domingo, 29 de março de 2020

Deus Santo e Amoroso

Mas Deus, sendo rico em misericórdia, por causa do grande amor com que nos amou, e estando nós mortos em nossos delitos, nos deu vida juntamente com Cristo, — pela graça sois salvos
(Efésios 2.4,5)
“Tudo que você precisa é amor” já dizia exaustivamente a música dos Beatles. Aparentemente é mais fácil falar de amor. Amor é um tema quase sempre agradável de se tratar. É algo que todos desejam, estimam. É automático para muitos dizer que a solução para o mundo é mais amor, ou simplesmente amor ao próximo.
Mas amor, meramente amor, não é a resposta. C. S. Lewis já disse que “Deus é amor, mas o amor não é Deus”. Amor não é um ser, uma entidade ou uma substância que pode ser absorvida pelos homens como um tipo de vacina contra todo o mal. À parte de Deus, o amor é um dos maiores males que existe na face da terra. Somente em Cristo é que temos o verdadeiro amor poderoso para resgatar os homens da sua condição de miséria espiritual.
      1. Qualquer maneira de amor vale a pena?
a)     Paula e Bebeto é uma música muito bonita de Milton Nascimento, escrita sobre a separação de um casal de amigos nos anos 70. Mas estética musical à parte, a questão é que podemos colocar é: qualquer maneira de amar é amor de fato? É valido e aceitável por simplesmente ser chamado de amor?
b)      João nos diz que existe um amor que não vale a pena, que é inaceitável e proibido por Deus: “Não ameis o mundo nem as coisas que há no mundo. Se alguém amar o mundo, o amor do Pai não está nele” (1 João 2.15). Esse amor pelo mundo e suas coisas (concupiscência da carne e dos olhos, e a soberba da vida – v. 16) é o tipo de amor que não vale a pena nem o canto.
c)      O que não falta é amor na humanidade. Mas esse amor é tão deteriorado do seu valor essencial – entregar-se – que sequer é reconhecido assim. As pessoas se amam antes de tudo, e, consequentemente, amam tudo o que pode lhes trazer benefícios. Esse amor, quando tem alguma “entrega”, não o faz sem algum “retorno”.
d)      É por conta desse tipo de amor que o mundo se encontra tão minado do que é verdadeiramente amor. Esse tipo de amor mundano é um amor pobre, miserável, em todos os sentidos. Mesquinho que volta tudo para si. Somente o amor de Deus é rico e benevolente de verdade.
       2. O amor que valeu a Pena.
a)      Essa expressão “valer a pena” tão usada, mas pouco refletida, encaixa-se perfeitamente no amor de Deus. Valer a pena significa compensar o dano, a perda, a condenação se sofre em razão de um ato. Por isso o amor de Deus é santo, pois somente ele compensou verdadeiramente o dano que sofreu. Mas vamos começar a falar sobre esse amor por sua entrega.
b)      O versículo mais conhecido da Bíblia nos diz exatamente isso “Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (João 3.16). O amor de Deus constitui-se basicamente de uma entrega. Ele entregou seu Filho, seu Unigênito a quem Ele ama. Essa entrega não tinha para si mesmo nenhum ganho pessoal, nenhum retorno de algo que lhe faltava. Ele entregou seu Filho para nosso ganho, para ganharmos a Vida Eterna, evitando a perdição eterna.
c)      Em Efésios 2.4, Paulo também diz a mesma coisa quando nos fala que Deus “sendo rico em misericórdia, por causa do seu grande amor com que nos amou... nos deu vida”. Mais uma vez o amor é uma entrega. Primeiro a entrega do Filho, segundo, e com Ele (nele) a entrega da Vida. O amor de Deus nos deu vida eterna, mas a que custo? Ao custo da própria vida de seu Filho.
d)      Ainda em João, o próprio Jesus disse “Ninguém tem maior amor do que este: de dar alguém a própria vida em favor dos seus amigos” (João 15.13). Mais uma vez o amor é associado a dar, entregar, sem retorno previsto. E afinal, o que podemos receber em troca de uma vida? Por outro lado: o que compensa a morte?
      3. Deus é amor.
a)      João (quase sempre ele) nos diz que quem “ama é nascido de Deus e conhece a Deus, pois o amor procede de Deus” (1 João 4.7). Só conhecemos o amor verdadeiro quando somos achados por esse amor. Só amamos de verdade, quando descobrimos o grande amor com que Deus nos amou.
b)      Esse é o amor que transcende sentimentos, ou ações egoístas. Esse é o amor que não se encontra no mundo. Esse é o amor que vale a pena.
c)      O amor do Pai e do Filho valeu a pena, não foi em vão. Jesus ressuscitou. Esse é o amor santo, incomparável e maravilhoso. Esse é o amor que nos dá mais do que o sentido para a vida, nos dá a própria Vida.
Conclusão:
            Creio que devo concordar em parte com a música dos Beatles que diz “tudo que nós precisamos é amor”. Mas a pergunta é: de que amor estamos falando?
            Qualquer outro amor nesse mundo, não é somente passageiro, é mal. No fim trará mais do que desilusão, traz destruição.
Precisamos do amor de Deus, em Cristo, que por nós se entregou, e com Ele, nos deu Vida. Esse é o amor que também nos faz amar. É aquele que se entrega, e que nos capacita a fazer o mesmo.
     



domingo, 22 de março de 2020

Deus Santo e Irado

“A ira de Deus se revela do céu contra toda impiedade e perversão dos homens que detêm a verdade pela injustiça" Romanos 1.18


II.   
Ao longo da História, em tempos mais remotos, Deus era mais comumente retratado como um Deus irado. A visão que Lutero tinha de Deus, de um Deus punitivo, com o pavor que lhe causava, fazia com que se penitenciasse a fim de aplacar sua ira. Jonathan Edwards pregou seu famoso sermão “Pecadores nas mãos de um Deus irado” nos tempos de avivamento do século 18. Contudo, a partir do século 19, essa perspectiva mudou radicalmente. Os homens já não eram mais “tão pecadores”, e Deus, por sua vez, já não estaria “tão irado”. Por que, e o que mudou?
Primeiro faz-se necessários considerar a visão Teológica Liberal sobre Deus e o homem. O liberalismo teológico propagado a partir do século 19, buscou esvaziar as Escrituras de tudo que pudesse ser considerado sobrenatural. Toda e qualquer ação divina na história, seja pela Providência, ou mesmo através de milagres, passaram a ser creditados como mitos criados a fim de causar nos leitores uma certa apreensão. O trabalho dos teólogos naqueles dias era desmistificar o texto bíblico “recheado de lendas” escritas para uma sociedade “primitiva” (perspectiva que já refletia uma cosmovisão evolucionista).
Segundo essa perspectiva, a humanidade havia evoluído, e o pensamento iluminista insistia que o homem, cheio da razão, não tinha mais necessidade de “contos da carochinha”. E como toda evolução, em tese, é para o bem, homens bons não precisavam se preocupar com a ira de Deus. A Bíblia passou a ser apenas um gigante manual da boa conduta.
O pensamento liberal permeia a mente de todos os que acham que não são tão maus, e que por isso, Deus, não tem o direito de se irar conosco, ou com a humanidade. A “fé na humanidade” é uma afirmação bastante difundida diante de grandes ou pequenos gestos de solidariedade. Mas, o que na verdade afirma-se nessa fé é a suficiência do homem em detrimento da Santidade de Deus.
Em suma: O homem não é tão mau, ele pode sempre melhorar. E Deus, que não é o único ser bom, não tem razão para se irar, apenas precisa ser mais paciente.
Mas qual é a visão bíblica de Deus e do homem?
Romanos 1.18 nos diz que Deus revela sua ira. Mas nos versículos 16 e 17, Paulo já havia dito que o “evangelho, porque é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê” e que “a justiça de Deus se revela no evangelho, de fé em fé”. Antes de entrar na ira de Deus, por assim dizer, Paulo anunciou o evangelho do poder da salvação dos homens, mediante a justiça revelada e recebida pela fé.
O que está implícito aqui, e explícito em outras passagens bíblicas, é que o homem é pecador, está perdido, condenado, morto em seus delitos e pecados. Nessas condições o homem não pode salvar-se a si mesmo. O único que pode salvá-lo é justamente aquele contra quem ele pecou: Deus. E é aí que podemos observar a grandeza de Deus em sua graça, pois justamente Ele quem sofreu a ofensa é quem oferece redenção para o ofensor.
Tamanha bondade imerecida é chamada de graça. E por ser assim tão “incrível”, é que só pode ser recebida pela fé, ou seja, a pura e simples confiança exclusiva em Deus e em seu caráter bondoso. 
Mas se Deus é assim tão bom, ainda há espaço para a ira? É justamente por isso que a visão bíblica da ira de Deus contra os homens se sustenta.
Tome como ponto de partida o que diz Isaías. Na mesma profecia que diz “vinde como estais”, também diz “deixe o perverso o perverso o seu caminho, e o iníquo os seus pensamentos; converta-se ao Senhor” (Isaías 55.1,7). O Evangelho é o poder de Deus para a salvação daqueles que “não têm dinheiro para comprar o que comer”. O homem “espiritualmente negativado”, falido no pecado, é convidado para a mesa do Senhor a quem ele deve literalmente até a alma. O mesmo chamado que admite que o homem não pode se salvar, diz que seus caminhos devem ser endireitados. Isso só é possível pela fé na obra do Salvador.
Esse evangelho que é poder para a salvação, é um convite gracioso do Santo Deus criador dos céus e da terra. Rejeitar esse convite implica não meramente em uma falta de etiqueta, mas em pecado. O pecador é pior do que um cão que morde a mão do seu dono que o alimenta. A ingratidão nesse caso é dobrada em função do fato de que o homem já era devedor. O homem, uma vez convidado ao arrependimento para que sua dívida fosse cancelada, que procede com soberba, não pode esperar nada além da ira de Deus.
Essa ira de Deus é, portanto, santa e justa. (1) Santa não apenas porque procede daquele que é moralmente perfeito, mas também porque procede daquele que não é como ninguém mais. Não podemos comparar a ira de Deus com a nossa, pois Ele está acima de tudo e de todos, e não está sujeito às contingências do tempo e do espaço. (2) Ela é também justa porque não procede de um capricho, ou é desproporcional a sua causa. A ira de Deus não é uma irritação ou um incômodo, mas a manifestação de um julgamento perfeito, e, portanto, proporcional sobre o pecado dos homens.
O que concluímos disso tudo?
Não podemos negar a manifestação da ira de Deus sobre a humanidade ao longo da história. Assim como nas Escrituras constatamos que guerras, fomes, pestes e outras tragédias naturais são creditadas à Deus, também devemos entender que esse mesmo Deus continua sendo o mesmo.
Mas antes de observamos a ira de Deus, devemos atentar para o fato de que Deus, mesmo sendo ofendido pelo nosso pecado, enviou seu Filho para pagar o preço dessa ofensa, com seu sangue na cruz. Esse é o evangelho que salva, que só pode ser recebido pela fé, porque nada em nós pode nos creditar diante de Deus. 
Deus ao longo da história manifesta sua ira, pois ele não pode deixar o pecado impune. Um Deus bom e santo certamente tomará vingança contra seus ofensores, especialmente aqueles que desprezaram o sacrifício do seu Filho na cruz. 
Mas a ira final ainda está para ser derramada. Antes que isso aconteça, o evangelho nos chama a fé e ao arrependimento, ou seja, a confiança na bondade de Deus, e ao abandono das nossas obras más que tanto ofendem aquele que é Santo.
Que Deus nos ajude! 

terça-feira, 24 de dezembro de 2019

Natal de Luz e Vida



Natal é de fato luz. Basta lembrar que os pastores que guardavam seus rebanhos na vigília da noite, e que receberam primeiro as boas novas dos anjos sobre aquele natalício, foram tomados de assombro com a grande glória e o brilho ao seu redor. Também, posteriormente, uma estrela guiou os reis magos até o recém-nascido rei dos judeus. Hoje, as luzes sobrenaturais do primeiro Natal dão lugar às luzes artificiais que iluminam as cidades com seus comércios. De uma forma ou de outra, luzes estão sempre presentes.
O Evangelho de João não faz uma descrição histórica do Natal. Mas ele nos diz que “o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e contemplamos a sua glória, glória como do Unigênito do Pai, cheio de graça e verdade” (João 1.14). Sim, o Filho de Deus, nascido de Maria por obra do Espírito Santo, como descrito por Lucas, é o Verbo encarnado. E esse mesmo Verbo, que é Deus, que estava com Deus no Princípio, criou todas as coisas, e a própria vida. Ele é a vida é a luz dos homens.
Antes das luzes de Natal, do histórico e do contemporâneo, Jesus é a Luz do mundo, e a Vida dos homens. João Batista foi designado pouco antes como testemunha da Luz, pois apesar do mundo ter sido feito pelo Filho, esse mesmo mundo não o conheceu. E mesmo vindo para o que era seu (sua possessão, o que era seu por direito messiânico), os seus (seu povo, sua propriedade exclusiva – Êxodo 19.5) não o receberam (Isaías 1.2,3). Se o mundo criado por ele, e nesse caso, mais especificamente os seres humanos não o conheceram (amaram), era de se esperar que pelo menos o seu povo o recebesse. Mas isso também não aconteceu.
A Luz do mundo, a vida dos homens, é negada e rejeitada, mas ainda assim não pode ser apagada, nem morta. Assim como em Efésios 2.4, um “mas” muda toda a história de trevas e morte. Aqueles que o receberam, receberam a filiação divina. Receberam a luz que é a vida. Contemplaram a glória do Unigênito do Pai, e foram feitos suas testemunhas num mundo de trevas.
Esse é o Natal de Luz e Vida que anunciamos. Jesus, Luz e Vida, crido pela fé dissipa as trevas do pecado, e traz vida aos homens que se encontravam mortos espiritualmente.  



terça-feira, 23 de abril de 2019

Indigência Espiritual



Li certa feita que um dos erros da teologia da prosperidade é tentar adiantar o cumprimento de certas promessas de Deus. No caso, as riquezas materiais que esse movimento reclama para o tempo pressente só se cumprirão perfeitamente na glória. Ausência de dor, sofrimento e plenitude material são realidades futuras, num lugar onde a matéria prima usada na construção da Nova Jerusalém são pedras e metais preciosos (Apocalipse 21). Mas devo admitir que existe outro tipo de prosperidade para hoje, aquela expressa nas Palavras do Senhor Jesus quando diz “eu vim para que tenham vida, e a tenham em abundância” (João 10.10).
Essa prosperidade pode ser muito bem compreendida pela na Parábola do Filho Pródigo. Quando caiu em si, na miséria em que se encontrava, desejando compartilhar da ração dos porcos, o filho pródigo se lembra da fartura da casa de seu pai, que inclusive abastecia seus funcionários. Aquele rapaz, em terra estrangeira, servindo no pior trabalho que um judeu podia considerar, lembra-se do quão rico e benevolente é o seu pai, e por isso, arrependido, decide voltar. A descrição de seu estado ao ser encontrado no caminho próximo da casa de seu pai é de um maltrapilho indigente, sem o seu sinete, descalço e com fome. O pai lhe restaura tudo isso, e festeja sua volta.
É evidente que uma parábola não tem aplicação literal, pois não trata meramente de alguém que fez escolhas financeiras erradas, que quebrou, e que depois viu-se restituído a sua condição primeira. A parábola trata do pecador que acredita que pode viver às custas das bênçãos de Deus, sem, contudo, ter com Ele comunhão. Esse pecador descobre a duras penas que as dádivas naturais que atendem aos justos e injustos não são lhes são suficientes (Mateus 5.45). Ele precisa voltar para casa, ele precisa voltar para seu pai, onde encontra pão e perdão. Deus tem abundância (fartura) de vida para nós, e foi para isso que seu Filho veio. Justiça, identidade e alimento espiritual nos são dados em Cristo na comunhão com Deus.
Por isso, o rei Davi, mesmo que do alto de seu trono, declarou que quando deixou de confessar seus pecados, seus ossos envelheceram e suas forças iam se acabando (Salmo 32.3,4). A despeito das condições materiais favoráveis nas quais Davi se achava, por causa do pecado suprimido em sua alma, o monarca de Israel se encontrava em estrema miséria espiritual. Nenhum trono substitui a comunhão com o Pai, nada pode ser mais próspero que sermos reconciliados com o Rei da Glória.
Em suma, o evangelho da reconciliação com o Pai, é um tesouro em vaso de barro (2 Coríntios 4.7) e nele temos toda prosperidade, presente e futura. Cristo nos concedeu o seu Nome, pelo qual somos chamados filhos de Deus. Também nos concedeu justiça e propósito de vida. Negligenciar isso é tornar-nos tão pobres e famintos quanto o filho pródigo quando servia aos porcos. É adoecer e enfraquecer tanto quanto o adúltero e assassino rei Davi antes de ser perdoado. O fato é que o pecado nos separa de Deus, mas, também, é Deus que nos separa do pecado. É Jesus Cristo quem encerra a subsistente condição de indigência espiritual. É em Cristo que temos vida abundante da graça, e nos tornamos o povo mais próspero deste mundo. 

terça-feira, 7 de agosto de 2018

Qual é o teu Nome?

Perguntou-lhe, pois: Como te chamas? Ele respondeu: Jacó.
Gênesis 32.27

Jacó, que significa suplantador, trapaceiro, viveu sua vida até aquele dia à sombra do seu nome. De fato, esse nome dizia muito acertadamente quem ele era. Lutando contra o Anjo, sem entendermos bem por que razão exatamente, o patriarca pelejou a noite toda. É óbvio que o Anjo podia tê-lo vencido rapidamente, mas deixou a briga se arrastar até quando quis. Para por fim a disputa, simplesmente golpeou sua coxa tornando Jacó manco. E, como tal, em condições humilhantes, o patriarca "deteve" seu oponente para que lhe abençoasse. Esse é o tipo de história que parece estranha, com pontos cegos, mas que a luz das Escrituras pode ser esclarecida.
O Anjo proporcionou ao nosso anti-herói um déjà-vu. Ele fez uma pergunta muito semelhante a que anos atrás Jacó ouviu quando pelejava pela benção com seu pai, enganando-o, e ao mesmo tempo passando a perna em seu irmão Esaú: "Como te chamas? Quem és tu, meu filho?" Na primeira vez, diante dos olhos cegos de seu pai, sua resposta foi "Sou Esaú, teu primogênito". Mas agora, diante daquele que tudo vê, sua resposta sincera e simples foi "Jacó". Era praticamente uma confissão.
Conta a anedota que o menino mal-criado respondeu ao padre: Eu não me chamo, os outros é que me chamam. O nome Jacó, dado ao segundo filho de Isaque já previa quem ele seria, o que de fato confirmamos pela sua história. Mas o mesmo pode ser dito do nome dado pelo Anjo: Israel significa "Deus Prevalece". E pela própria explicação dada em seguida, fica claro que "como príncipe pelejou com Deus e com os homens e prevaleceu". Tratava-se agora de um êxito honroso, não mais de artimanhas ou traições. O velho Jacó tinha tido sucesso como Israel, como "Deus Prevalece".
Devemos considerar que o propósito de Deus prevalecia sobre o patriarca. Mesmo antes de nascer, quando já lutava no ventre de sua mãe com seu irmão, o SENHOR já havia anunciado que o menor prevaleceria sobre o maior (Gênesis 25.23). O segundo tornaria-se o primeiro (príncipe); o menor, o caseiro e mais frágil, tornaria-se aquele que lutaria com o próprio Deus. Jacó sempre foi Israel.
Porém, outro aspecto precisa ser considerado nessa história ainda um pouco nebulosa. Israel não seria apenas o nome do patriarca, mas da nação escolhida por Deus. E nesse sentido, a nação também faria jus ao primeiro nome de seu pai. Israel era Jacó, pois desde os seus doze filhos observamos sucessivas ocasiões de enganos e traições. Basta a leitura dos primeiros versículos da benção de Israel aos seus filhos para se ter ideia de episódios assim na vida dos seus três primeiros filhos (Gênesis 49.1-7). Também toda história de Israel desde o Êxodo até o Exílio faz com que percebamos que as características de Jacó se aplicavam a sua descendência. A traição no deserto veio através da idolatria, e se estendeu à terra prometida nos dias dos Juízes. Mentiras, adultério e violência também adentraram aos palácios dos reis de Israel, e se viu junto aos sacerdotes e do povo. As denúncias dos profetas ao longo da narrativa do Antigo Testamento sempre apontaram para o quanto esses filhos conservaram viva a fama do nome Jacó em sua trajetória.
Indo além deste período, mesmo no Novo Testamento, observamos que a Igreja, o Israel do Senhor, também por vezes se porta como seus pais na Antiga Aliança. Relatos em Atos, como no caso de Ananias e Safira, casos vergonhosos descritos nas epístolas aos Coríntios, nos dão a sensação de que o tempo não passou, e que como disse Belchior em sua célebre canção "ainda somos os mesmos/ e vivemos como nossos pais". Em muitos aspectos como a nação de Israel, a Igreja nesses últimos dias é sua extensão não somente como herdeira da promessa, mas ainda como representante desse nome paradoxo nascido do ventre de Rebeca. Somos um povo de segunda, fracos, desprezíveis (1 Coríntios 1.26-28), mas que também recebeu o nome de um Príncipe. Apesar de correspondermos a alcunha de Jacó, desde a eternidade já havia sido preparado para nós o nome de Israel.
Israel não era apenas o segundo nome que o Patriarca receberia, ou o nome da Nação que dele descendia. Israel era o nome do Príncipe que lutou com Deus e o os homens e prevaleceu. Era o nome do Filho escolhido de Deus "Quando Israel era menino, eu o amei; e do Egito chamei o meu filho" (Mateus 2.15; Oseias 11.1). Jesus, que significa "Ele salvará o seu povo dos seus pecados", é o Nome acima de todo nome. Na cruz Jesus pelejou por nós com Deus, e diferente de Jacó, que apenas teve a sua coxa tocada, o Cristo não foi poupado. Mas apesar do que podia parecer fraqueza ou derrota, sua morte foi, na verdade, sua vitória. Deus Prevalece é o seu Nome, e é nesse nome que somos contados como quem também prevalece.
Quando perguntam pelo meu nome, posso responder com aquele que recebi de meus pais. Junto com ele recebi uma herança maldita desde Adão. Por trás do meu nome escondem-se muitas coisas das quais me envergonho, e que me lembram o nome de Jacó. Lutei com minhas forças para mudar de nome, mas somente pelo Nome de Israel, o Filho a quem Deus ama, e que por mim se entregou na cruz, é que pude receber um novo nome: Cristão. Como Jacó, ainda manco como efeito da luta que travei ao longo de minha vida. Como Jacó, pelo restante dos meus dias serei ainda lembrado pelos pecados que cometi e cometo. Mas como Israel, prevaleci com um nome que não me foi dado quando nasci, que não era meu, mas que estava preparado para mim desde antes da fundação do mundo, e no qual foi abençoado.

terça-feira, 31 de julho de 2018

Jesus foi um refugiado?


Ontem, durante a entrevista do candidato a presidente Jair Bolsonaro no programa Roda Viva, um jornalista afirmou que Jesus foi um refugiado. Ele questionava incoerência do candidato por suas supostas críticas aos refugiados que entram em massa no país. Uma vez que Jair se diz cristão, e sendo Jesus um refugiado, como poderia o candidato menosprezar essas pessoas? Creio que o jornalista se referia ao fato de que Jesus com sua família, por ordem divina, foi ao Egito para escapar da perseguição do rei Herodes contra ele (Mateus 2.13). A despeito da intenção política promovida na entrevista, creio que existem algumas relações dignas de ponderação na identificação proposta pelo jornalista sobre Jesus e os refugiados.
É evidente, nesse sentido, que existe uma co-relação entre os refugiados hoje com fuga de Jesus ainda criança para o Egito. De fato, existem paralelos que devem nos fazer pensar na crise humanitária enfrentada hoje em diversos países, tanto do Oriente como do Ocidente, e as ameaças que levaram Jesus e seus pais a se retirarem para o Egito. Porém, mais do que um debate sobre política internacional, a busca por refúgio é um tema que deve ser considerado sobre todos, seja em sua forma mais evidente ou concreta no cenário mundial, ou em circunstâncias relativas e existenciais de cada um.
O que se deve levar em conta primeiro em tudo isso, é que os paralelos não são exatamente iguais. Quando observamos o cenário internacional nos dias de Jesus em comparação aos nossos dias, nos deparamos com contextos consideravelmente diferentes. A atual conjuntura consiste de nações politicamente organizadas sob governos autônomos. A despeito da paridade entre muitas nações, cada país tem seus limites, leis e reservas quanto a imigração. Nos dias de Jesus, no mundo civilizado, as nações subsistiam sob a autoridade de Roma, no contexto da Pax Romana, e o deslocamento entre os países dentro do Império era livre. A diáspora dos judeus era uma realidade já há muitos séculos, por inúmeros fatores. Portanto, sair da Palestina para outros lugares do Império não consistia necessariamente em um tipo de imigração ilegal, ou uma marcha desesperada como hoje se vê entre as nações. Contudo, apesar deste aspecto histórico, outras circunstâncias observáveis em nosso tema são convergentes em suas similitudes.
Por um lado, se a configuração política internacional de outrora não era a mesma de hoje, podemos observar que por outro prisma que a causa da fuga de Jesus para o Egito é, sob alguns aspectos, semelhante aos motivos que levam milhões de pessoas procurarem refúgio em outras nações nestes últimos tempos. Foi a violência do rei Herodes, o seu desejo de morte ao Messias, que fez com que Jesus precisasse mudar da Palestina para o Egito. A loucura do tirano déspota exterminou milhares de meninos abaixo de até dois anos de idade pelo simples fato de não ter descoberto o domicílio do recém-nascido Rei. Assim também hoje, muitas vidas são ceifadas em países dominados por governantes homicidas. Em países de religião islâmica, conflitos entre etnias que compartilham a mesma fé, e ao mesmo tempo compartilham o ódio uns pelos outros, deixam incontáveis famílias destroçadas. Mais próximos de nós, em nosso continente, países vizinhos regidos por governos regidos por políticas de Esquerda, promovem igualmente a violência e a fome, levando inúmeras famílias a evasão de sua própria pátria. O que está por trás de tudo isso é o pecado da violência, do ódio ao próximo, da força usada contra o mais fraco por amor ao poder. Nesse aspecto, a fuga de Jesus é realmente similar a busca dos refugiados por um lugar seguro em outros países. Todavia, apesar dessa semelhança, há ainda uma notável diferença.
Esses governos que hoje promovem o horror e a necessidade de fuga de seu próprio povo, não têm como alvo uma pessoa específica. É a sandice dos que acreditam que a morte das pessoas que se opõe ao seu poder seja o preço a ser pago para sua perpetuação. O disparate de Herodes também visava sua perpetuação no poder, mas não porque se sentia segura para fazer o que bem lhe parecesse. O rei edomita sabia que um menino nascido naqueles dias seria o Rei de Israel, e que o seu Governo não teria fim. Ele temeu sobremaneira aquela criança. Seu ódio, por causa do destrato dos reis magos, não encontrou nome nem endereço do recém-nascido rei, e por isso muitos pequeninos foram mortos. Por perceber que seu reino tinha seus dias contados, apegou-se ao engodo de que poderia perpetuar-se para sempre com a morte do pequeno Rei. Ledo engano.
A ira de hoje é aleatória, tem causas diversas, e por vezes aparentemente antagônicas. Ao mesmo tempo que regimes políticos erigidos sob a afirmação de que a religião é o ópio do povo, religiosos monoteístas valem-se igualmente de métodos que promovem a morte dentro de sua própria pátria. “Todos iguais, mas uns mais iguais que os outros”. Política e religião se entrelaçam na intenção de fazerem seus nomes célebres ao custo de sangue derramado. Isto é o que está no âmago do êxodo de milhões de pessoas, e que parece que o “mundo civilizado” simplesmente ignora. Discute-se muito a recepção ou não dos refugiados, mas pouco se fala sobre a razão de seu exílio. De maneira hipócrita, alguns defendem que se escancarem as portas das nações para estas em fuga, mas sequer são capazes de condenar os monstros que as expulsaram de seu próprio domicílio. É um cenário catastrófico, onde não se achará lugar seguro para sempre, sem se enfrentar todo o mal responsável por tudo isso. Como desfazer esse caos?
Jesus nos mostra o único caminho seguro para o refúgio dos povos. Sua fuga quando criança para o Egito não foi para evitar a morte, mas para encontrá-la muitos anos depois, em Jerusalém. O rei Herodes não poderia matar o Rei dos reis, pois “sua hora não era chegada”. Era necessário que o Cristo padecesse antes de entrar em sua glória. E esta era sua glória: que ninguém poderia tirar a sua vida, mas ele mesmo voluntariamente a daria. Quando Jesus morreu na cruz, ele matou a Morte. Ao fazer isso, seus agentes, humanos ou demoníacos, foram despojados. Ele, pois, está assentado em seu alto e sublime trono, acima de todo principado e potestade. A Ele foi dada toda autoridade no céu e na terra. Jesus é hoje o refúgio seguro para os refugiados, sejam daqueles que fogem sua pátria para outras, ou daqueles que buscam refúgio em qualquer coisa sem sequer sair do lugar. Pela fé em sua pessoa e obra, todos os povos da terra encontram morada eterna em seu Reino. E ainda, pela fé em sua Palavra que diz que Ele voltará, também um dia serão vingados aqueles que sofreram atrocidades em sua peregrinação por essa terra.

"...porque está escrito: A mim me pertence a vingança; eu é que retribuirei, diz o Senhor". Romanos 12.19   

domingo, 24 de dezembro de 2017

Um Filho se nos deu

Isaías 9.6

Jesus, o Filho de Deus, também é o filho que o Pai nos deu. Segundo Mateus 1.1-17, Ele é o Filho de Abraão e de Davi. É o Filho da promessa de que na fé de Abraão seriam benditas todas as famílias da terra (Gênesis 12.3). O cumprimento também da aliança feita com Davi de quem o seu descendente se assentaria em seu trono, e que seu reino seria estabelecido para sempre (2 Samuel 7.12).
Mas Mateus também fala de quatro mulheres das quais Jesus descende. Tamar, que gerou de Judá seu sogro em uma trama onde a graça triunfou sobre a perdição (Gênesis 38). Raabe, a prostituta cananéia que gerou de Salmom em uma história de fé e conversão (Josué 2). Rute, a amalequita que gerou de Boaz na esperança de seu resgate (Rute 4). E Bate-Seba, a que era mulher de Urias que gerou do rei Davi (2 Samuel 12).
A família de Jesus, a sua linhagem, não era perfeita. Mas Ele, sendo perfeito, veio justamente para salvar os pecadores, pois esse é o significado do seu nome (Mateus 1.21).
Assim, Jesus, o filho do homem, também é nascido de mulher (Gálatas 4.4). Ele nasceu conforme anunciado em Gênesis 3.15. Nasceu de Maria, serva do Senhor, que reconheceu nele o seu Salvador. Nasceu para salvar homens e mulheres, judeus e estrangeiros, enfim, todos pecadores que creem que Ele é o Filho que Deus nos deu.

“Glória a Deus nas maiores alturas, e paz na terra entre os homens, a quem Ele quer bem”.

Lucas 2.14