. Que a mulher tenha o direito de se movimentar livremente para encontrar as posições mais apropriadas e confortáveis durante seu trabalho de parto e parto;
6. Que a mulher possa ter acesso a metodos naturais de alívio de dor durante o trabalho de parto, que consistem em: massagens, banho quente, compressa, etc;
7. Contra a Violência Obstétrica e intervenções desnecessárias que consistem em: comentários agressivos, direcionamento de puxos, exames de toque, episiotomia, litotomia, etc;
8. Pela fiscalização das altas taxas de cesáreas nas maternidades brasileiras e que as ações cabíveis sejam tomadas no sentido de reduzir essas taxas;
9. Pela Humanização da Assistência aos Recém-Nascidos, contra as intervenções de rotina;
10. Que a mulher que optar pelo parto domiciliar tenha direito ao acompanhamento pediátrico caso deseje ou seja necessário.

Voltando...
Minha esposa e meu pai são obstetras. Desde que me entendo por gente, a minha vida toda até hoje, acompanho o empenho desses médicos, sua dedicação, sua luta exaustiva para que crianças nasçam com toda segurança. Vejo a tristeza deles quando algo acontece fora do que esperava em uma conduta simples. Eles não são máquinas de extrair bebês, são pessoas que dedicaram anos de estudo e perícia para não por a perder duas ou mais vidas que lhe são confiadas. Aprendi com meu pai a detestar o aborto. Certa feita quando lhe ofereceram dinheiro para tirar uma criança, ele deixou claro que estudou para salvar vidas, e não tirá-las. Sou grato a Deus pela vida dele e de minha esposa, pela graça concedida a eles em sua profissão.

Em conformidade com a onda de "marchas" desses dias, com essa nomenclatura controversa de Parto Humanizado - afinal, seria a cesariana um parto desumano? - esses militantes querem arrastar profissionais responsáveis para suas decisões individuais. Querem dispor de um profissional médico para, em caso de alguma coisa der errada, ser ele o acionado como salvador da pátria. Ao que tudo indica, boa parte das mulheres que aderem a essa moda, são pessoas financeiramente confortáveis, e que acreditam que em casa dispõe de tudo para receber a criança, o que não é a realidade de todas mulheres. De fato, pode até ser que em alguns casos o parto natural ocorra sem nenhuma complicação, e que em qualquer lugar a criança nasça sem problemas. Seria excelente se fosse assim sempre, mas o caso é que não é. Os hospitais, e o acompanhamento médico, são os recursos mais indicados pela segurança que representam. Se não fosse assim, a sociedade não caminharia para esse entendimento ao longo de séculos, não "inventariam" os hospitais, nem haveria o aprimoramento da medicina em suas diversas áreas.

Quando alguém ataca essa ideia, sugerindo que os obstetras só pensam em dinheiro, creio eu que estão fazendo uma leitura pautada em si mesmos. Alguns dos que defendem essa bandeira, sendo até profissionais da saúde que não chegaram a tornar-se médicos, cobram valores elitizados para "acompanhar" as gestantes, e se tornarem naquele instante "melhores amigas". Creio que se a ideia é incentivo emocional e psicológico, por uma custo previamente acertado, chamem um psicólogo. Mas se é prestar solidariedade, esquentar água, fazer massagem; é o caso de chamar mães, irmãs, cunhadas, amigas, que podem desempenhar esse papel tranquilamente sem nada cobrar.

Penso que se a opção pessoal é parir de cócoras, na banheira, na fazenda, ou em uma casinha de sapê, que essas mães o façam sem exigir que os obstetras se responsabilizem por sua provável irresponsabilidade, uma vez que sem os recursos de um hospital, seria extremamente complicado reverter um eventual quadro grave que se apresentasse. Entendo também que em função de um certo desajuste emocional e psicológico que as mulheres podem atravessar durante a gravidez*, e principalmente no momento do parto, não é seguro confiar a elas a sua decisão de "parir onde, quando e com quem querem". Em suma, se querem realmente trazer ao mundo seus filhos como nos tempos das parteiras, que dispensem de vez os médicos, e assumam toda a responsabilidade.

(*) Não estou dizendo com isso que as mulheres são desajustadas ou descontroladas, mas que dada as circunstâncias fisiológicas de dor e apreensão nesse período, qualquer pessoa, inclusive homens em situações equivalentes, pode perde a razão. 

9 comentários:

Ana Cristina Duarte disse...

Mata uma curiosidade minha, Adalberto? Qual é a taxa de cesarianas da sua esposa? E do seu pai? Como nasceu o seu filho?

Adalberto Taques disse...

Falando em termos numéricos, ou percentuais, não saberia responder. Sei que meu pai faz mais partos cesária, que normal, por opção dele. A paciente tem sempre a opção de operar com outro médico. Minha esposa faz tanto normal como cesária na mesma medida, dependendo da condição da paciente. Meu filho nasceu de cesária, assim como eu, minhas irmãs, e minhas sobrinhas. Meu filho estava em posição pélvica, com duas voltas de cordão no pescoço.

Anônimo disse...

Prezado Adalberto prefiro te ver discorrendo conteúdos teológicos, a vê-lo escrever sobre Humanização Do Parto. Do segundo tu és péssimo! Por favor não promova desinformação. Pois o movimento está embasado em recentes estudos científicos, o que é conhecido na Academia como Medicina Baseada em Evidências. Qdo emite tal opinião simplesmente demonstra o quão desentendido do tema a qual se propôs a falar tú estás. Triste... muito triste. A propósito, a OMS (Organização Mundial da Saúde) dá diretrizes para o atendimento ao parto, e o que o movimento reivindica, é que os profissionais repensem suas práticas, inclusive observando o que a OMS orienta. Sobre o atendimento de Doula, esse é o nome da acompanhante de parto treinada ( a qual já é reconhecida como ocupação, tem CBO - Classificação Brasileira de Ocupações) tem suas vantagens reconhecidas pelo Ministério da Saúde e comprovadas cientificamente, por tudo isso em breve será lançado o programa Doulas no SUS. Só pra saber, essas mulheres que vão as ruas não lutam só pelos seus direitos, em parte é verdade o que falou sobre "pessoas financeiramente confortáveis", pois são pessoas com maiores índices de escolarização, com mais acesso à informações de qualidade, não se dobram a qualquer achismo! Elas estão trabalhando para que Humanização do Nascimento, não seja sinônimo de poder aquisitivo, e sim direito de toda mulher. O movimento é isso, traz informação a mulher para que ela possa ser protagonista sim, desse momento. E Hellooo!!! Médicos não são seres superiores, que em suma tem respostas pra tudo!Não estão hierarquicamente acima das demais profissões, são seres humanos, sujeitos a erro, insegurança, medo, é assim! E mais, parir é fisiológico, assim como respirar, evacuar, fazer bbs, logo só algumas pessoas precisam de intervenções, qdo não conseguem fazer tais coisas sozinhas.Certo? E só pra te situar, este movimento que no Brasil está acontecendo, ocorreu na Inglaterra há 30 anos. Não estamos retrocedendo, estamos avançando, querendo o que as mulheres do primeiro mundo tem, direitos reprodutivos garantidos! Pode ver aqui como são as coisas por lá http://www.youtube.com/watch?v=68NDxYif0sA&feature=player_embedded
Mas como estamos em um país onde há liberdade de expressão vc pode continuar falando o que quiser, assim como nós do movimento vamos continuar orientando as mulheres a tomarem decisões conscientes, através do conhecimento de estudos científicos, para elas consigam escolher por quais profissionais desejam ser assistidas, e para que saibam que é possível processar um profissional médico que faz um procedimento desnecessário, como sabemos que é grande parte das cesáreas realizadas em nosso país. Isto porque, o Código de Ética Médica no CAP. 3 Art 14 Diz que é Vedado ao Médico: "Praticar ou indicar atos médicos desnecessários..." E vc sabe muito bem que Deus nos fez perfeitos, inclusive para parir!!! Em tempo: Parto Humanizado e Parto Domiciliar não são sinônimos, vc deixou isso confuso no seu texto!

Adalberto Taques disse...

Caro Anônimo, em nenhum momento eu desconsiderei a escolha que a gestante tem para com o seu parto, apenas salientei que essa escolha não pode arrastar outras pessoas em caso de risco. Salientei ainda que o médico também tem que ter escolha se quer ou não fazer o parto da maneira como a gestante quer. No caso de não haver entendimento entre ambos, sempre haverá a escolha de um outro profissional. Também falei do tom agressivo como essa campanha descreve o trabalho geriátrico, tal como violência, frieza, desrespeito e outras coisa mais. Reconheço que deve existir obstetras com pouco ou nenhuma conduta profissional, eu mesmo conheço alguns. Mas isso não significa que toda uma categoria pode ser rotulada como essa campanha o faz. Quanto ao fato de Deus nos criar perfeitos, devo esclarecer que após o pecado somos seres caídos, imperfeitos moral e fisicamente. Deus deu sabedoria aos homens, e creio que dentre muitos avanços, o parto cesária é um deles, visto que em muitos casos, crianças nasceriam com mal formações decorrentes do parto normal, ou até morreriam, caso não fosse necessária a intervenção cirúrgica.
Quanto ao fato de pessoas de maior posse aquisitiva aderirem ao parto, no Brasil de hoje isso não significa maior entendimento, pois informações não significa compreensão. Hoje as pessoas são maios informadas que ontem, mas muito menos formadas que sempre. A grande questão é segurança, coisa essa que uma mulher pobre não tem em casa para ter o seu filho.
Quanto ao parto domiciliar, é parte, pelo que entendi na campanha, das reivindicações - parir onde, quando e com quem quiser. Por isso, ainda que não seja a mesma coisa, ta no mesmo pacote do movimento.
Sendo assim, Anônimo, entendo que a campanha de vocês é um revés ao intenso uso de partos cesária, e respeito a preocupação(não sendo mercantilista como observo aqui em Cuiabá) em querer o melhor para as mulheres. Apenas cuidem para não buscarem a justiça de maneira injusta, denegrindo e ofendendo obstetras que têm a vida inteira em dedicação ao nascimento de crianças. Não os tratem como mercenários, pois isso eles não são. Nunca estudei em uma sala de aula em toda a minha vida (e isso inclui o seminário em Goiânia, ou seja, fora de Cuiabá) onde não estivesse um colega que nasceu pelas mãos do meu pai, ginecologista obstetra desde 1971. Não vejo protagonistas em um parto, mas a necessidade de uma criança nascer em segurança, bem como o cuidado para com a mãe. Creio que para isso pessoas são formadas na medicina, e não nos modismos que surgem através de modelos.
Ps.: Para vc ver o xiismo que esse movimento tornou-se aqui em Cuiabá, uma das doulas que promovem o movimento está grávida, e quer ter parto cesária. Por isso está sendo duramente atacada pelas "amigas". Onde ficou o parir onde, quando e com quem eu quiser? Ah, por certo o como não entra.

Juliana Buzzinaro disse...

Obstetras não são um mal desnecessário. Disse muito bem. São extremamente necessários e consistem num bem a uma gravidez, desde que bem escolhidos, num mundo em que haja opção.

Infelizmente essa não é a realidade da maioria das mulheres no Brasil, que muitas vezes nem acesso a um Pré Natal de qualidade tem.

Fui extremamente bem atendida pelo obstetra que escolhi, o QUARTO que visitei. Não confiaria a vida do meu filho (e a minha) aos outros três. O tipo de parto é um detalhe se a gente confia em quem nos acompanha. Mas infelizmente essa confiança não é tão simples hoje em dia.

Fui submetida a uma cesárea, feita no dia em que entrei em trabalho de parto. Se o médico me induziu a isso? De forma alguma...
Tenho um motivo médico (hematológico) raro que meio que indicava a via de parto, embora a indicação seja questionada por uma parte dos poucos estudos sobre o tema. Eu, Juliana, preferi não arriscar. Não sou romântica, sou objetiva. O parto para mim foi um detalhe, para alcançar o objetivo maior: meu filho. Tudo correu da maneira mais tranquila e ficamos todos bem.

Quem achou ruim e quiser invadir o meu quadrado, fique à vontade para pagar minhas contas!

Adalberto Taques disse...

Oi Juliana... como diria Vinícius... "se todas fossem iguais a você". Parabéns pela lucidez de suas palavras. É uma pena que em uma era de tanta informação, haja tanta deformação no pensamento e conduta das pessoas, que fazem de um movimento supostamente em prol da vida, uma guerra por vontades e protagonismos. Que Deus abençoe vc em seu trabalho e sua família.

Juliana Buzzinaro disse...

Leia esse post aqui: http://www.superduper.com.br/2012/08/o-direito-cesarea-eletiva.html
Embora ela seja radicalmente contra as cesáreas os argumentos do texto são muito válidos no que diz respeito ao direito de escolha no Brasil.

Anônimo disse...

Mal formações ocorrem DURANTE a gestação, e nao durante o parto, pois o bb ja esta formado....

Adalberto Taques disse...

Obrigado Anônimo pela correção. Apesar do termo errado, isso não isenta o fato de problemas decorrentes do parto normal por falta de oxigenação. Problemas outros que tb podem ocorrer em cesarianas. Nesse sentido, a coisa é bem democrática, tanto o normal quanto a cesária podem apresentar complicações.